«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Janeiro, 2014

Antes das praxes

by offarinha

Não se dá hoje um passo sem se ouvir falar de praxes. E somos bombardeados com as ilustradíssimas opiniões de uns trogloditas com ar abrutalhado que parece que são especialistas na coisa, e de outros que acham normalíssimo ser sujeitos a tão edificantes práticas, e de outros que querem proibir tudo porque as suas cabecinhas são semelhantes às dos outros, com a subtil diferença que a sua praxe reside apenas e só na proibição… De todo este gado caprino já se falou no post anterior. Mas, para além da evidência da estupidez humana no seu esplendor, é também edificante olhar de vez em quando para o que está antes dela, e a proporciona, a permite e origina tais refulgências.

Numa escola secundária do concelho de Cascais, os alunos vão assinalar o dia mundial de luta contra o cancro com alguns eventos muito sérios e recomendáveis: colheita de sangue, palestras sobre o cancro da próstata, o cancro do colo do útero, a prevenção do cancro… Mas, pasme-se (ou talvez não), junto com tudo isto aparece uma palestra que versa um tema singular, «Benefícios do Reiki em doentes que fazem quimioterapia», seguida de demonstrações práticas de terapias de Reiki. Os alunos irão, assim, substituir o Português, a História e a Matemática pelo Reiki, com a autorização entusiasmada e colaborante do pessoal que por lá manda e sob a presença tutelar do «Exmo. Senhor Vereador da Educação e Saúde da Câmara Municipal de Cascais, Dr. Frederico Pinho de Almeida» (sic).

Mal podemos esperar pelo momento em que o Exmo. Senhor Vereador etc… etc…, a distinta direção e todo o corpo docente promovam acções sobre «Astrologia e erisipela», ou «Efeitos da cartomância na prevenção do pé de atleta», ou «Leitura do voo das aves na detecção precoce da alopecia». Em alternativa, sugerimos que organizem umas viagens a Fátima ou à Santinha do Tropeço.

E depois queixem-se e desatem a gritar nos telejornais!

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As praxes e o gado caprino

by offarinha

Não há órgão de comunicação social que não opine sobre praxes, suportado na vozearia e nos disparates de psicólogos, sociólogos, juristas, politólogos, jornalistas, astrólogos, quirólogos e demais cientistas do oculto. Tudo isto durará até que saltem para o borrego que matou uma velhinha, ou para o infante que mordeu na ama, ou para a família cigana discriminada depois de infernizar a vizinhança, ou para o assalto perpetrado por um desempregado (ai, a crise e as suas sequelas!), ou para o afogamento de um peixe, ou para a pedra que caiu no pé de uma lésbica, ou para outra coisa qualquer de inexcedível importância que dê azo a muitas lágrimas e comoção e manifestações diversas de sensibilidadezinhas à flor da pele.

O que arrepia em tudo isto é, num primeiro nível e para além da já habitual questão da «culpa», sempre presente nos comentadores de serviço: i) a absoluta imbecilidade da gente que é responsável por instituições que é suposto ministrarem instrução de nível superior; ii) a boçalidade dos alunos universitários, os tais da geração mais preparada de sempre, quer os que aceitam e justificam as javardices a que são sujeitos, quer os que, pelas mesmas razões, defendem e impõem essas mesmas javardices; iii) a repugnante parvoíce dos pequenos fanáticos que aproveitam qualquer ocasião para tentarem estender as suas proibições e regulamentações politicamente correctas, e tão do agrado da imprensa, para além do clima, do tabaco, das touradas, da caça, da alimentação e sabe-se lá de mais o quê.

Num segundo nível, mais sério, onde é que se fala de autonomia e responsabilidade individuais? E onde é que se refere o primado da lei? Não bastaria centrar a questão nestes dois pontos? Povo de escravos conformistas, sempre receptivo a amouxar e a seguir o caminho da carneirada, apetece citar a Écloga Lusitana de Jorge de Sena: «Cabra// cabrada// cabrões.»

