«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Junho, 2013

Descalabro ético

by offarinha

A propósito do último post que aqui publiquei recebi vários esclarecimentos, entre o estupefacto e o indignado, de que dou agora conta. Aquilo que, julgava eu na minha improvável inocência, constituía uma vergonhosa excepção, dizem-me que é, afinal, a regra. Ou seja, não constitui preocupação de ninguém (nem dos próprios, nem do GAVE, o organismo do MEC que superintende a estes assuntos) que os exames sejam feitos e supervisionados por professores que, simultaneamente, se encontram a dar aulas a alunos que os vão realizar. E a indignação suscitada não é a que eu julgava ter até me terem facultado as generosas explicações, género: «Então passa-lhe pela cabeça que um professor vá dar a conhecer aos seus alunos, explícita ou implicitamente, aquilo que estão a pensar perguntar no exame?» De facto, só uma mente relapsamente céptica como a minha poderia admitir tal suposição! E, a partir desta iluminação primitiva, tudo o resto fica finalmente claro: «Como imaginar, sem injustificada maldade, que um governante estabeleça regras favoráveis a uma empresa de que se irá tornar administrador?»; ou « como afirmar, sem malícia despropositada, que um deputado que faz parte de um escritório de advogados que representa um grupo económico vote leis que beneficiem o cliente?»; ou «como suspeitar, sem mesquinhez, de um autarca que cria as regras para um concurso público em que irá participar alguém com quem trabalha diariamente?».

A candura e generosidade desta gente comoveria, não fora a seguinte contradição. É que o seu optimismo antropológico termina nos próprios. Quanto aos outros mortais, adoptam uma desconfiança hobbesiana. São os mesmos que promovem regulamentos de exames com dezenas de normas que se espalham por dezenas de páginas, que obrigam à sua pública leitura, que determinam a assinatura de compromissos de honra por crianças da quarta classe (ver aqui)…

A sanha reguladora (só para os outros, bem entendido) deste tipo de mentalidade retorcida (adopto este termo ligeiro para evitar receber novas admoestações irritadas), bem como os efeitos pretendidos, foi exposta de forma exemplar numa obra recente de Niall Ferguson, The Great Degeneration, em que o autor mostra como, nas actuais sociedades, the rule of law tem vindo a ser substituída por the rule of lawyers. Os beneficiados já se calcula quem sejam…

Por mim, além de esclarecido, fico mais descansado e absolutamente confiante. Os responsáveis pelo GAVE podem mandar servir o pão de ló molhado em malvasia…

Sobre a tão falada equidade (2)

by offarinha

Quem é a professora de uma escola secundária do ensino público da linha de Cascais que colaborou na elaboração de um exame nacional, deu em simultâneo aulas a alunos que entretanto o realizaram e está actualmente a corrigi-los? Uma pergunta acerca de quem promoveu esta situação e a permite é inútil, visto que só existe uma resposta possível.

Sobre a tão falada equidade

by jfc

Em que escola pública do extremo ocidental de Lisboa no final do exame de língua portuguesa do 9º ano terá havido duas salas em que os alunos tiveram, no final do tempo estipulado, de passar todas as respostas para uma nova folha de prova (a inicialmente distribuída não era a correcta), prolongando o tempo normal do exame de modo a que pudessem ter tempo de tornar a escrever tudo?

Os autistas

by offarinha

Passado o momento de fadistice rasca proporcionado pela greve de um grupo profissional que, a julgar pela adesão, conseguiu diminuir ainda mais a já escassa reputação de que gozava e o mínimo respeito de que ainda poderia eventualmente usufruir; passado o indecoroso espectáculo com que um Governo incompetente e desnorteado e um Ministro pusilânime e hesitante resolveram abrilhantar a canalhice dos professores; passada esta ascorosa cena triste das vielas, seria útil (e urgente) resolver a questão do arrastamento do processo das avaliações.

