«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Categoria: Empreendimento

Do you know what I mean?

by jfc

Não é a primeira vez que um dos colunistas diários do Expresso se refere, como desta vez em relação ao acordo ortográfico, ao facto de sermos um país do oito e do oitenta (fê-lo, por exemplo, numa crónica sobre as praxes). Mas o dito colunista parece esquecer-se de que, apesar de sermos de facto um país em que facilmente se passa do oito ao oitenta, a realidade mais contundente é que, no final das contas, somos um país de meias-tintas. Se do ponto de vista da regulação social isso pode ser visto como um factor positivo, há muitos outros aspectos em que é um notável empecilho e um sinal claro da mediocridade, da hesitação, da cagufa, da cobardia mascarada de sensatez, do larguem-me-senão-eu-mato dominantes. Ora, ficou-me desde os tempos do liceu, portanto ainda no tempo em que havia liceus, a ideia de que era pior ter sempre «medíocre» do que um «mau» de vez em quando. Do you know what I mean?

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Um livro para ler

by jfc

Nos escaparates em que as livrarias exibem as novidades antes de serem varridas pela próxima maré editorial, ainda se destaca, por enquanto, um livro que gostaria de resgatar das garras da indiferenciação.

Tem o título português de Vida Roubada, que não permite uma rápida identificação do original – The Orphan’s Master Son, romance do americano Adam Johnson, vencedor do Prémio Pulitzer do ano passado –, e foi publicado pela editora Saída de Emergência.

As notícias que ultimamente têm aparecido, com alguma regularidade, na comunicação social, sobre a Coreia do Norte, certamente ganharão realidade depois da leitura deste livro. Dito de outro modo, faz sentido ler este livro agora.

Será, talvez, a primeira obra de ficção a explorar a realidade norte-coreana, o seu regime totalitário, os seus tiques quase infantis, e a lógica implacável dos seus dirigentes. E fá-lo com galhardia narrativa.

A acção desenvolve-se na articulação – bem desenhada – de três instâncias narrativas diferentes, cada uma evidenciando um registo próprio, cada uma contribuindo para uma visão alargada do funcionamento da sociedade norte-coreana, dos seus mitos, das suas obsessões, da violência omnipresente sobre a individualidade dos seus cidadãos e da prevalência da verdade oficial sobre a realidade.

Este último elemento é particularmente importante, até na sua dimensão meta-literária. Neste livro (nesta história) estão sempre a contar-se «histórias», versões da realidade que servem este ou aquele objectivo.

Em certo momento, o Dr. Song diz a Jun Do: «No lugar de onde vimos, as histórias são factuais. Se um agricultor é declarado músico virtuoso pelo Estado, é melhor toda a gente começar a chamar-lhe maestro. E, secretamente, seria aconselhável que começasse a praticar ao piano. Para nós, a história é mais importante do que a pessoa. Se um homem e a sua história estão em conflito, é o homem que tem de mudar».

Outros exemplos poderiam ser apontados sobre o uso das histórias. «… Sei que fui eu que a inventei, mas esta não é uma história em que alguém possa realmente acreditar» diz, noutra situação, Jun Do. «Tens razão – disse o Capitão. – Mas é uma história que eles podem usar».

Ou ainda quando uma delegação norte-coreana se desloca ao Texas: «Compreendes – disse o Dr. Song – que nesta geleira apenas está perna de vaca. A parte do tigre é apenas uma história. Na realidade, é o que estamos a servir-lhes, uma história».

Este papel das «histórias», do modo diverso de narrar a realidade e da dinâmica que estabelece entre a verdade oficial e a verdade privada, se adquire um relevo primordial no contexto sociopolítico deste romance – aliás bem assente sobre uma base documental que se adivinha na leitura –, de certo modo também o liberta desse mesmo contexto ao fazer-nos reflectir sobre a existência de outras «pequenas coreias», mais universais e mais nossas.

Este Vida Roubada, que corre o tremendo risco de pôr em cena, como personagem, uma figura real – o Querido Líder Kim Jong Il – e que ganha largamente essa aposta, merece não ser rapidamente engolido na voragem da indistinção antes de ser lido.

