«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Março, 2014

A culpa é do árbitro

by jfc

Deixem-me ver se percebo: um país em que polícias manifestantes, alguns deles usando máscara, barram a entrada do parlamento desse mesmo país, defendido por outros polícias que o governo chamou (todo o corpo de intervenção, segundo os jornais – somos mesmo pequenitos, não somos?) para o defender do assalto dos agentes da lei e da ordem.
Um e outro lado jogam ao empurra, e a coisa, relatada com entusiasmo e em directo pelas televisões e jornais, assume mesmo contornos de jogo (subiram 3 degraus, desceram 2, estão a fazer pressão, a pressão abrandou) e no fim vêm dizer os jornais que a coisa acabou com um empate técnico.
Mas como isto foi um combate combinado, o empate era o resultado esperado: não houve surpresas no campeonato e a culpa foi do árbitro. Qualquer excesso ou ameaça – vistos, ouvidos ou sentidos -, não foram mais do que a expressão da justa indignação dos agentes.
E se subissem os degraus todos e entrassem no parlamento – partiriam tudo? Fariam reféns? Fechar-se-iam lá dentro, exigindo a demissão do ministro e do governo ou que fossem atendidas todas as suas reivindicações, e esperariam que um negociador da polícia, de megafone como nos filmes americanos, tentasse que saíssem, prometendo que não lhes aconteceria nada? Mas não subiram e, dizem, não subiram porque não quiseram.
Se somos um país de exageros é só na retórica.

Anúncios

Do you know what I mean?

by jfc

Não é a primeira vez que um dos colunistas diários do Expresso se refere, como desta vez em relação ao acordo ortográfico, ao facto de sermos um país do oito e do oitenta (fê-lo, por exemplo, numa crónica sobre as praxes). Mas o dito colunista parece esquecer-se de que, apesar de sermos de facto um país em que facilmente se passa do oito ao oitenta, a realidade mais contundente é que, no final das contas, somos um país de meias-tintas. Se do ponto de vista da regulação social isso pode ser visto como um factor positivo, há muitos outros aspectos em que é um notável empecilho e um sinal claro da mediocridade, da hesitação, da cagufa, da cobardia mascarada de sensatez, do larguem-me-senão-eu-mato dominantes. Ora, ficou-me desde os tempos do liceu, portanto ainda no tempo em que havia liceus, a ideia de que era pior ter sempre «medíocre» do que um «mau» de vez em quando. Do you know what I mean?

Um livro para ler

by jfc

Nos escaparates em que as livrarias exibem as novidades antes de serem varridas pela próxima maré editorial, ainda se destaca, por enquanto, um livro que gostaria de resgatar das garras da indiferenciação.

Tem o título português de Vida Roubada, que não permite uma rápida identificação do original – The Orphan’s Master Son, romance do americano Adam Johnson, vencedor do Prémio Pulitzer do ano passado –, e foi publicado pela editora Saída de Emergência.

As notícias que ultimamente têm aparecido, com alguma regularidade, na comunicação social, sobre a Coreia do Norte, certamente ganharão realidade depois da leitura deste livro. Dito de outro modo, faz sentido ler este livro agora.

Será, talvez, a primeira obra de ficção a explorar a realidade norte-coreana, o seu regime totalitário, os seus tiques quase infantis, e a lógica implacável dos seus dirigentes. E fá-lo com galhardia narrativa.

A acção desenvolve-se na articulação – bem desenhada – de três instâncias narrativas diferentes, cada uma evidenciando um registo próprio, cada uma contribuindo para uma visão alargada do funcionamento da sociedade norte-coreana, dos seus mitos, das suas obsessões, da violência omnipresente sobre a individualidade dos seus cidadãos e da prevalência da verdade oficial sobre a realidade.

Este último elemento é particularmente importante, até na sua dimensão meta-literária. Neste livro (nesta história) estão sempre a contar-se «histórias», versões da realidade que servem este ou aquele objectivo.

Em certo momento, o Dr. Song diz a Jun Do: «No lugar de onde vimos, as histórias são factuais. Se um agricultor é declarado músico virtuoso pelo Estado, é melhor toda a gente começar a chamar-lhe maestro. E, secretamente, seria aconselhável que começasse a praticar ao piano. Para nós, a história é mais importante do que a pessoa. Se um homem e a sua história estão em conflito, é o homem que tem de mudar».

Outros exemplos poderiam ser apontados sobre o uso das histórias. «… Sei que fui eu que a inventei, mas esta não é uma história em que alguém possa realmente acreditar» diz, noutra situação, Jun Do. «Tens razão – disse o Capitão. – Mas é uma história que eles podem usar».

Ou ainda quando uma delegação norte-coreana se desloca ao Texas: «Compreendes – disse o Dr. Song – que nesta geleira apenas está perna de vaca. A parte do tigre é apenas uma história. Na realidade, é o que estamos a servir-lhes, uma história».

Este papel das «histórias», do modo diverso de narrar a realidade e da dinâmica que estabelece entre a verdade oficial e a verdade privada, se adquire um relevo primordial no contexto sociopolítico deste romance – aliás bem assente sobre uma base documental que se adivinha na leitura –, de certo modo também o liberta desse mesmo contexto ao fazer-nos reflectir sobre a existência de outras «pequenas coreias», mais universais e mais nossas.

Este Vida Roubada, que corre o tremendo risco de pôr em cena, como personagem, uma figura real – o Querido Líder Kim Jong Il – e que ganha largamente essa aposta, merece não ser rapidamente engolido na voragem da indistinção antes de ser lido.