Já toda a gente percebeu (excepto os próprios, evidentemente) que o pessoal ligado ao sector da Educação – do Ministro ao mais ínfimo professorinho contratado para ensinar ginástica ou trabalhos manuais – vive enclausurado numa cápsula estanque à realidade: usa uma linguagem cifrada que mais ninguém entende; funciona segundo uma lógica que só é reconhecida pelos seus utilizadores; ignora deliberada e esfusiantemente a realidade – quer dos alunos, quer da sociedade quer, sobretudo, do conhecimento – substituindo-a por uma patética ideologia político-pedagógica legitimada pelas «Ciências» da Educação e pelo discurso sindical. Se a generalidade do funcionalismo público e dos que vivem à custa do Orçamento de Estado pedecem deste mal, no caso da Educação a coisa agiganta-se até ao delírio.

O arrastamento das avaliações obedece aos seguintes pressupostos:
1) Vá-se lá perceber porquê, uma reunião de avaliação apenas se pode realizar com a presença de todos os professores da respectiva turma. Um que falte, ainda que só tenha um único aluno, e a reunião fica inviabilizada.
2) Daqui decorre o sucesso desta greve em que é escolhido o único grevista do dia por um processo de «Aniki Bóbó» o que, por arrastamento, trama todo o processo. Como se vê, os Nogueiras e os Silvas da FNE não fazem ideia do que seja uma sala de aula, mas, em comtrapartida, ninguém os supera na arte de tornar reféns alunos e colegas, bem como na chantagem sobre quem com eles não alinha. Claro está, e como infelizmente se comprovou, com o entusiástico empenho dos seus sequazes que constituem a penosa maioria da cáfila.
3) Para que conste, todas as notas já foram atribuídas, as pautas estão feitas e apenas faltam os acertos e as assinaturas finais. E, bem entendido, a indispensável presença do Aniki Bóbó.

Visto isto, o visionário Governo e o abatido Ministro Crato podem optar por uma das seguintes alternativas. A primeira consistiria em mandar realizar obrigatoriamente as reuniões, desde que com um quorum mínimo (50%?). A segunda, em alterar o regimento dos Conselhos de Administração das empresas públicas por forma a impossibilitar qualquer deliberação, caso não estejam presentes todos os seus membros e mesmo que o ausente tenha indicado prévia e expressamente o sentido do seu voto. Se o princípio é válido para uma pequena turma do secundário, porque não o alargar à TAP, à GALP ou à CGD?

Com tanto psicólogo desempregado e tanto técnico de educação especial a caminho da mobilidade, não há ninguém que providencie tratamento urgente para o autismo de toda esta gente?

Sobre esta questão, e sem referir a hilariante solidariedade expressa por um comentador que perora aos domingos na tal televisão sem a qual a democracia praticamente desapareceria, ver este comentário, e este e este. Para uma análise mais abrangente do autismo do funcionário público em geral, ver esta deliciosa crónica de Jorge Colaço.

Tinha-me esquecido destes

by offarinha

A propósito de exames, greves e assuntos afins já comentei o triste espectáculo promovido pela burocracia do MEC, pelos sindicatos de professoores e pelas fraldiqueiras das escolas. Tinha-me esquecido das associações de pais. Em boa hora, esta intervenção do Presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (os militantes das causas de género já deveriam ter chamado a atenção para a designação machista adoptada pela instituição) permite colocar as coisas nos seus devidos lugares. Defende a criatura «que caso uma parte dos alunos não faça o exame nacional de Português na próxima segunda-feira, devido à greve dos professores, as provas daqueles que as fizerem deverão ser anuladas.» E isto, diz ele, em nome da equidade (porventura saberá o pândego o que é equidade? ou partilhará a mesma disparatada noção aplicada pelo Tribunal Constitucional?). Para o extraordinário Pai (Nogueira, tens aqui um grande amigo!), todos os alunos deverão repetir sucessivamente os exames enquanto a greve afectar uma sala que seja. Mas a estupidez nacional não tem limites? E esta gente não tem vergonha?

Grécia anuncia encerramento da TV pública

by offarinha

Ora aqui está um bom exemplo a seguir.

A greve dos professores

by offarinha

Julgava eu que fazer greve significava um indivíduo não trabalhar como forma de sinalizar um ponto de vista ou de manifestar um protesto, assumindo depois as consequências e as responsabilidades pela sua opção. A greve que os professores estão a fazer às avaliações revela uma tão engenhosa quanto criativa transformação nos modos de se ser grevista. Manifestassem os professores igual engenho e criatividade no exercício da sua profissão, e decerto que o estado da educação em Portugal seria bem melhor!