O empreendedorismo – versão Forjaz

by offarinha

Uma amiga falou-me, a propósito já não sei de quê, de uma destas personalidades que ganham súbita notoriedade nos media e nas redes sociais e que, com a mesma rapidez, desaparecem do mapa: um tal Manuel Forjaz. Como o outro com a neve, fui ver. Atenção que vi leve, levemente e tão por alto que algumas das premissas em que assenta este texto se calhar são incorrectas. O tal Manuel Forjaz é um exímio cultivador desse tropos tão moderno – o empreendedorismo! Até aqui nada de novo, muito pelo contrário. A originalidade reside no facto de o apresentar usando a sua condição de canceroso a contas com a morte. Se Forjaz fosse canceroso terminal e usasse a sua doença para cantar a cantiga do desgraçadinho coitadinho que foi bem sucedido na vida, apenas conseguiria ter acesso aos programas televisivos da manhã. Mas, neste caso, há mais sofisticação: embrulha-se tudo naquela religiosidade redonda e delicodoce que o actual Papa protagoniza para regozijo da populaça (não há cá figuras encapuçadas e de gadanha, nem medonhas visões escatológicas, que horror!) e serve-se tudo na linguagem da economia, da gestão empresarial, do marketing e do sucesso. E, como por milagre (ou talvez não), as portas das Business Schools (as tais que estão muito bem colocadas nos rankings e cujos MBAs produzem centenas de gestores prodigiosos que devem ter todos emigrado visto que ninguém ainda conseguiu vislumbrar os resultados da sua sagacidade) abrem-se de par em par para este novo guru.

O que me faz sorrir em todo este caso é a demonstração da extraordinária capacidade de assimilação que o capitalismo manifesta. Na sua grandeza, o capitalismo permite produzir bens úteis para os consumidores, com lucro e por um preço acessível, aumentando o bem-estar do maior número. Nas suas misérias, manipula motivações para obter apenas lucro sem qualquer contrapartida para a felicidade geral e real. O medo de doenças mais ou menos imaginárias (lembram-se das terríveis epidemias de gripes várias, dos milhões de vacinas que foram vendidas e de como tudo não passava, afinal, de coisa nenhuma?); a fome em África, as imagens terríveis de crianças famintas e os negócios fabulosos e a corrupção que esta justificada piedade proporciona; a conversa científica do «aquecimento global» que afinal agora são «alterações climáticas» e os extraordinários negócios por conta das energias alternativas (por favor, confrontar com a factura da electricidade); tudo isto, e muito mais, são exemplos da tal capacidade assimilativa do capitalismo que, nesta sua versão negra, acomoda seja o que for e o torna apetecível. Convém ainda referir o indispensável papel da intervenção do Estado na criação destes «mercados» imaginários. Ou seja, desde que se crie uma narrativa (não é por acaso que o suposto eng. Sócrates tanto aprecia esta palavra) adequada, tudo se pode vender. Para tanto, há quem use imagens apocalípticas, gajas boas, machos poderosos, paisagens paradisíacas – Forjaz usa a miséria da sua própria doença e as intimações da morte para alavancar (mais uma das tais palavras sinistras que esta gente tanto aprecia) o seu negócio.

Em jeito de epistemologia básica da coisa: a jusante temos o lucro ilegítimo; a montante, a criação de uma realidade ficcional que nunca é confrontada com a sujeição a critérios de verificação ou de falsificabilidade baseados na realidade; o discurso ideológico, a propaganda e o marketing são apenas os instrumentos legitimadores de uma situação que, por falta de sustentação nos factos, não passa de uma fraude. Afinal não estamos longe dos pressupostos da teoria da ciência como construção social, tão apreciada e divulgada pelo Prof. Boaventura e pelos seus sequazes. Quem diria, o Prof. Boaventura como ideólogo do crony capitalism e figura tutelar, malgré les deux, de Forjaz?! Com uma diferença. Forjaz, apesar do seu cancro, é divertido e faz-nos rir. O Prof. Boaventura, como se sabe, apenas provoca enormes bocejos.

