«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Novembro, 2013

Liberalismo à Maduro

by offarinha

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E, seguindo esta tendência super-hiper-mais liberal de sempre, porque não um título como: «Todos os tipos que se chamem Leal da Costa vão ter cadastro»?

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A Irmã, de Sándor Márai

by offarinha

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A Irmã, de Sándor Márai, publicado pela D. Quixote, é um livro que pode ser entendido de acordo com a lógica do espelho. Ou da resolução da dicotomia daquilo que se apresenta em paralelismo improvável. Publicado na Hungria em 1946 (último livro antes do exílio voluntário e da total proibição da obra do autor na sua Pátria) e escrito durante a 2ª guerra (a acção decorre entre o seu início e o terceiro Natal desde o início da conflagração), a primeira parte da obra (mais curta) espelha a segunda, ou vice-versa, contribuindo ambas para a sua mútua compreensão. O segundo paralelismo decorre da comparação entre a dilaceração individual e o seu correlativo histórico, apresentado sem que tal resulte irritantemente óbvio. Tudo neste livro é, aliás, resultado da sofisticação discreta de uma luz que cega.

A intenção do autor neste livro, tal como na generalidade da sua obra, é a elucidação do mistério do ser (no sentido verbal e substantivo) humano, com a atenção e o cuidado, o pudor e a discrição, a inteligência acutilantemente reveladora e a reserva de uma enorme sensibilidade, a reflexão solidamente intelectual que não se concebe despregada da paixão, a religiosidade distante da mistela chilra que hoje (mesmo nas mais altas esferas) é tomada como tal, o intelecto humildemente agudo capaz de discernir o que ocupa silenciosamente os interstícios da alma, e a distância suficientemente exacta para abarcar o que define o humano na sua essência (eu sei que tudo isto é hoje démodé, mas é precisamente o que torna o livro fascinante para quem saiba partilhar os seus pressupostos). Humanismo, portanto, no seu mais alto grau, apenas reconhecido num tempo e num lugar únicos – a mitteleurope de entre guerras – de Zweig, Musil, T. Mann, Shnitzler, Broch, Canetti e Freud.

De comparar, ainda, com as reflexões de Alfred Brendel sobre a música e o pianismo ( a personagem principal é um pianista), bem como com o que o Prof. João Lobo Antunes afirma acerca da indispensabilidade da leitura de A Morte de Ivan Ilitch de Tolstoi para qualquer profissional de saúde que se preze (o decurso da obra corresponde ao decurso de uma doença e respectivo tratamento).

Mas o fio condutor é a indestrutível ligação corpo/alma, orgânico/espiritual, mentira/doença, tratar/curar, bem como as correlações, explícita arte/existência, e implícita história/indivíduo. Ou seja, a Vida, nas suas misérias, mistérios, surpresas, epifanias e esplendores.

Apostila: este texto foi escrito na ressaca da leitura, propositadamente sem distância, da obra em apreço.

Rankings

by offarinha

Saíram hoje nos meios de comunicação social os rankings das escolas, bem como os adjacentes comentários mais ou menos inúteis, mais ou menos pertinentes, mais ou menos imbecis. Para além da conversa fiada marxizante, repetida sempre por esta ocasião, da explicação pelo contexto sócio-económico, convém reter o seguinte:
1) As escolas privadas são dirigidas por pessoas que respondem em função de resultados e de eficácia; as públicas por pessoas escolhidas em função dos interesses das professorinhas fraldiqueiras e da pequena política local.
2) As escolas privadas podem seleccionar livremente os professores; as públicas acolhem os que são determinados pelos concursos arranjados pelo MEC e pelo sr. Nogueira.
3) As escolas privadas substituem os professores faltosos e incompetentes e centram-se no ensino dos alunos; as públicas apaparicam equitativamente qualquer um, independentemente do que façam, à luz das interpretações do nosso Joaquim, e os alunos são vistos como um pormenor descartável e insignificante.
4) As escolas privadas escolhem os alunos; as públicas vivem à custa do mito da inclusão (os rankings são, de resto, um excelente meio para os pais perceberem quem as frequenta e, assim, as evitarem sempre que possível).
5) As escolas privadas escolhem as metodologias que entendem melhores e ajustam-nas consoante as variáveis em presença; as públicas optam por aquilo que optam sem se perceber muito bem quais os critérios (objectivos, bem entendido, que os outros são evidentes) escolhidos.

Ignorando as honrosas e raras excepções ao que fica dito, a opção é entre a liberdade e a competência, por um lado e, por outro, a bandalheira e o corporativismo disfarçados de interesse público, triunfal e inconsequentemente apresentados pela langue de bois do socialismo dominante.

Grandeza e ressentimento

by offarinha

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FC Porto apelida de “luxo” estátua ao fundador do Benfica.

Questões de família – os Maduro

by offarinha

Maduro decreta dia da lealdade e do amor a Chávez. Será que o Maduro da notícia pertence ao ramo venezuelano da família cujo representante português se entretém no Governo a decidir que a RTP deve passar – como serviço público, é claro – jogos de futebol e filmes mais ou menos pornográficos pela madrugada? É que esta relação familiar permitiria, finalmente, compreender muita coisa.

Outra boa ideia

by jfc

Outra boa ideia que a Venezuela nos dá: antecipar o Natal para tirar o país da tristeza! Eles antecipam para Novembro. Para nós teria de ser em Setembro, logo a seguir ao mês que os portugueses mais escolhem para as suas férias. E, cá para mim, punha o final do ano em Outubro para prolongar o festim o mais possível.

E depois, perguntar-se-á? E depois da festa, pá?