A coisa é a seguinte. Para que se possa realizar uma das tais reuniões onde se dão notas, é obrigatório estarem presentes todos os professores. E o que engendraram os nossos originais nogueiras? Estabeleceram uma espécie de escala em que no dia tal faz greve o professor A, no dia seguinte este apresenta-se e falta o B, e assim por diante. A portentosa sagacidade grevista opera a seguinte sucessão de prodígios: numa reunião há apenas um grevista ausente, professores não grevistas e outros que, estando presentes estão em greve, mas desta forma clandestina e por delegação. A reunião não se pode realizar, os próceres sindicais dizem para a comunicação social que há 100% de adesão e os tortuosos grevistas por procuração recebem o seu salário sem cortes (eis o verdadeiro motivo para tantos contorcionismos malabares!). Sem entrar em considerações acerca das consequências desta greve para alunos e pais, ou do tipo de carácter que revela a dissimulada hipocrisia presente em tal comportamento, interrogo-me: o que pensarão os professores não-grevistas dos colegas sentados ao seu lado que, sendo também e objectivamente não-grevistas, parece que o são apenas espiritualmente por via da intercessão mística de um ausente (que trapalhada, hem!)? Imagino-me numa situação destas e, para além do impulso primário de começar a distribuir fueirada a eito (vide a epígrafe deste blogue), numa versão mais contida decerto pensaria e guardaria para mim – que canalha soez e repugnante!

Obviamente que os motivos e justificações desta greve são risíveis: os professores não querem, ao contrário da generalidade dos trabalhadores portugueses (à excepção dos seus colegas funcionários públicos, claro), ter um horário de 40 horas (lembrar aqui que não se trata do horário lectivo que permanece intocável; e, já agora, lembrar também que um professor no topo da carreira dá cerca de 10 horas de aulas semanais e que um outro, a meio da carreira, cerca de 15 horas – não se percebe como aguentam os pobres coitados tal violência!); os professores também não aceitam a maçada de serem transferidos de uma escola onde não têm nada para fazer para outra onde sejam eventualmente necessários; finalmente, não compreendem ser dispensados caso o seu emprego deixe de corresponder a uma necessidade efectiva de trabalho.

Não tendo um fundamento laboral sério, sobretudo pela desproporção entre o que se reivindica e as previsíveis consequências para os afectados (alunos e pais), esta greve deve ser lida segundo dois parâmetros. O primeiro é de natureza funcional. Como se sabe, no sector privado as greves têm um impacto residual. No sector público, só têm repercussões sérias as que ocorrem em empresas de transportes. Uma greve dos funcionários públicos tem, como todos sabemos, efeitos insignificantes. No entanto, uma greve que envolva o sector da educação precisamente nesta altura do ano tem, como já se percebeu, consequências extraordinárias. Comparando com estas greves de professores e com o efeito delas expectável, a greve geral de dia 27 já pode ser, como tudo indica que vá ser, irrelevante. E a pandilha dos nogueiras, dos carlos e das avoilas, acolitados pelos idiotas úteis sempre disponíveis, pode suspirar antecipadamente de alívio. O segundo parâmetro é de natureza política. É clara a dimensão dos transtornos e das contrariedades provocada por esta greve. Os seus promotores estão conscientes disso e a sua convocação tem um evidente desígnio político. Temos ouvido, nos últimos tempos, sucessivos apelos – mais ou menos encapotados umas vezes, e outras vezes mais estridentes e mal-criados – à insurreição, à violência e à desconsideração das instituções legítimas. Nalguns casos, apresentam-se os factos de tal forma que parece que o caos é inevitável e apenas impedido se os desejos de alguns, cuja legitimidade se desconhece, forem atendidos. Tal é o tropos político cansativamente repetido pelas alas gerôntica-soarista e socrática do PS, pelo PC e pelo BE. Como as suas profecias teimam em não se realizar e as pessoas tanto ignoram este pessoal como desprezam e detestam quem diz que as governa, uma greve com tais repercussões vem mesmo a calhar para o chinfrim mediático da sua lementável estratégia e para os seus patéticos objectivos.