Intimações da eternidade

by offarinha

Chegado a casa e conectado com o mundo, tomo conhecimento da notícia – adiada há alguns anos – da morte de Claudio Abbado. Mais um da família, muito muito chegada, que parte. Os obituários dão a conhecer bastamente todo o percurso do imenso maestro que negava o conceito de «grande maestro» – grande era, segundo ele, o compositor. Dos dois concertos que deu em Lisboa, assisti ao segundo (a 2ª de Mahler no Ciclo Grandes Orquestras Mundiais da Gulbenkian com a Filarmónica de Berlim, que se realizou no Coliseu e não no Grande Auditótrio, como já vi incorrectamente referido). Para além da imensa (em qualidade e quantidade) discografia – por favor, muita atenção a Abbado director de ópera (extraordinários registos de Mussorgski, por exemplo) e de Mahler, registe-se a criação da Orquestra de Jovens Gustav Mahler (estará de novo em Lisboa em Abril), o Festival de Lucerna (grandes gravações de Beethoven com Martha Argerich, de Debussy e de Mahler) e a Orquestra Mozart.

Desta escola, restam-nos Brendel e o seu cúmplice desde o início, Pollini. Comovidamente agradecido, dedicarei as minhas próximas horas a ouvi-lo. E, por favor, vejam as imagens que o meu camarada de blogue colocou no post anterior.

Eusébio no Panteão?

by offarinha

Quando, no nosso país, alguma coisa vem a lume, raramente vem sozinha. A ela surgem associadas muitas outras, por ela suscitadas e que remetem, invariavelmente, para a superficialidade da forma como tratamos o nosso presente, para a ligeireza com que lidamos com o nosso passado e para a irresponsabilidade com que projectamos o nosso futuro. Triste Pátria e miserável Estado! Que imagem bisonha e patética cultivamos de nós próprios e permitimos que os nossos representantes legitimem e perpetuem! Já viram quem marca presença no Panteão? E, sobretudo, quem lá não tem presença, sequer em cenotáfio?

Parece evidente que a panteonização decorre: ou de uma legitimação institucional que o povo exige espontaneamente para aqueles que ama e com quem se identifica, movimento que o poder, a reboque, adopta de forma interesseira (casos de Amália e, agora, de Eusébio); ou de uma efectiva popularidade que, por razões circunstanciais, o poder aproveita e a que dá balanço (casos de Guerra Junqueiro e de Sidónio Paes); ou por motivos simbólicos (Humberto Delgado); ou porque uma elite de um determinado momento impõe sem outra razão que não seja ideológica ou de seita (Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Óscar Carmona, João de Deus ou Aquilino Ribeiro). O único que parece corresponder a uma efectiva importância nacional (de Nação com passado, presente e futuro numa perspectiva à Burke) é Garrett.

Alguém pensa, nesta pobre terra, o que significa estar no Panteão, o sítio onde se evocam, comemoram e recordam todos os «deuses» da Pátria? Então os nossos deuses-escritores são o patriarca do kitsch literário – Junqueiro, e o autor da Cartilha Maternal (que muito estimo, até porque foi nela que aprendi a ler)? Não há outros, numa terra supostamente literata, nem mais significativos? Aquilino (outro que tanto aprecio por razões literárias e como cultivador exímio da língua portuguesa) não está lá como escritor: na verdade, as razões da sua presença são de outra natureza e não se recomendam especialmente. Teófilo (leiam o que Camilo diz da criatura), Manuel de Arriaga e até o patético Carmona!? Não se trata de simpatia pessoal: objectivamente, apenas Garrett, Amália, Delgado (como símbolo) e, agora, Eusébio, têm dimensão panteonizável. Como, sobretudo, os outros que lá não estão. Da literatura (temos um Prémio Nobel, caso se tenham esquecido e independentemente de qualquer outro juízo, já para não falar de Camões, Vieira, Camilo, Eça e Pessoa), das artes (Vieira da Silva, não?) e da ciência (Egas Moniz, outro Prémio Nobel). E, se em política o que conta é a influência nacional, trasladem para lá o Salazar e o Cunhal.

