«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Abril, 2013

Monsieur Sègurô

by jfc

Aqui há uns meses, Seguro vestiu o seu melhor fatinho cinzento, pôs a sua gravata azul clara mais azul clara e foi a França receber in loco a «lufada de ar fresco» que dava pelo nome de François Hollande. Recebido na antiga residência de Madame de Pompadour, o Palácio do Eliseu, Monsieur Sègurô embandeirou em arco e, arvorando aquele ar solene de quem nunca fez chichi nas calças, deu-se como exemplo de homem de Estado.

Nessa sua iniciação ao papel de Jeanne-Antoinette Poisson, inebriado pelo ar fresco e pelo perfume de sofisticação francesa, declarou a identidade de pontos de vista entre Hollande et soi-même, frisando quanto o encontro fora produtivo enquanto olhava o infinito (leia-se, o futuro político de sa personne).

Uns meses depois desse feliz encontro (e após a França, através de Alain Juppé, entre outros, ter elogiado a política governamental portuguesa), Seguro declara-se pronto, em congresso. Esperei ver Luís XV, no dito congresso, a côté de son enfant. Mas nada. Nem Luis, nem François. Nessa anedota apenas entraram um português, um espanhol e um alemão.

O socialista francês presente no congresso foi apenas o delegado nacional para o Mediterrâneo. Obviamente não conta, ou pelo menos conta menos que o pesado pelotão chinês: «Do Comité Central do Partido Comunista Chinês estarão presentes o Director do Centro de Investigações de Documentos, Leng Rong, a Sub-Directora Geral do Departamento Internacional, Yu Xiaoxuan, o Sub-Chefe de Divisão do Centro de Investigações de Documentos, Wang Jianwu, o Sub-Chefe de Divisão do Departamento Internacional, Ouyang Xuemei. Também o  Primeiro Secretário da Embaixada, Hao Qingzhu, integra a delegação chinesa».

Dizem os jornais que, se houvesse eleições agora, Hollande não garantiria a reeleição, contestado pelas políticas de contenção e austeridade  a que foi obrigado – malgrè lui.

Sègurô, agora já no papel de Madame d’Etioles, pelo contrário, declara-se pronto para avançar. E chora, cheio de ternura por si próprio.

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Unanimismo modernaço

by offarinha

Ainda a propósito dos manuais dos 27€, não é só no preço que se destacam estranhas unanimidades. Note-se, por exemplo, a repetição ad nauseam dos mesmos textos e dos mesmos comentadores da actual moda universitária, bem como a dominante adopção de uma perspectiva analítica em versão muito pobrezinha e pretensiosa, género Amadora College of Philosophy.

Como se trata de manuais de Filosofia, a páginas tantas os autores ocupam-se da Filosofia da Religião e das relações entre a razão e a fé. São usados os clássicos óbvios (Sto. Anselmo, S. Tomás de Aquino, Pascal, Kierkegaard, etc.) e, chegados aos nossos dias, uma gente que deve ser célebre e legitimada como relevante nas capelinhas frequentadas pelos ditos autores e pelos revisores científicos em que se apoiam. É sabido que uma das pessoas que tem produzido, nos últimos anos, algumas das páginas mais estimulantes e, por isso mesmo mais discutíveis, acerca deste assunto, é Joseph Ratzinger. Na dúzia de manuais carregados de «celebridades» contemporâneas, nem uma só vez é citado ou, sequer, mencionado.

Imaginemos por momentos que esta malta fraldiqueira resolvia elaborar manuais de futebol. No sector clássico teríamos Kubala, Di Stefano, Pelé e Eusébio. Dos de hoje, os Messis, os Ronaldos e os Mourinhos seriam substituídos por aqueles tipos inenarráveis que enchem os serões televisivos de segunda-feira. Mas a suprema comoção seria a de os autores se sentirem legitimados por ostentar, na capa e em letras garrafais: revisão científica de Paulo Futre ou de Rui Santos.

Escola? Segurança? Justiça?

by offarinha

Que dizer, ou que pensar, ou que fazer, depois de se ler isto?

O problema da datação

by offarinha

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O espécime à esquerda de Arménio Carlos permite, finalmente, datar com precisão o período de desenvolvimento do sapiens a que os dois fotografados pertencem (para confirmar, clique na imagem).

A mão invisível – versão indígena

by offarinha

Ele há bastos exemplos a demonstrar as prodigiosas concepções que as empresas indígenas têm de capitalismo, de mercado livre, de concorrência e de auto-regulação. Aqui vai mais um, este na área da edição.

