«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Agosto, 2013

Eleições autárquicas são insuficientes para travar queda no consumo de cimento, diz Cimpor

by offarinha

O título foi tirado daqui mas, logo no primeiro parágrafo do artigo, surge um «apesar» que ilumina toda uma mundividência. Eis o que, na história pátria, tem sido entendido por crescimento económico! Tem sido, ou ainda é, malgré os esforços do Ministro Álvaro Santos Pereira? Que um tipo como o jornalistapoetastro Nicolau se arrepie keynesianamente com estas coisas, a gente percebe. Mas o que pensará sobre o assunto o Prodigioso Ministro Ex-Das-Cervejas no seu afã político-crescimentista?
Então tantos indignados com a eventual compra de uns votos de velhinhas pelo candidato Menezes (baratuchos, ao que parece e, sobretudo, pagos pelo bolso próprio) não se indignam – nem se indignaram nunca -com a evidente espoliação de fundos públicos perpetrada ao longo dos anos para inutilidades que todos conhecemos? Serão os mesmos indignados que, em versão canalha, como denuncia Henrique Monteiro, usam os mortos dos incêndios para os seus fins condolentemente miseráveis? As virgens experimentadas são, de facto e venham de que luras vierem, espantosas.

Olha que coisa tão moderna!

by offarinha

Será que, quando intimava os jovens (por que será que sinto a pele arrepiada quando oiço esta palavra, sobretudo neste tipo de contextos, género olhem que compreensivo e próximo eu sou, apesar de parecer e ser distante e velhadas e reaccionário como o caraças, ou desculpabilizadores, ou condescendentes com uma soberba escondida com o enorme rabo todo de fora, ou pseudo-tolerantes, ou outra coisa qualquer deste tipo católico-progressista-vindeamim?) a serem revolucionários, era a este tipo de coisas que o Papa Francisco se referia no Brasil? Este marketing religioso é, para qualquer consciência lúcida, repugnante e ajuda a compreender, por um lado, o auto-afastamento de Ratzinger, impotente face aos seus supostos comparsas de Fé(?). Por outro, e sobretudo, a miséria dos tempos que vivemos.

Cheque-ensino? Sim, talvez… Não, pensando melhor, nem pensar

by offarinha

Soube-se hoje que o Ministério da Educação estaria aberto a discutir o cheque-ensino. Um cidadão, já muito escaldado, começa por reagir a quente: trata-se de mais uma notícia da silly season – então o Doutor Crato não se dedica exclusivamente a regular coisas parvas com os nogueiras sindicais e as fraldiqueiras das escolas? Depois tem um assomo de esperança e esforça-se por acreditar – afinal o Governo diz que é de Direita e estão sempre a acusá-lo de ser liberal. E sorri a medo: será que finalmente (Jesus, Senhor! Ao fim de tanto tempo perdido e de tanta imbecilidade!) se vão começar a discutir coisas sérias na 5 de Outubro que não tenham apenas a ver com as carreiras dos professores? Depois lê isto e a realidade impõe-se-lhe cruamente. Quando especialistas do calibre de uma Maria de Lurdes Rodrigues, de um Paulo Guinote (para que não subsistam dúvidas e evitar devaneios, a articulista esclarece que o dito «tem estudado bem o tema»), do pai da Confederação dos Pais, da rapaziada da Fenprof e de outras luminárias de valor equivalente, quando, dizia eu, gente assim manifesta tantas e tão originais prevenções, o melhor é mesmo ficar tudo na mesma. Afinal tudo vai, neste como em tantos outros domínios, pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. O próprio Ministério, não vá a malta começar a entusiasmar-se, se encarrega de por água na fervura: « fonte do Ministério da Educação afirmou que com a proposta de alteração do regime do ensino particular nada muda em relação às comparticipações do Estado para este sector.» O que, para o caso, tanto faz porque, se assim o não fosse, a coisa passar-se-ia decerto como é descrito neste post divertidíssimo e hiper-realista do Carlos Guimarães Pinto.