Eu, admirador confesso e hiperbólico de Eusébio, duvido que o seu lugar seja no meio de tal gente. Aliás, proponho um movimento para retirar daquela tumba, sinistra e mediocremente frequentada, Garrett e Amália. Quanto a Eusébio, gostaria que o seu lugar de descanso final fosse junto ao Estádio da Luz, então definitivamente convertido em A Catedral.

Em Santa Engrácia poder-se-iam arranjar umas acomodações para o culto e sofisticado Mário Soares, que seria assim o primeiro a dar entrada no Panteão ainda em vida, correspondendo desta forma à sua incomensurável prosápia. E, para dar um ar mais moderno, em registo multimédia, apenas a voz e a empáfia de Manuel Alegre. Arranjavam-se uns aventais e assim ficava tudo em família.

Grandeza em família

by offarinha

Eusébio
Fotografia tirada em 29 de Dezembro de 2013.
O essencial está no post anterior.

Luto

by jfc

Os centos de comentadores dirão o que se espera que digam. Os comentadores, os políticos, a gente da «bola» e fora da «bola». Eusébio foi suficientemente celebrado em vida para que não falte o que dizer sobre ele. A mim, que privei com ele desde as primeiras cadernetas de cromos, a morte de Eusébio deixa-me definitivamente noutra idade. Recordar-se-á, mais uma vez, que no tempo dele as coisas no futebol não eram como são hoje, que nunca ganhou os milhões que hoje poderia ganhar. Mas esse é um discurso espúrio: Eusébio não foi o que não poderia ter sido. Eusébio foi, plenamente e sem restrições, força e ânimo. Poderia acrescentar sacrifício e coragem. Teria de acrescentar Sport Lisboa e Benfica. Teria de acrescentar ainda Portugal. Esse é o legado de coisas mais ou menos caídas em desuso que Eusébio construiu com a inteligência do instinto e com grandeza de alma. E é esse, porventura, o seu grande legado.

PS.: Ah, e outra coisa: ou põem o Sr. Eusébio da Silva Ferreira no Panteão Nacional, ou tiram de lá a Sr.ª Dona Amália.

O triunfo dos imbecis

by offarinha

Com a devida vénia à Inês

«Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o génio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros. Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas – os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles. Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a actuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.»

Giovanni Papini, in Relatório Sobre os Homens, versão portuguesa de Eduardo Saló, Colecção Dois Mundos, n.º 155, Livros do Brasil, Lisboa, 1986

A verdade espectral

by jfc

argullol

O texto que a seguir se transcreve, em tradução e com a devida vénia à editora catalã Acantilado, corresponde ao décimo e último ponto do ensaio «Ráfagas sobre un siglo», contido no livro Maldita perfección. Escritos sobre el sacrifício y la celebración de la belleza (Barcelona, 2013), de Rafael Argullol. O livro – editorialmente impecável, como sempre – é um dos mais estimulantes livros de reflexão que tenho lido nos últimos tempos e o autor um dos mais interessantes no panorama europeu actual (veja-se o extraordinário Visión desde el fondo del mar).

A verdade espectral

Não sabemos se foi Prometeu ou Mefistófeles quem vestiu o traje de prestidigitador, mas o certo é que, encantados pela sua magia – pela «nossa magia» -, nos esquecemos da importância de o averiguar. Não buscamos a verdade: aceitamo-la.
E a verdade que aceitamos implica uma modificação profunda das ideias humanas de verdade até agora concebidas. É uma verdade funcional, imediata, tecnicamente construída sobre a marcha, estreitamente vinculada aos mecanismos de produção de actualidade.
É uma verdade espectral, fria, que nos compromete pouco, mas que aparentemente também não nos condena. É a verdade dos titãs da informação, dos exércitos da publicidade total. Frente a ela, a verdade ardente, secreta, difícil, complexa, que exige conhecimento e exige liberdade, parece viver obrigatoriamente a contracorrente.
Mas se tratamos de averiguar os signos de uma época, se procuramos projectar a Imago Mundi desse século [XX] que era nosso é porque, apesar de tudo, queremos saber, na medida do possível, onde nos encontramos. E não por razões teóricas, académicas; não com o ânimo do taxidermista sobre a pele do tempo, mas para continuar a viagem e manter o desejo de conhecer.
O conhecimento é a nossa principal fonte de erro, mas também a nossa justificação suprema.