Voltando aos professores em greve, ocorrem algumas questões. Como é que uma classe supostamente respeitável, e que se deveria dar ao respeito, se deixou transformar e transformou em lumpen? A patetice infantil da greve acima descrita revela o quê: manha saloia, ausência de escrúpulos éticos, ignorância dos princípios deontológicos, pura estupidez, falhas de carácter, formação deficiente? Ou tudo isto e mais alguma coisa? Seja como for, toda esta triste situação suscita um lamento entre o repugnado e o melancólico – que gentinha lastimável!

Avenida Álvaro Cunhal

by offarinha

Para além do que a Helena Matos deixa aqui dito, convém, a propósito das hagiografias produzidas acerca da personagem, ter sempre presente o seguinte:

1) Álvaro Cunhal nunca foi um democrata, quer quando manipulou o partido com cínica frieza na sua tomada de poder, quer no sectarismo que cultivou nas relações com os restantes grupos oposicionistas ao Estado Novo, quer na lograda tentativa de impor uma ditadura no pós 25 de Abril, quer, finalmente, no modelo político que sempre defendeu.

2) Lutar contra a ditadura não implica necessariamente ser um defensor da liberdade, coisa que Álvaro Cunhal nunca foi. Muito pelo contrário.

A artista olímpica

by offarinha

Palavras para quê? Esta mulher é prodigiosa!

O «sistema» e o sindical-corporativismo

by jfc

Abandonei o ensino público há um pouco mais de 20 anos. Depois disso, e no contexto da minha nova actividade profissional, criei um curso numa instituição privada e lá dei aulas durante uns anos. Mas acompanhei sempre (e sempre que possível do lado de dentro: associações de pais, assembleias de escola, esse tipo de coisas) a questão da escola. Vi e ouvi muito. As questões do ensino não me são, pois, estranhas.

Abandonei o ensino – actividade que prezo muitíssimo e de que sempre gostei muito – para me ver livre do sistema. Não se julgue que o sistema é uma coisa abstracta, um tenebroso «eles» que se traduz e dilui na ideia do Ministério monstruoso e sufocante. É verdade que o Ministério pode ser sufocante e produzir coisas monstruosas, mas a realidade das escolas, o verdadeiro «sistema», são os professores.

Foi, pois, para me ver livre dos professores que fui à minha vida. Mas a vida fez-me voltar muitas vezes às escolas e ter de lidar de novo com professores. Recordo que uma das últimas vezes que isso aconteceu foi quando assisti a uma aula de literatura portuguesa na turma da minha filha, então no 12.º ano.

A razão por que fui assistir dispensa explicação neste contexto. O certo é que fui, depois de o respectivo professor ter consentido (honra lhe seja). Acompanhava o desempenho do sujeito à distância e com irritação crescente, mas não interferiria se a ocasião não tivesse sido propiciada. Porém, confesso, fui quixotescamente disposto a colocar alguns pontos nos ii (do ponto de vista científico e pedagógico) se a coisa descambasse para a asneirada do costume.

Fui. E não fui capaz de dizer nada. Nada. Nem uma palavra. Fiquei quase o tempo todo de olhos em baixo, cheio de vergonha. Tive tanta vergonha, meu Deus!, tanta vergonha de estar ali. Foi abaixo de tudo o que seria imaginável. Ainda hoje sinto vergonha só de pensar nisso. Inenarrável. Acabei por falar com o tipo a sós (apenas a minha filha assistiu) no final.

Imagino – e creio que imagino bem – que, a esta hora, a criatura se prepare para fazer greve no dia dos exames.

Escrevi um dia, já há uns anos, que certas reformas fazem-se, ou só se fazem realmente, contra as pessoas com as quais essas reformas se tornariam impossíveis de concretizar. Compreendo que esta posição suscite interrogações e inquietações. Mas é isto mesmo que se passa com as sucessivas «reformas» do ensino, entupidas pelo sindical-corporativismo reinante e pelas tristes personagens que o têm representado ao longo dos anos, desvirtuadas pelo «fraldiqueirismo» e anuladas pelo principal inimigo destas reformas, se algum dia o chegaram a ser: a cobardia política face à ideia de que nada se pode mudar contra a vontade dos professores. Destes professores.