«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Outubro, 2013

Ao cuidado de Assunção Cristas

by offarinha

Xeque Saudita resolve proibir viagens a Marte.

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A Suprema Felicidade Social (2)

by offarinha

Assunção Cristas não quer portugueses com mais de dois cães por apartamento. Em que parte de que mundo é que esta gente toda viverá? E a norte-coreana Cristas, quem é que se lembrou dela (e a sustenta) como ministra do tal governo ultra-liberal? Não se lhes pode atiçar os mastins que a lei proíba de ficar nos apartamentos?

A Suprema Felicidade Social

by offarinha

Venezuela cria vice-ministério para a Suprema Felicidade Social. Nós, por cá, já temos o nosso Joaquim a cuidar destes assuntos.

As primeiras coisas

by offarinha

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O romance As primeiras coisas de Bruno Vieira Amaral, Quetzal Editores, não é um bom primeiro romance, promissor, e tal… É apenas um muito bom romance. E, para esta apreciação, são desnecessárias comparações com a criticamente alcandorada novíssima trupe dos tordo, peixoto & mãe, ou com o pretensiosismo de J. M. Tavares. É só, mesmo, um excelente romance.

A estrutura consiste num prólogo longo de 47 páginas, em quase cem fichas ordenadas alfabeticamente (de dimensão variável entre o curto e o muito curto), num epílogo (de qualidade algo decepcionante em relação ao resto) e em 95 notas de rodapé. Tudo isto para apresentar um personagem único – o Bairro Amélia. A trama é urdida pela presença de dezenas de personagens (as tais fichas alfabéticas) que se entrecruzam, aparecem e desaparecem no cenário do Bairro, descritas em pinceladas rápidas, mas com atenta subtileza no detalhe e comentário aforístico sempre tão criterioso quanto incisivo.

O ambiente remete para o Cairo de Naguib Mahfouz e, nos casos piores, para as personagens de Albert Crossery. Parece estarmos num filme do neo-realismo italiano, com personagens da comédia portuguesa e com guião escrito por um judeu nova-iorquino de Brooklin, em que o lastro da memória cultural europeia dos avós é substituída pela dos retornados de África do pós 25 de Abril. O fio narrativo implícito, por vezes sugere uma ou outra reminiscência de Borges. A crueza e a escrupulosa ausência de pieguice alternam com a comoção contida, o humor de gargalhada farta com a subtil ironia de uma narração simultaneamente de grande fôlego e minuciosamente descritiva, alusiva e de uma realidade cruel sempre hiperbolicamente presente. A terrível desolação do fracasso apenas é resgatada pela beleza da escrita, num invulgar domínio da língua, quer no registo vernáculo quer no erudito, e sem distinção, que a descreve.

O narrador, Bruno, percorre o inferno do Bairro Amélia pela mão do fotógrafo Virgílio. No fim da viagem perguntamo-nos se, no termo desta divina comédia em cenário de subúrbio da margem sul, ainda há lugar para alguma esperança.

Doomed society

by offarinha

“When you see that in order to produce, you need to obtain permission from men who produce nothing – When you see that money is flowing to those who deal, not in goods, but in favors – When you see that men get richer by graft and by pull than by work, and your laws don’t protect you against them, but protect them against you – When you see corruption being rewarded and honesty becoming a self-sacrifice – You may know that your society is doomed.” Ayn Rand

Com a devida vénia ao Espectador interessado.