A irmã, de Sándor Márai – II

by jfc

Volto ao tema, apesar de concordar em absoluto com tudo o que está dito no texto abaixo.
Comecei a ler Márai, por indicação do meu amigo OFF, ainda este autor não estava publicado em português. Antes de As Velas Ardem Até ao Fim (que é, aliás, o título mais próximo do original) ter sido publicado, ele leu, creio, a versão francesa (Les Braises), enquanto eu li a versão inglesa (Embers). Era o momento de descoberta de um autor que até no seu próprio país era relativamente desconhecido, dada a interdição terrível que se abateu sobre ele e a sua obra.

Depois disso, continuei a ler, com admiração crescente, outras obras de Sándor Márai, sempre em inglês ou francês, antecipando-me às traduções portuguesas que entretanto começaram a surgir, ou até os seus diários, que provavelmente nunca serão traduzidos, dadas as circunstâncias da actividade editorial em Portugal. A irmã foi o primeiro livro de Márai que li em versão portuguesa. E ao lê-lo, em menos de 48 horas, tomei consciência de que tinha passado muito tempo desde que lera um livro em português.

Por razões profissionais, nuns casos, pelo facto de me interessar por autores que (ainda) não estão traduzidos (caso do catalão Rafael Argullol, que vivamente recomendo), noutros casos, certo é que tenho lido muito em espanhol, francês e inglês e relativamente pouco em português.

A irmã é mais um livro extraordinário de Márai, que oferece muitas reflexões e suscita outras tantas. Mas não é disso que quero falar. Do que agora quero falar é do desconforto com que li a edição (LEYA/ Dom Quixote) deste livro.

Não que o livro tenha erros tão graves que impeçam a leitura ou quebrem a fluidez da escrita original. Nada disso. Não hesitarei em recomendar a leitura do livro, apesar da edição descuidada agora apresentada ao público. A escrita de Márai sobrepõe-se aos erros marginais de que o livro enferma. O que não me impede de afirmar que é um edição cheia de infelicidades.

É nos detalhes (esses lugares ínfimos onde, como é sabido, o diabo se esconde) que a enfermidade se revela. Ela não obsta à leitura, mas incomoda. A mim, incomoda-me imenso. Outros leitores, nem se aperceberão de muitos desses detalhes. Não me refiro à tradução, que foi aliás sujeita a uma revisão literária claramente insuficiente. E não falo apenas das muitas «gralhas» (do sonho que se transforma em sono, por exemplo). Falo da falta de cuidado da revisão, da falta de gosto (quantas vezes se «percecionam» coisas a torto e a direito, ou se fala em formulação adolescente de uma«linguagem tipo código Morse»), do desacerto de sinais convencionais, de tempos verbais, de pontuação). Márai merecia melhor.

Vivemos na época do tanto faz. Por isso, para certas pessoas algumas das falhas que aponto serão descartáveis. Mas desconfio que para essas um livro como A irmã não tem muito interesse. E que dificilmente perceberão as palavras do pianista e compositor que é o narrador da segunda parte do livro:

«A sala aplaudia e a crítica elogiava-me. Mas tudo isso era um engano. Porque eu era a única pessoa a saber quanto devia ainda aos pormenores, não tinha usado ainda forças suficientes, disciplina e sacrifício para os alcançar… apenas eu sabia isso. Não há caminho mais desesperado do que aquele que nos leva à perfeição; a cada passo se abrem novas distâncias inescrutáveis. Ficamos horrorizados perante essas perspectivas, mas sabemos que não podemos recuar, nem descansar, caso contrário cai-se no abismo».