As virgens experimentadas e os pensamentos íntimos de uma puta velha

by offarinha

Passando ao lado dos comentários excitadinhos das virgens experimentadas (vejo vagamente, num canal televisivo, o omnipresente ex-que-faz-tudo-para-ser-futuro Capucho), uma puta velha pensa para si:
1) Que informações terá este Pais Jorge acerca dos figurões a quem propôs o tal contrato nunca assinado e, sobretudo, acerca de todos os outros que eles candidamente assinaram e com os quais nada teve a ver, para ser atacado desta forma? Claro que a puta velha nunca o saberá. O tipo é banqueiro, quer continuar a sê-lo e, por isso, pirou-se a tempo e vai ficar caladinho.
2) A influência da máquina socrática continua a ser impressionante. Coitado do ridículo Tó-Zé… Coitado do Governo e da sua patética gestão política, e da sua cobardia, e da sua incapacidade de resistir e de se afirmar contra as coisinhas mediáticas…
3) Que bela e credível comunicação social temos, que confunde informação com restolhada, rigor com selectividade e independência com sopros ao ouvido! Socráticos de todo o mundo, permanecei unidos, que a imprensa continua igual ao que era nos vossos gloriosos tempos!
4) Os bons e os maus, são-no dependendo do momento em que actuam e dos comparsas com quem contracenam.
5) Os partidos de direita terão sempre dificuldades acrescidas para governar. E não estou a pensar apenas na sua proverbial inépcia.
6) Obrigado, Dr. Balsemão, sempre tão activo quanto discreto em tantas e tão espantosas cousas!

As virgens experimentadas

by offarinha

Eu não percebo mais de economia do que um cidadão medianamente informado, o que é manifestamente muito pouco para opinar sobre o assunto para lá do detestável achismo. E de swaps, acho que nunca tinha ouvido falar antes do lançamento desta nova moda de verão. Mas percebo muito bem que toda esta gente que perora nos media (políticos falhados, comentadores parlapatões, Conselheiros de Estado palradores, jornalistas tão atrevidos quanto ignorantes), com algumas escassíssimas excepções, percebe tanto do assunto quanto eu. Ou ainda menos. Mas sobeja-lhe em prosápia e descaramento o que lhe escasseia em conhecimento, inteligência e, sobretudo, honestidade.

Quando a comunicação social se dedica a um assunto que eu domino, aterroriza-me a superficialidade atrevida, o desconhecimento que chega a ser chocante, o enviezamento da abordagem (intencional ou não, para o caso tanto faz), a distorção simplificadora. E, falando com gente de outras áreas, dizem-me que o fenómeno se reproduz. Aquilo que as redacções dos jornais designam pomposamente por «profissionalismo sério» (e ai de quem ousar torcer o nariz e franzir o sobrolho) não é mais que um deslizar aéreo pelo tema – o que fixam é apenas a espuma do momento e o que nos transmitem, fumo inconsistente. O jornalismo não ajuda a compreender. Impõe simplificações fáceis, segue o que a populaça quer ouvir (ou o que os jornalistas acham que a populaça quer ouvir, ou o que fazem que a populaça queira ouvir) e digere a realidade para a tornar naquilo que os seus quadros mentais (pequeninos, pequeninos…) suportam assimilar. No pior dos casos, manifesta tudo isto mais uma enorme carga de desonestidade.

Passando os olhos pelas televisões e pelos jornais, ouvindo as rádios – e porque felizmente tem havido poucos fogos – temos vindo a ser sistematicamente bombardeados com a história de um senhor que vendia os tais swaps a uns assessores, e que parece que não se lembra de umas reuniões de que depois afinal se lembra, e de uns documentos parece que forjados, e mais não sei o quê. Toda a gente fala disto com a gravidade dos sábios, manifesta opiniões fortes com ar de «parece impossível…» e crucifica com escândalo o desajeitado senhor. E eu pergunto-me: mas então os verdadeiros responsáveis não foram o Ministro das Finanças e o Primeiro Ministro que contrataram os swaps? E ninguém fala deles? Já se esqueceram de quem eram? Anda toda a gente com problemas de memória? E os jornalistas e comentadores, que hoje descortinam incontáveis malfeitorias tóxicas e evidentes prejuízos, por onde andavam na altura em que foram contratados? Estavam distraídos? Não faziam ideia do que se estava a passar? O lembra/não lembra, esteve/não esteve é mais relevante que o fez realmente/não fez realmente e o prejudicou/não prejudicou? E tudo isto é apenas resultado de uma espécie de clima malsão temporário, é simples estupidez ou é, como tudo indica, muito mais que isso?

