«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Dezembro, 2013

O triunfo dos imbecis

by offarinha

Com a devida vénia à Inês

«Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o génio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros. Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas – os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles. Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a actuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.»

Giovanni Papini, in Relatório Sobre os Homens, versão portuguesa de Eduardo Saló, Colecção Dois Mundos, n.º 155, Livros do Brasil, Lisboa, 1986

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Petição ao nosso Joaquim

by offarinha

Será que, inspirado pela sagacidade prospectiva dos papagaios que tenho ouvido nos canais televisivos, o nosso Joaquim não poderia antecipar a inconstitucionalidade da subida das taxas de juro que inevitavelmente ocorrerá nos próximos dias? E, já agora, não poderá o Presidente da República mandar apreciar a constitucionalidade do frio que tem feito ultimamente? Não violará o persistente taró o princípio da confiança expectável para o assegurar do bem estar do cidadão em época natalícia, nomeadamente aqueles que têm uma forte convicção na inevitabilidade do aquecimento global , ou os que já marcaram férias para esta altura, ou os que singelamente não preveniram agasalho? Nota: Esta última frase dificilmente se percebe, quer pela forma quer pela lógica do raciocínio, mas está propositadamente redigida de acordo com o inconfundível estilo do nosso Joaquim… Em caso de dúvida, por favor confrontar com o esclarecimento (?) que ele prestou no fim da leitura do acordão.

A verdade espectral

by jfc

argullol

O texto que a seguir se transcreve, em tradução e com a devida vénia à editora catalã Acantilado, corresponde ao décimo e último ponto do ensaio «Ráfagas sobre un siglo», contido no livro Maldita perfección. Escritos sobre el sacrifício y la celebración de la belleza (Barcelona, 2013), de Rafael Argullol. O livro – editorialmente impecável, como sempre – é um dos mais estimulantes livros de reflexão que tenho lido nos últimos tempos e o autor um dos mais interessantes no panorama europeu actual (veja-se o extraordinário Visión desde el fondo del mar).

A verdade espectral

Não sabemos se foi Prometeu ou Mefistófeles quem vestiu o traje de prestidigitador, mas o certo é que, encantados pela sua magia – pela «nossa magia» -, nos esquecemos da importância de o averiguar. Não buscamos a verdade: aceitamo-la.
E a verdade que aceitamos implica uma modificação profunda das ideias humanas de verdade até agora concebidas. É uma verdade funcional, imediata, tecnicamente construída sobre a marcha, estreitamente vinculada aos mecanismos de produção de actualidade.
É uma verdade espectral, fria, que nos compromete pouco, mas que aparentemente também não nos condena. É a verdade dos titãs da informação, dos exércitos da publicidade total. Frente a ela, a verdade ardente, secreta, difícil, complexa, que exige conhecimento e exige liberdade, parece viver obrigatoriamente a contracorrente.
Mas se tratamos de averiguar os signos de uma época, se procuramos projectar a Imago Mundi desse século [XX] que era nosso é porque, apesar de tudo, queremos saber, na medida do possível, onde nos encontramos. E não por razões teóricas, académicas; não com o ânimo do taxidermista sobre a pele do tempo, mas para continuar a viagem e manter o desejo de conhecer.
O conhecimento é a nossa principal fonte de erro, mas também a nossa justificação suprema.

A irmã, de Sándor Márai – II

by jfc

Volto ao tema, apesar de concordar em absoluto com tudo o que está dito no texto abaixo.
Comecei a ler Márai, por indicação do meu amigo OFF, ainda este autor não estava publicado em português. Antes de As Velas Ardem Até ao Fim (que é, aliás, o título mais próximo do original) ter sido publicado, ele leu, creio, a versão francesa (Les Braises), enquanto eu li a versão inglesa (Embers). Era o momento de descoberta de um autor que até no seu próprio país era relativamente desconhecido, dada a interdição terrível que se abateu sobre ele e a sua obra.

Depois disso, continuei a ler, com admiração crescente, outras obras de Sándor Márai, sempre em inglês ou francês, antecipando-me às traduções portuguesas que entretanto começaram a surgir, ou até os seus diários, que provavelmente nunca serão traduzidos, dadas as circunstâncias da actividade editorial em Portugal. A irmã foi o primeiro livro de Márai que li em versão portuguesa. E ao lê-lo, em menos de 48 horas, tomei consciência de que tinha passado muito tempo desde que lera um livro em português.

Por razões profissionais, nuns casos, pelo facto de me interessar por autores que (ainda) não estão traduzidos (caso do catalão Rafael Argullol, que vivamente recomendo), noutros casos, certo é que tenho lido muito em espanhol, francês e inglês e relativamente pouco em português.

A irmã é mais um livro extraordinário de Márai, que oferece muitas reflexões e suscita outras tantas. Mas não é disso que quero falar. Do que agora quero falar é do desconforto com que li a edição (LEYA/ Dom Quixote) deste livro.

Não que o livro tenha erros tão graves que impeçam a leitura ou quebrem a fluidez da escrita original. Nada disso. Não hesitarei em recomendar a leitura do livro, apesar da edição descuidada agora apresentada ao público. A escrita de Márai sobrepõe-se aos erros marginais de que o livro enferma. O que não me impede de afirmar que é um edição cheia de infelicidades.

É nos detalhes (esses lugares ínfimos onde, como é sabido, o diabo se esconde) que a enfermidade se revela. Ela não obsta à leitura, mas incomoda. A mim, incomoda-me imenso. Outros leitores, nem se aperceberão de muitos desses detalhes. Não me refiro à tradução, que foi aliás sujeita a uma revisão literária claramente insuficiente. E não falo apenas das muitas «gralhas» (do sonho que se transforma em sono, por exemplo). Falo da falta de cuidado da revisão, da falta de gosto (quantas vezes se «percecionam» coisas a torto e a direito, ou se fala em formulação adolescente de uma«linguagem tipo código Morse»), do desacerto de sinais convencionais, de tempos verbais, de pontuação). Márai merecia melhor.

Vivemos na época do tanto faz. Por isso, para certas pessoas algumas das falhas que aponto serão descartáveis. Mas desconfio que para essas um livro como A irmã não tem muito interesse. E que dificilmente perceberão as palavras do pianista e compositor que é o narrador da segunda parte do livro:

«A sala aplaudia e a crítica elogiava-me. Mas tudo isso era um engano. Porque eu era a única pessoa a saber quanto devia ainda aos pormenores, não tinha usado ainda forças suficientes, disciplina e sacrifício para os alcançar… apenas eu sabia isso. Não há caminho mais desesperado do que aquele que nos leva à perfeição; a cada passo se abrem novas distâncias inescrutáveis. Ficamos horrorizados perante essas perspectivas, mas sabemos que não podemos recuar, nem descansar, caso contrário cai-se no abismo».