Depois, logo se veria.  Até poderia ser que no ano seguinte se conseguisse antecipar o Natal para Maio e o fim do ano para Junho. Quem sabe? Não é esta capacidade de mergulhar no futuro o instrumento mais poderoso da política portuguesa?

A puta e a raspadinha

by offarinha

O título deste post também poderia ser «A lógica da trabalhadora sexual», ou «Puta de lógica», ou « A lógica de uma puta», ou «Arredondamento dos rendimentos do trabalho sexual», ou «Empreendedorismo por via judicial», ou «Indemnizem-me, que eu juro que continuarei a investir!», ou «Já que a justiça portuguesa é uma espécie de raspadinha, porque não arriscar?».

Aguardamos com enorme curiosidade o que os mourazes terão a dizer acerca deste caso.

Mouraz no limite da indignação

by offarinha

Somos informados que o chefe do Sindicato dos Juízes está no limite da indignação. Repare-se que os juízes não estão ainda indignados – estão no limite, na fronteira, quase pisam essa linha ténue que, uma vez ultrapassada, os levará decerto a vestir as becas do avesso, a rasgarem as páginas dos códigos, uns a dançarem tap dance sobre as secretárias enquanto outros marcam o ritmo com os martelinhos da função. O juíz Mouraz diz querer, singelamente, ser apenas reconhecido como orgão de soberania. Dito assim, parece um amuo de criança despeitada ou de puta ressentida pela falta de reconhecimento do estatuto e da função. Convenhamos, porém, que isto de se ter um sindicato não é muito compatível (para sermos simpáticos, não vá o juíz Mouraz ultrapassar o tal limite) com função de soberania. Mas o meretíssimo Mouraz diz mais: “Os juízes estão no limite da indignação. O que pedem é que seja reconhecido pela Assembleia da República e o Governo que nós somos um órgão de soberania com pessoas que trabalham em exclusividade de funções, que vivem apenas e só do seu rendimento salarial e que têm que ter um estatuto protegido”. Mas quantos é que não trabalhamos em exclusividade de funções? Mas quantos é que não vivemos apenas e só do nosso rendimento salarial? Parece, afinal, que os mourazes querem ser uma espécie de linces da Malcata ou de cabras do Gerês – uma espécie protegida. Não é bem isso, elucida-nos o prodigioso jurista: “protegido não é serem diferentes ou excepcionais em relação aos outros cidadãos, é terem um estatuto jurídico e remuneratório que lhes permita, com total dignidade, desempenharam as funções de soberania”. Ah, já percebemos tudo! Podias ser mais directo e menos ridiculamente pomposo, oh Mouraz – trata-se de estatuto remuneratório, do vil metal, de carcanhóis, do belo!

É claro que, ao falar-se de juízes, era impensável não vir à baila o Tribunal do nosso Joaquim. E Mouraz fica de novo no limite da indignação com as pressões inadmissíveis que são feitas sobre a fina porcelana que se aloja no Palácio Ratton. Os mourazes podem pressionar (ameaçar? chantagear?) o Governo e a Assembleia, podem decidir sobre o fechos de maternidades, sobre a legitimidade de se ir trabalhar bêbado, sobre a entrega de crianças a pedófilos, sobre a sobrevivência de um país, podem demorar eternidades a decidir mas, sacrilégio!, quem deles divergir publicamente é um terrorista da separação de poderes. Os mourazes, é sabido, têm uma concepção profissional de casta e a organização mental de índios pré-colombianos. Vêem-se a si mesmos como sacerdotes ungidos na sua particular relação com o divino, hierofanias que se manifestam em acordãos e cujo sacrossanto Sumo Sacerdote, o Super Ungido de Mouraz e de todos os mourazes, é o nosso Joaquim! Por falar em separação de poderes, que espectáculo mais lamentável e, simultaneamente, mais esclarecedor se poderia imaginar, depois das tortuosas e mais que suspeitas justificações processuais, que a vassalagem prestada por Noronha do Nascimento e por Pinto Monteiro ao filósofo parisiense? Mas estas coisas, está bem de ver, não ocupam as preocupações dos mourazes…

Parece que os mourazes do Ministério Público também estão indignados e vão fazer greve. Ninguém, como é óbvio e para além dos jornalistas, dará por isso. O facto é que, se perguntarmos a qualquer cidadão, o pior que lhe pode suceder é ser, por qualquer motivo, obrigado a cruzar os seus caminhos com esta gente. Demoras incompreensíveis, arrogância de arrivista, imprevisibilidade absoluta, falta de tino, de preparação, de maturidade, de gravitas… Deus nos livre! Diz ainda Mouraz: «É tempo de dizer basta e é tempo de olhar para a justiça com os olhos que a justiça merece». Quanto ao basta!, estamos de acordo. Mas quando é que a justiça olha para a sociedade sem ser com o olhar do cafre?

A propósito: o que é que os mourazes e os joaquins têm a dizer acerca disto?

Dos bois e da sua nobreza

by jfc

«O boi é o quadrúpede que mais se parece com um filósofo. Vê tu o passo mesurado, grave e cadente de um boi! O olhar meditativo! a sisudez do aspecto! o ar revelativo de um complicado trabalho intelectual que se está elaborando naquela enorme cabeça! Há grandes filósofos menos sérios e cogitativos que o boi!» escreveu Camilo, patrono deste blogue, em Vinte Horas de Liteira. Alguns desses menos sérios e cogitativos, veio a perceber-se, nunca foram filósofos propriamente ditos, mas apenas bois sem trapio nem o nobre porte das raças apuradas. Meros hooligans.