Leitura recomendada

by offarinha

Nem só de loucuras de juízes vive o absurdo judicial

Difamar o patrão não é motivo suficiente para despedimento

by offarinha

Um cidadão lê isto e pergunta-se: mas alguém com um mínimo de juízo tencionará investir um centavo num sítio com esta justiça?

O eixo do mau

by jfc

Na passada sexta-feira, durante uma desesperada operação de zapping em busca de alguma coisa interessante na televisão, deparei-me com um programa de um canal parvo em que duas pessoas davam sugestões de livros para ler nas férias.
Um das pessoas era Rui Ramos, a outra era a insigne escritora Clara Ferreira Alves.
Apanhei a coisa quase no fim, pelo que não percebi inteiramente quais tinham sido as recomendações anteriores. Mas cheguei a tempo de ver Rui Ramos recomendar um livro de um historiador inglês (David Cannadine, <em>The Undivided Past</em>) sobre o qual fiquei curioso, e de ver (e ouvir, meu Deus, ouvi-la é tudo!) CFA recomendar um livro de Mercedes Balsemão (sobre Isabel de Portugal, mulher de Carlos V, não tendo ficado a perceber se a coisa é ficção ou não).
Ela há cousas terríveis, não há?

Isto está tudo ligado

by offarinha

O Malomil, sempre preocupado com o bem estar das pessoas humanas e não-humanas, dá a conhecer o indispensável Centro Veterinário de Medicina Holística Integrada da Dra. Dinora Xavier. Sendo certo que todos teremos a ganhar com os seus serviços, não deixamos de os recomendar particularmente às personagens dos últimos postes: o cão Mandela, a dirigente eufórico-rebaptizadora da Animal, a senhora das simbioses astrológicas-esotéricas e, sobretudo, atrevemo-nos a sugerir um acordo que estenda a todos os juízes os benefícios da prestimosa institituição.

Astrologia em bom, ou seja, de esquerda

by offarinha

No sua versão online o prodigioso diário da D. Bárbara antecipa uma entrevista, a publicar no próximo domingo, com uma senhora que é apresentada como «fundadora do Quíron – Centro Português de Astrologia e uma das principais responsáveis pela credibilização da astrologia em Portugal e pela formação de várias gerações de astrólogos». O próprio artigo se encarrega de promover a auto-proclamada credibilização. A vetusta senhora é apresentada como «mais do que uma astróloga – autora de uma síntese teórica própria do que é a Ciência Esotérica, que resulta da simbiose entre o esoterismo e a explicação do que é considerado mundo do oculto e da doutrina e dos valores do cristianismo, do budismo e do taoismo» (caramba, é uma simbiose, mas em bom!). Autora de uma bibliografia (aqui infelizmente ainda não divulgada, mas ansiosamente aguardada para o fim de semana) que conta de dezenas de livros, as jornalistas asseguram que, não bastando a tal síntese/simbiose arrasadora, é criadora de «um pensamento doutrinário próprio que desafia, interpela e provoca o racionalismo ocidental» (adivinhamos o desconforto, nas respectivas tumbas, de um Platão desafiado, de um Descartes interpelado, de um Kant provocado…). A verdadeira chave para toda esta exaltação é, porém, revelada de seguida. O assombro astrológico nasceu, ao que contam, na aristocracia, mas «viveu a crise académica de 1961 em Lisboa e o Maio de 1968 em Paris» e, sobretudo, regressada de Paris, «abriu com mais dois sócios um bar emblemático na Lisboa de esquerda». Ora aqui estão os verdadeiros astros que encantam as plumitivas e legitimam qualquer disparate!

O Fueiro cumprimenta a senhora astróloga e deseja-lhe todas as felicidades para a continuação das suas sínteses, simbioses, desafios, interpelações e provocações. Informa todavia, e com relativo pesar, que não tenciona ler a prometida entrevista. Em matéria de aldrabices, considera-se satisfeito.