Por dever de ofício, nos últimos dias tive de olhar para dez manuais escolares de Filosofia destinados ao 10º ano. Os dez manuais foram editados por seis editoras, algumas delas fazendo parte dos mesmos grupos editoriais. Os dez manuais são todos diferentes (nalguns casos as diferenças são muito significativas) no conteúdo, nos autores e consultores, no tamanho, no número de páginas, no aspecto gráfico, na quantidade de imagens, no tipo de papel utilizado, na qualidade da impressão, no número de anexos (CD roms, cadernos de actividades para todos os gostos, etc.). Mas as diferenças terminam quando se chega ao preço – os dez manuais das seis editoras custam todos 27€! Minto: há um que custa 26,50€!

Gosto de imaginar os gabinetes financeiros das editores a abandonarem deliberadamente o Excel e as variáveis para a formação de preços e, num esforço de simbiose com a disciplina tratada, investirem num novo método – o método aristotélico-tomista da definição por via exclusivamente especulativa da essência do preço de um ente, no caso em apreço, um manual de Filosofia. Como se prova, o resultado foi – como era previsível – universal (o tipo dos 26,50€ não conta porque se tratou, manifestamente, de um erro resultante de falha de raciocínio).

Gosto também de imaginar os figurões da utilíssima e indispensável Autoridade da Concorrência a franzirem os respectivos sobrolhos, desconfiados. Não pela unanimidade do preço, claro, mas pelo método utilizado. Para esta gente, de formação solidamente científica e carácter irredutivelmente céptico, qualquer método especulativo é motivo de suspeita. A sua análise baseia-se em considerações sobre os fractais, modelos de econometria dinâmica e em considerações quânticas. Os 27€ são indiscutíveis – o que acontece é que o valor não tem a ver com essencialismos despropositados, nem com questões de cartel (sobretudo não tem nada a ver com questões de cartel!, isto que fique claro), mas com o acaso e, sobretudo, como a necessidade decorre do acaso. Aliás, outro exemplo explicado por razões deste tipo é o preço dos combustíveis. O tipo dos 26,50€ resulta do princípio da incerteza, ou das alterações climáticas ou de uma sinusite qualquer que o afectava na altura dos cálculos.

No tempo eu que eu era estudante, éramos todos oprimidos sob a política ditatorial do livro único. Agora, numa sociedade democrática, numa economia de mercado concorrencial e inseridos no grande espaço europeu, somos todos felizmente livres sob a política do preço único.

Linguagem imprópria

by jfc

A notícia de que a CGD acabou por rejeitar uma iniciativa da editora Saída de Emergência prevista para o dia do livro serve de pretexto para duas ou três reflexões.

Nos factos narrados – a CGD achou que alguns dos livros não tinham uma linguagem adequada à imagem do banco -, o que é mais espantoso é que a CGD não tenha colocado à partida as restrições que legitimamente entendesse e que a editora aceitaria ou não. Adiante.

É sabido que a editora em apreço se tem destacado sobretudo por publicar ficção na área da «fantasy» e do fantástico. Vampiros, grohls, lobisomens, manifestações diversas do sobrenatural e do paranormal, sangue, horror, mundos cruentos e arcaicos ou, pelo contrário, mundos inescrutáveis de tão longínquos no tempo futuro, nada disso afectaria, supõe-se, a imagem do distinto banco. A linguagem imprópria – erótica, obscena – sim.

Não vou tecer considerações de ordem literária, elas não estão presentes no gesto condenatório, nem sequer de modo implícito. Não se trata pois de uma questão literária. Mas esta história da «linguagem imprópria» interessa-me. Aliás, interessa-me o modus operandi do impoluto banco: como foi detectada e quem detectou a existência da linguagem imprópria? Os cenários são diversos e imaginar qualquer deles seria imensamente divertido. Como divertido seria imaginar que o grande romancista americano Philip Roth seria irremediavelmente banido da ilustre Caixa. Ou como seria embaraçoso recusar os livros de Lobo Antunes ou de Miguel Esteves Cardoso. Mas adiante.

Este episódio é obviamente menor e sem grande importância, mas é um episódio que se acrescenta a outros. E todos apontam para o mesmo: numa época em que tudo circula em todo o lado, muitas vezes sem qualquer critério ou com critérios de estarrecer, parece ter-se instalado na sociedade portuguesa um subtil e irritante moralismo.

E a subtileza reside nisto: é que sempre se assacou o moralismo, sobretudo em matéria sexual, à direita, esquecendo que a esquerda exibe, demasiadas vezes, um moralismo bem mais intolerante. Será bom não esquecer que muitos morreram ou foram perseguidos pela chamada «moral comunista». E que ela também foi invocada para censurar e banir livros por terem linguagem «imprópria».

Puta que os pariu.

