«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Maio, 2013

A filosofia da bola

by offarinha

O fulano que é aqui citado parece que é o guru de uma coisa que dá pelo nome de Faculdade de Motricidade Humana (estarão os defensores dos direitos dos animais a pensar em criar a Faculdade da Motricidade dos Restantes Animais?). É reverenciado por treinadores da bola mais ou menos mediáticos, comentadores desportivos avulsos e por aquelas criaturas que ensinam (?) Educação Física (não se atrevam a chamar ginástica à coisa que eles dizem que ensinam!) nas escolas. Palavras para quê? É um filósofo português e, como se vê, dos bons.

Crateras e cristais

by offarinha

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Crateras e cristais, de Jorge Colaço, foi publicado no Brasil pela Editora Kelps, e reúne três corpos de textos – Pequeno Guia de Materiais, Para um Manual de Auto-Ajuda e Textos Atópicos -, precedidos pelo poema que dá o título à obra. Alguns dos poemas foram aparecendo dispersamente e outros surgiram reunidos em edição limitada. Sendo conhecidas as dificuldaddes da publicação de poesia no nosso país, é de louvar a esclarecida mão amiga que contribuiu para a sua edição conjunta do outro lado do Atlântico. Aqui ficam algumas impressões de leitura.

Prólogo – «O tempo nasce de olhos abertos». A poesia é, desde a sua origem e seja qual for o género ou o estilo adoptados, uma viagem que permite, configura, delimita e confirma um universo. Neste caso, investe-se «numa pequena poética / biológica e sustentável» que procura decifrar algumas das respostas possíveis às «Interrogações» enunciadas sem, no entanto, perder de vista o «fundo do vaso grego» onde «subsiste o perfume de um segredo insanável que mal conhecemos – o amor e a dor, a morte e o medo».

1) O silêncio – «Todo o esplendor tem as suas misérias». A taxinomia dos silêncios está exaustivamente enunciada no texto inaugural de Textos Atópicos. Esta poesia remete explicitamente para a música no sentido de uma construção a partir do (e no) silêncio, o que convém, a bem da inteligibilidade deste universo, ter sempre presente como essencial origem de significados e chave de decifrações. O vazio do espaço é, também ele, entendido como um silêncio. Força-se, assim, a sua transfiguração numa coisa que não é o vazio habitual (o espaço como que se temporaliza pela ênfase posta nos seus interstícios por preencher) e que possibilita a original arrumação e o entranhado conhecimento dos lugares da «casa». O povoamento assemelha-se ao dos filmes de Tarkovski ou às igrejas abandonadas de Tonino Guerra: marcas de corrosão e da passagem do tempo, definição intencional dos silêncios – prolongados mesmo artificialmente -, que permitem a identificação do que permanece e se evidencia emergindo das trevas. Eis o nosso «pesado destino de âncoras» limitado à música «das medusas,/ ágeis sinos de silêncio».

2) O véu da ordem – «estanco / a hemorragia / num ápice». Remetendo de novo para a música, o pianista Alfred Brendel (também ele poeta), fala da sua concepção interpretativa numa obra sugestivamente intitulada O Véu da Ordem. Longe de uma suposta aproximação nitzscheana, o véu da ordem consiste no que o pianista faz da, e com a, e a partir da, partitura sem dela, porém, se afastar um milímetro. Ou seja, trata dos conjecturais equilíbrios entre uma subjectividade sempre transcendente e uma objectividade que, pela primazia que lhe é deliberadamente concedida, merece ser religiosa e imperativamente respeitada. A poética de Jorge Colaço observa escrupulosamente este tropos de distanciamento e, sobretudo, de fidelidade: «os olhos/ aos céus/ entrego abertos/ para serem/ absorvidos pela luz/ absolvidos pela cor»; ou «não sou marinheiro / não morrerei no mar»; ou ainda na humildade da relação mármore- memória- imortalidade. O real, tal como a partitura de Brendel ou os seres naturais de Lineu, é objecto de uma apropriação analiticamente minuciosa e taxinómica que não exclui – antes intensifica – a paixão com que é reflectido como aparentemente simples guia dos materiais. O sujeito e a realidade matérica surgem assim como um espelho duplo que, sem sobreposição ou coincidência, se projectam e exibem em simultâneo, da mesma forma como os místicos identificam a sucessão das potestades celestes e, nela, identificam igualmente as sucessivas moradas da alma. Ou vice-versa.