Sinal de vida

by offarinha

Na edição de hoje do jornal Expresso há uma entrevista ao dr. Henriques Gaspar, presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Começa assim: «No gabinete de Henriques Gaspar, o tempo corre ao som de um velho relógio de parede que toca a cada 15 minutos. “Gosto de ouvir os relógios tocar, é um sinal de vida”, diz o presidente do STJ.» A gente lê isto e sente um calafrio. Depois imagina o sr. conselheiro com o olhar sinistro de Bela Lugósi, a atitude intimidante de Boris Karloff e a fisionomia aterradora de Vincent Price, contando os tique-taques do seu relógio à espera do toque que ciclicamente lhe proporciona o fatídico memento. E admiramo-nos nós do estado da Justiça! O seu principal vulto confessa-se, gostosa e candidamente, personagem de um filme de terror daqueles realizados por Ed Wood. Que são, como se sabe, sobretudo risíveis.

Intimações da eternidade

by offarinha

Chegado a casa e conectado com o mundo, tomo conhecimento da notícia – adiada há alguns anos – da morte de Claudio Abbado. Mais um da família, muito muito chegada, que parte. Os obituários dão a conhecer bastamente todo o percurso do imenso maestro que negava o conceito de «grande maestro» – grande era, segundo ele, o compositor. Dos dois concertos que deu em Lisboa, assisti ao segundo (a 2ª de Mahler no Ciclo Grandes Orquestras Mundiais da Gulbenkian com a Filarmónica de Berlim, que se realizou no Coliseu e não no Grande Auditótrio, como já vi incorrectamente referido). Para além da imensa (em qualidade e quantidade) discografia – por favor, muita atenção a Abbado director de ópera (extraordinários registos de Mussorgski, por exemplo) e de Mahler, registe-se a criação da Orquestra de Jovens Gustav Mahler (estará de novo em Lisboa em Abril), o Festival de Lucerna (grandes gravações de Beethoven com Martha Argerich, de Debussy e de Mahler) e a Orquestra Mozart.

Desta escola, restam-nos Brendel e o seu cúmplice desde o início, Pollini. Comovidamente agradecido, dedicarei as minhas próximas horas a ouvi-lo. E, por favor, vejam as imagens que o meu camarada de blogue colocou no post anterior.

Silêncio

by jfc

O Belo e o Bom

by offarinha

Já aqui várias vezes vituperei o enviezamento com que são tratados os assuntos nos nossos meios de comunicação social ditos de referência, bem como a selectividade no tratamento dos temas e a repugnante desonestidade com que são apresentados (endeusando-os ou ridicularizando-os com fundamentos pífios) os protagonistas. O Público segue a óptica da mini-esquerda aparvalhada, das professorinhas e das causas fracturantes. O Expresso fia mais fino: são, não as causas mas os interesses, ou do engenheiro Pinto da TAP, ou do dr. Mexia da EDP, ou do dr. Salgado do BES, tudo isto apresentado sob a capa do interesse nacional, das energias renováveis e do aquecimento global (?). Quer no caso tardo-adolescente da D. Bárbara, quer no trendy-super moderno do diligente mano Costa, a coisa é sempre adornada com pseudo-argumentos de uma suposta snobeira pacóvia que determina que Cavaco não sabe estar comme il faut, que a ex-ministra Pires de Lima não é in, ou que Passos Coelho e Gaspar são fanáticos; pelo contrário, o actual ministro Pires de Lima é de uma argúcia superior, Portas um génio político, Soares um profeta a quem devemos praticamente tudo e Sócrates alguém a quem devemos ter respeito. Todos os representantes das corporações, sem excepção, são reverenciados.

Vem isto a propósito da TSU de Vítor Gaspar, lembram-se? Toda a gente a desancou, que era um disparate infame, uma ignomínia… Os poucos que a defenderam ou apresentaram argumentos a seu favor foram ridicularizados e lançados na geena, o tal sítio onde há choro e ranger de dentes. Quem assumiu a dianteira inquisitorial foi o jornal Expresso, sob a batuta do mencionado mano Costa e do inenarrável Nicolau. Na altura, Henrique Monteiro, ex-director e actual vamos-lá-fazer-de-conta-que-sou-desalinhado-para-dar-um-ar-pluralista-a-esta-merda foi parte entusiástica do coro. Imagine-se que teve hoje o desplante de publicar este artigo como se nada fosse com ele. Vê-se que o homem mudou de opinião e vê hoje méritos onde ontem não via. A questão não é, porém, essa. O homem mudou de opinião porque a medida é hoje apresentada por um socialista e ainda por cima estrangeiro e ainda por cima francês. O que determina o belo e o bom (o kalós kai agathós tão referido pelos antigos gregos) não é o que os define em si e por si mesmos: é a qualidade que atribuimos, por razões arbitrárias e/ou de conveniência, a quem os enuncia. Não há melhor medida para a desonestidade intelectual. E o que diria o nosso Joaquim se as medidas entretanto declaradas inconstitucionais tivessem sido apresentadas por aqueles que esta gente considera ser boa e bela? Repugnante!