Dia do Livro?

by jfc

Ouvi num noticiário radiofónico uma reportagem sobre a abertura de uma nova Biblioteca Municipal, em Lisboa.
Nela, na reportagem, foi ouvido um senhor responsável, que disse ser esta a primeira experiência (primeira de muitas que se seguirão, note-se) de formação de uma biblioteca feita «auscultando as populações», no sentido de perceber o que lhes interessa encontrar na sua biblioteca.

Tentei aprofundar a metodologia seguida neste processo, mas a internet, sempre tão solícita, não se descoseu e apenas encontrei a notícia da inauguração prevista para hoje.

Não duvido da excelência do «espaço» – para avós, netos e toda a família – e dos «equipamentos» – tablets, playstations, smartphones são apontados como exemplo. São tudo coisas extraordinariamente indispensáveis numa biblioteca, como é sabido.

Só ainda não percebi a forma de constituir um fundo com base na auscultação da comunidade. E vou estar atento. Mas uma pergunta baila-me na cabeça: será que eu alguma vez me teria deixado fascinar pelo aspecto maciço dos três volumes de a Guerra e Paz se tivessem auscultado os meus anseios aos 16 anos de idade? Será que alguma vez teria descoberto na Biblioteca Itinerante da Gulbenkian os romances de Dickens se tivessem auscultado os anseios e expectativas dos meus conterrâneos?

Será que esta gente não percebe que uma biblioteca não é uma espécie de «lar de dia»?

Como é diferente a educação em Portugal

by offarinha

O Centro de Formação de Escolas do Concelho de Cascais – instituição pública dependente do MEC -, sediado na Escola Secundária de S. João do Estoril e cuja finalidade consiste na formação dos professores do concelho, promove no próximo dia 9 de Maio uma conferência interactiva (sic) com o extraordinário título: «Psicologia da escrita – Grafologia – A escrita, reflexo da personalidade! – A caligrafia: prova de projeção dos comportamentos». O Centro de Formação é superiormente dirigido pelo Sr. José António Pereira Marcelino e a conferência, de inscrição felizmente gratuita, será proferida pelo Sr. Luís Philippe Jorge, apresentado como psicoterapeuta e psico-grafólogo, autor do livro Da psicologia da escrita à descoberta da Grafologia, editado em 2011 pela editora Mahatma. O potencial participante pode antecipar estonteantes revelações sobre o que é a psicologia da escrita e o estudo grafológico, ou sobre o que pode mostrar o estudo da grafologia de um escrevente, ou ainda sobre os fundamentos antropológicos, históricos e psicológicos da grafologia. Sem pretender divulgarar confidências, o que o conferencista pretende evidenciar é o instrumento que a grafologia constitui, enquanto instrumento de conhecimento de si próprio e dos outros, através da apresentação de amostras de escritas e de interações com a plateia.

Mas quem é Luís Philippe Jorge? Através de uma pesquisa básica ficamos a saber que é psicoterapeuta e psico-grafólogo, certificado em Grafologia, nos idos de 1987, no Instituto Canadiano de Caracterologia e diplomado em Androgogia (psicopedagogia para adultos) na Universidade do Québec. No seu vasto curriculum vitae, entre numerosas e variadas funções, avultam ainda formações complementares em Análise Transacional, Tipologia Jungiana, Resiliência neuro-psicológica, Intervenção Multimodal em Lesões Medulares, Psico-Organicidade das Emoções, Naturopatia (aromatologia), entre outras (como se já não bastassem as antecedentes). E como sabemos tudo isto? É que o Sr. Jorge colabora com o Espaço Amar que promove consultas em Tarot, Leitura de Aura, Intolerância Alimentar, Auto-Soma, Hipnose Clínica, Astrologia, Constelações Familiares, Feng Shui, a inevitável Grafologia, e o surpreendente Ki 9 Estrelas; também proporciona Cursos de Astroanamnesis, de Funções Psi Planetas, de Cura Ama Deus, de Karuna e de Expanção (sic) da Consciência; como se tudo isto não fosse suficiente, ainda há workshops sobre o Poder da Gratidão e a Interpretação do Bagua. Mas Jorge não se fica por aqui. Colabora também com outra assombrosa instituição, a Flor de Lótus que, repetindo a Leitura da Aura, inova contudo na Terapia Sacro-Craniana, na Astrologia Psicológica Transpessoal e Sinantria, na Massagem Bioprânica e, pasme-se, nos serviços de catering.

Toda a comunidade educativa do concelho de Cascais agradece antecipadamente a atenção e a partilha do sábio Jorge. Bem haja o Sr. Marcelino que proporciona esta prestimosa e indispensável formação aos professores do concelho de Cascais!

Tempo contado

by offarinha

Relembrando Abril (aqui).

Memória selectiva

by offarinha

A viúva de Saramago diz que é implacável com a censura. A senhora estará a referir-se também ao papel do defunto marido no Diário de Notícias dos tempos do PREC? Ou faz-se de esquecida?