As primeiras coisas

by offarinha

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O romance As primeiras coisas de Bruno Vieira Amaral, Quetzal Editores, não é um bom primeiro romance, promissor, e tal… É apenas um muito bom romance. E, para esta apreciação, são desnecessárias comparações com a criticamente alcandorada novíssima trupe dos tordo, peixoto & mãe, ou com o pretensiosismo de J. M. Tavares. É só, mesmo, um excelente romance.

A estrutura consiste num prólogo longo de 47 páginas, em quase cem fichas ordenadas alfabeticamente (de dimensão variável entre o curto e o muito curto), num epílogo (de qualidade algo decepcionante em relação ao resto) e em 95 notas de rodapé. Tudo isto para apresentar um personagem único – o Bairro Amélia. A trama é urdida pela presença de dezenas de personagens (as tais fichas alfabéticas) que se entrecruzam, aparecem e desaparecem no cenário do Bairro, descritas em pinceladas rápidas, mas com atenta subtileza no detalhe e comentário aforístico sempre tão criterioso quanto incisivo.

O ambiente remete para o Cairo de Naguib Mahfouz e, nos casos piores, para as personagens de Albert Crossery. Parece estarmos num filme do neo-realismo italiano, com personagens da comédia portuguesa e com guião escrito por um judeu nova-iorquino de Brooklin, em que o lastro da memória cultural europeia dos avós é substituída pela dos retornados de África do pós 25 de Abril. O fio narrativo implícito, por vezes sugere uma ou outra reminiscência de Borges. A crueza e a escrupulosa ausência de pieguice alternam com a comoção contida, o humor de gargalhada farta com a subtil ironia de uma narração simultaneamente de grande fôlego e minuciosamente descritiva, alusiva e de uma realidade cruel sempre hiperbolicamente presente. A terrível desolação do fracasso apenas é resgatada pela beleza da escrita, num invulgar domínio da língua, quer no registo vernáculo quer no erudito, e sem distinção, que a descreve.

O narrador, Bruno, percorre o inferno do Bairro Amélia pela mão do fotógrafo Virgílio. No fim da viagem perguntamo-nos se, no termo desta divina comédia em cenário de subúrbio da margem sul, ainda há lugar para alguma esperança.

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