Eusébio no Panteão?

by offarinha

Quando, no nosso país, alguma coisa vem a lume, raramente vem sozinha. A ela surgem associadas muitas outras, por ela suscitadas e que remetem, invariavelmente, para a superficialidade da forma como tratamos o nosso presente, para a ligeireza com que lidamos com o nosso passado e para a irresponsabilidade com que projectamos o nosso futuro. Triste Pátria e miserável Estado! Que imagem bisonha e patética cultivamos de nós próprios e permitimos que os nossos representantes legitimem e perpetuem! Já viram quem marca presença no Panteão? E, sobretudo, quem lá não tem presença, sequer em cenotáfio?

Parece evidente que a panteonização decorre: ou de uma legitimação institucional que o povo exige espontaneamente para aqueles que ama e com quem se identifica, movimento que o poder, a reboque, adopta de forma interesseira (casos de Amália e, agora, de Eusébio); ou de uma efectiva popularidade que, por razões circunstanciais, o poder aproveita e a que dá balanço (casos de Guerra Junqueiro e de Sidónio Paes); ou por motivos simbólicos (Humberto Delgado); ou porque uma elite de um determinado momento impõe sem outra razão que não seja ideológica ou de seita (Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Óscar Carmona, João de Deus ou Aquilino Ribeiro). O único que parece corresponder a uma efectiva importância nacional (de Nação com passado, presente e futuro numa perspectiva à Burke) é Garrett.

Alguém pensa, nesta pobre terra, o que significa estar no Panteão, o sítio onde se evocam, comemoram e recordam todos os «deuses» da Pátria? Então os nossos deuses-escritores são o patriarca do kitsch literário – Junqueiro, e o autor da Cartilha Maternal (que muito estimo, até porque foi nela que aprendi a ler)? Não há outros, numa terra supostamente literata, nem mais significativos? Aquilino (outro que tanto aprecio por razões literárias e como cultivador exímio da língua portuguesa) não está lá como escritor: na verdade, as razões da sua presença são de outra natureza e não se recomendam especialmente. Teófilo (leiam o que Camilo diz da criatura), Manuel de Arriaga e até o patético Carmona!? Não se trata de simpatia pessoal: objectivamente, apenas Garrett, Amália, Delgado (como símbolo) e, agora, Eusébio, têm dimensão panteonizável. Como, sobretudo, os outros que lá não estão. Da literatura (temos um Prémio Nobel, caso se tenham esquecido e independentemente de qualquer outro juízo, já para não falar de Camões, Vieira, Camilo, Eça e Pessoa), das artes (Vieira da Silva, não?) e da ciência (Egas Moniz, outro Prémio Nobel). E, se em política o que conta é a influência nacional, trasladem para lá o Salazar e o Cunhal.

Eu, admirador confesso e hiperbólico de Eusébio, duvido que o seu lugar seja no meio de tal gente. Aliás, proponho um movimento para retirar daquela tumba, sinistra e mediocremente frequentada, Garrett e Amália. Quanto a Eusébio, gostaria que o seu lugar de descanso final fosse junto ao Estádio da Luz, então definitivamente convertido em A Catedral.

Em Santa Engrácia poder-se-iam arranjar umas acomodações para o culto e sofisticado Mário Soares, que seria assim o primeiro a dar entrada no Panteão ainda em vida, correspondendo desta forma à sua incomensurável prosápia. E, para dar um ar mais moderno, em registo multimédia, apenas a voz e a empáfia de Manuel Alegre. Arranjavam-se uns aventais e assim ficava tudo em família.