Leitura dominical – a crónica de um fracasso

by offarinha

Recomendo vivamente a leitura desta coisa que, ao que julgo, pretende ser levada à conta de uma reportagem. Que o autor, Paulo Moura, queira manifestar exuberantemente ternuras cupidíneas pelo Sr. Arménio e pela sua gente, é lá com ele e com a D. Bárbara. Agora, com franqueza, podia fazê-lo de outra forma. Em primeiro lugar, com maior subtileza. Repare-se na epígrafe da coisa: «Em Alcântara, tudo parecia conspirar contra a manifestação. O tempo, o local, os constrangimentos dos autocarros a desfilar na ponte. Talvez por isso, poucos jovens compareceram.» Irra, isto não é a melancolia que sobrevém à evidência do fracasso – é só parvoíce! Depois, sendo menos ridículo. Paulo Moura cultiva o estilo do realismo socialista adocicado pelos tiques da literatura light (como se sabe, tal combinação nem sequer é original e foi sempre muito usada pelo dito realismo socialista. O que tem mudado é apenas a literatura light e os respectivos tiques). Quem é que, sem padecer de algum tipo de agnosia ou não sendo analfabeto, consegue ler o último parágrafo sem se rir? «As pessoas batiam nos vidros dos autocarros, como se estivessem presas e quisessem sair. Batiam nos vidros como se estivessem em jaulas. Um homem colou um cartaz à vidraça: “Governo para a rua”. Bandeiras saíam pelas janelas, mas não se viam as mãos que as seguravam. Nalguns autocarros pareciam ir todos calados, semblantes sisudos, pensativos. Noutros, claramente, havia festa. Tudo de pé, a dançar. Noutros ainda distinguiam-se boinas e T-shirts com Che Guevara, bandeiras com a foice e o martelo, megafones, cartazes e faixas. Cada autocarro era uma pequena manifestação solitária e muda. “25 de Abril sempre”, lia-se nos lábios de uma mulher.»

Mas não nos enganemos. Este tipo de coisas faz as delícias da gente semi-letrada (a da tal geração mais bem preparada de sempre) que as leva muito a sério e garante a pés juntos tratar-se de jornalismo literário. Quem não acreditar, que vá ver os compêndios de Português que por aí abundam e os textos escolhidos pelas professorinhas da disciplina nas suas actividades.

Virtuosismo

by jfc

Desconcertante, audacioso e sem precedentes? Notas sem conta transmitidas no mais curto tempo possível? Um ribombar, soltado com entusiasmo? Isto soa a bravura pelo amor da bravura. Uma parte considerável do público agradecê-la-á com arrebatamento. Mas o estudo Romântico apontava mais alto. Desencadeado pelos Caprichos de Paganini, o tecnicamente novo e o nunca ouvido antes tinha de ser contrabalançado e justificado pela novidade musical, a coragem e a poesia. A seguir ao cume que são os estudos de Chopin, os de Schumann, Liszt e Brahms (Variações Paganini), bem como os de Debussy, Bartók e Ligeti, dão ao pianista a possibilidade de provar que, na sua interpretação, a música leva a melhor. O virtuosismo, a propósito, revela-se útil mesmo se não passarmos a maior parte das nossas horas de trabalho a lidar com estudos — na verdade, particularmente nesse caso.
Frequentemente, quando postos diante de sequências de escalas e sucessões rápidas de notas, os intérpretes não conseguem evitar tocar mais depressa. Há uma aceleração involuntária na interpretação de pianistas tecnicamente dotados — a menos que a sua musicalidade lhes fiscalize os dedos. Tocar demasiado depressa pode bem constituir um esforço físico menor do que cultivar uma disciplina que controle cada um dos dedos.

Alfred Brendel, A Pianist’s A to Z. A Piano Lover´s Reader, Faber and Faber, Londres, 2013.