Eusébio e os socialistas

by offarinha

bons-e-maus

Parece que o mentiroso Sócrates recorda Eusébio quando ia a caminho da escola no sábado 23 de Julho de 1966, pelas dezasseis horas (a superioridade deste vulto revela-se apenas pelo facto de as escolas abrirem para ele, em exclusivo, durante os fins de semana). Que vigarista!

Passando os olhos pela blogosfera, a ainda a propósito do outro grande socialista culto e requintado (o que pensará a criatura, se é que ainda pensa alguma coisa, sobre as bagaceiras de Pessoa e do whisky de Vinicius de Moraes?) recomendo: no Gremlin Literário, Era “só” um futebolista; no CM, o artigo de Paulo Pinto de Mascarenhas, Soares sobre Eusébio ou o golo na própria baliza; o post de (imagine-se) José Cid; e até o Apelo do Aventar.

A propósito de «A morte dos mitos»

by offarinha

Acabado de chegar de uma última e comovida homenagem a Eusébio, não posso de deixar de considerar insuficiente – por excessivamente benévola – a abordagem que o meu camarada de blogue faz da intervenção de Mário Soares. O que o dito senhor afirma deveria figurar sob o título «Contributos para a elucidação da pequenez e mediocridade humanas».

Convém dizer de uma vez por todas: i) Mário Soares é malcriado. Não bebeu chá na proporção do whisky que insinua que Eusébio bebia. É pena, quer tivesse salutarmente optado por uma ou por outra bebida. Porventura, ter-se-á dedicado em demasia às beberragens chilras que o jacobinismo republicano, socialista e laico usa nos seus ágapes. ii) A sistematicamente auto-proclamada e mediaticamente reproduzida cultura humanística de Mário Soares não passa de um conjunto de lugares comuns incipientes legitimado pelos semiletrados que pontificam por aí. Esta superficialidade tolerada e mascarada de conhecimento não é de hoje: debita alegre e impunemente as mesmas banalidades pomposas e vazias e vulgares há decénios. iii) O aclamado génio político de Mário Soares aparece sempre (e sobretudo quando lhe convém) a reboque de uma sobranceria puritana e moralista. Seria interessantíssimo recuperar o argumentário de Soares e da excelsa esposa Maria Barroso a propósito da ligação entre Sá Carneiro e Snu Abecassis. Eis um desafio à D. Bárbara e às televisões, bem como aos comentadores da esquerda das causas fracturantes e da Aula Magna.

Há coisas que são sempre lamentáveis e de evitar. Sobretudo quando disfarçadas de outras coisas. A idade – real – e o passado – mais ou menos ficcional – não podem continuar a desculpar as figuras tristes. Os insultos, a boçalidade, a arrogância e o ranço devem ser tomadas por aquilo que são: mediocridade e pequenez e nada mais. Soares náo se tornou apenas naquilo que é. É apenas o que é e sempre foi, não merecendo, por isso, respeito ou desculpa ou atenuante de qualquer espécie para o seu esgoto verbal.

A morte dos mitos

by jfc

Alardeando a habitual imbecilidade jornalística dos canais de televisão, um deles subordinava, ontem, a reportagem sobre o funeral de Eusébio ao título «A morte de um mito». Um mito é um determinado momento, acontecimento ou figura fixado pela memória colectiva e engrandecido pelo tempo. Neste sentido, o mito não morre, a não ser que deixe de produzir sentido na vida da comunidade em que nasceu, quando deixar de ser «o nada que é tudo». Mas podemos usar a palavra «mito» apenas com o significado de «ficção» ou «ilusão». Nesse caso, a morte do mito equivale à denúncia do seu carácter mentiroso ou ilusório, é um desmascaramento. Não sei qual das duas acepções estava na cabeça de quem fez aquele título, tudo indica que nenhuma delas, foi provavelmente apenas um caso de falta de cabeça.
Ouvi entretanto as declarações de Mário Soares sobre Eusébio. E dei por mim a pensar que elas, sim, são um bom exemplo da morte de um mito, um caso de figura fixada pela memória, mas que, com o tempo, se tem progressivamente apoucado e reduzido à sua natureza de ilusão. Ou talvez se cumpra apenas a máxima de Marco Aurélio segundo a qual cada um se transforma naquilo que é.