Mário Soares e as salinas do Samouco

by offarinha

A atitude recente face às diárias intervenções de Mário Soares oscila entre o faz de conta do «temos de ter em conta os serviços prestados num passado longínquo…» e a indulgência disfarçada de «o pobre velhinho está definitivamente gágá». Como se trata de intervenções políticas, com antecedentes mais ou menos remotos, é preciso salientar: a má criação acanalhada da criatura (vide o caso do Parlamento Europeu); o facto de ter sido sistematica e, nalguns casos, humilhantemente derrotado em eleições democráticas (diferentes daquelas que o seu amigo Chavez promovia); a gravidade penal de algumas das suas intervenções, decerto ignoradas à conta de uma presumível inimputabilidade; o mau gosto e a ética mais do que duvidosa de muitas outras (relevadas pelos nossos meios de comunicação social, sempre paspalhos na sua incomensurável ignorância e subserviência, em relação a estas manifestações que tomam por ademanes blasés e aristocráticos). Por mim, o único travão ao tratamento que merecia encontro-o na estima pessoal por alguém do seu círculo familiar próximo.

Mas isto não permite ignorar um facto decisivo. A Fundação Mário Soares, através do Orçamento calamitoso que ele verbera e que foi apresentada pelos tais «delinquentes», concede-lhe 210 mil € no próximo ano através do Ministério dos Negócios Estrangeiros (o do tal «tipo» que devia ser julgado)! Mais: entre 2008 e 2014 a inestimável Fundação receberá a verba total de 1,8 milhões de €. Não se percebe bem para quê, mas também não importa. O MNE lá saberá das linhas com que se cose e, entre tais linhas, decerto figura a apresentação e promoção do livro de Sócrates. Resta salientar que, por uma vez, estamos de acordo. Como é possível tal Orçamento, tão selectivo nos cortes e nas generosidades que promove?!

Uma pergunta final: o que dará de insubstituível a Fundação Mário Soares ao país (para além do livro de Sócrates, claro) que a Fundação para a Proteção e Gestão das Salinas do Samouco não desse. É que esta última foi extinta e, tanto quanto sei, ninguém sentiu a sua falta. Excepto aqueles que viviam à conta dela mas esses, pelo menos, nunca ninguém deu por eles.

Imbecilidades da nossa terra

by offarinha

Redacção da RTP retirou confiança ao director de Informação devido a listas de mobilidade. Mas isto não devia ser ao contrário? E eu sou obrigado a pagar isto?

Sócrates ao Expresso: “Sou o chefe democrático que a direita sempre quis ter”. Não faço ideia a que direita esta criatura se refere. Para que conste: eu não quero, nunca quis nem nunca quererei!

Os pancrácios ex-presidenciais

by offarinha

Nas últimas vinte e quatro horas fomos submetidos à calamidade de duas entrevistas a dois ex-Presidentes da República. Pode-se especular acerca das razões que proporcionaram esta coincidência mediática (em boa verdade, a coincidência só se aplica ao dr. Sampaio, uma vez que as invectivas entarameladas do patético dr. Soares são diárias). O que fica, porém, das inanidades debitadas por ambos é a habitual desonestidade intelectual e política (ai , dr. Sampaio, essa defesa do tribunal do nosso Joaquim nos termos em que a fez…), a insistência na substituição da realidade pelas generalidades de uma ideologia vagamente socialista, os laivos de pura estupidez acerca do Estado social e, finalmente, o espírito de seita que, para além do gosto pela intriga e do cultivar dos respectivos clãs, sempre caracterizou os socialistas portugueses quando toca a reunir (a ideia jacobina de querer julgar os membros deste governo, vinda do dr. Soares agora doublé de Robespierre do Campo Grande, amigo do peito e defensor do impoluto engenheiro-mestre-em-filosofia-política, é impagável). Incomodativo pelo excesso e pela repetição mas, como se vê, nada de original tendo em conta os entrevistados.

Por respeito aos nossos leitores, e para lhes evitar o previsível fastio, dispensámo-nos de, ao contrário do habitual, colocar os links para as referidas entrevistas. É que recordámos as palavras imorredoiras do actual PR, também em entrevista recente: «Não somos ma-so-quis-tas!» Pensando bem, a história da nossa República tem-nos proporcionado linhagens presidenciais assombrosas. Há um título de José Rodrigues Miguéis que me ocorre sempre nestas ocasiões – Pouca sorte com barbeiros.