3) Il fabro – «oficina de poetas, mestres/ no ofício de fazer/ as próprias gavetas». A poesia é, sobretudo, uma questão de oficina, de disciplina ascética com que o meticuloso artífice trata as palavras e as combina. Aconselha Verrochio ao seu jovem aprendiz Leonardo: «Acabarás por esquecer tudo,/ até o momento precário/ em que tudo se define/ a árdua geometria do início./ Procura mão (…)/ que projecte no esquecimento/ o jactante sobressalto de te achares artista./ Agora chega de conversa. Ao trabalho». Nada de mais alheio a esta poesia que o enfático, o derramado, o sentimentalismo lírico, a grandiloquência das emoções, a centragem no querido eu. Dito isto, convém igualmente atender a que esta não se reduz a um intelectualismo da dialética das ideias, ou ao compromisso programático com o real, ou ao comprazimento formal com as palavras e o estilo. A questão é que o Autor desconfia destas gavetas que não foi ele próprio quem as fez e, por isso, não as usa. Acerca das palavras, diz que as guarda numa caixa de folha flandres: «Quando sem tirar/ a tampa/ me ponho à escuta/ ouço bater um coração./ Mas é do lado de fora». Acerca da razão, que é «o lugar gradeado/ onde meteram a fera/ amansada/ que um dia se atirou ao tratador». Alternância entre o dentro e o fora que tem origem na desconfiança e no cepticismo acerca de gavetas alheias e até das próprias. Sobretudo do eu que as constrói: «Sonda o espelho/ e vê/ se te revela/ o que lhe ocultas»; ou «o teu rosto muda/ de encontro ao tempo,/ mas não muda tanto/ como o próprio tempo». Ou seja, e finalmente, «guarda o fermento apenas para o pão». O lirismo de que aqui se fala é subtil e parcimonioso. Além disso, permite-se jogar com a dureza, a rugosidade, a impenetrabilidade e a opacidades das coisas e dos sentimentos, aumentando-as ou diminuindo-as, sempre com medida, mas sem que o exercício de rigor comprometa o encantatório, nem a exuberância prejudique a contenção. Para se chegar ao fluir espontâneo desta respiração natural, é preciso esforço e conhecimento, mão paciente calibrada pela experiência, boas ferramentas e critério na selecção das matérias-primas. Ou seja, todos os ingredientes com que o talento se fabrica.

4) Com a borracha. Assim respondeu Stavinsky quando lhe perguntaram como compunha. A arte de cortar palavras, já acerca disso advertiu o Pe. António Vieira, dá muito trabalho e ocupa muito tempo. Jorge Colaço, o que não é habitual entre nós, cultiva com galhardia e decisão o texto curto. A sua genealogia não deve ser buscada, por diferenças notórias de estilo e de intenção, no haiku. Encontram-se, pelo contrário, ecos dos apotegmas oraculares dos pré-socráticos e dos estoicos («Se lanças/ um arpão de intenções/ e atinges o coração/ do teu próprio desconsolo,/ sangra em silêncio.»); da clareza luminosa do pensamento de Pascal (« Quando tudo/ que te escapa/ se concentra/ numa só ideia,/ é já tarde/ para tu próprio/ escapares/dessa teia.»); do cepticismo talhado à faca dos aforismos de Cioran (« Aguarda./ Ou pelo menos/ guarda/ por agora/ todo o tanto que sabes,/ para não te/ apontarem/ o grotesco/ e acusarem/ de gorda ignorância.»); da elegância sentenciosa dos moralistas franceses do século XVII, por exemplo, Bossuet («Não temas juízos morais,/ mas foge dos juízes morais.»); da mordacidade satírica dos epigramas de Karl Kraus («Não te/ acocores/ para não/ acabares/ a cacarejar.»). Aforismos para a auto ou hetero-ajuda (tanto faz), o que sobreleva é o pacto entre a ironia atenta, seca, lúcida, vigilante, física e brutal, por um lado, e, por outro, as imagens fortes, espessas, angulares e carregadas de carnalidade («Percutido/ na tecla de um clavicórdio/ de feltro, sem/ fio e sem trama, o tempo/ espessa e endurece,/ atacado de forma.»). Intimações de claridade e de moderação («E ama o riso/ sob as pálpebras.»), os conceitos e o discurso que eles constituem são tomados por uma espécie de expressionismo imagético. Como se Wittgenstein fosse musicado por Richard Strauss ou Bruckner.

Coda. Isto que aqui fica não pretende ser, nem um exercício de crítica literária nem sequer um esboço de exegese hermenêutica o que, pelo seu carácter desconchavado, apenas contribuiria para diminuir, imerecida e injustificadamente, a obra em apreço. A partilha destas impressões de leitura é, apenas e tão só, uma outra forma de dar um abraço a um querido Amigo.

O Conselho da Revolução, civil e geronte

by offarinha

Não vou aqui comentar a figura (triste) a que o Presidente da República se prestou com a convocação do Conselho de Estado. Nem os episódios (ainda mais tristes) entretanto vindos a público. Sinalizo apenas: os padrões éticos de alguns conselheiros; a promiscuidade entre a função de conselheiro e a de comentador televisivo (contratado por isso mesmo ou vice-versa?); o proeminente estatuto que o Presidente decidiu atribuir a esta «coisa em forma de assim»; as semelhanças entre este órgão e o comité central da defunta URSS, a brigada do reumático marcelista e a gerontocracia que governava a China maoista; e, sobretudo, o papel, género Conselho da Revolução, também não eleito, também irresponsável e, sobretudo, composto também por gente que apenas representa a sua própria inanidade, é corresponsável pela situação em que estamos, é cega em relação a isso e pretende a todo o custo perpetuá-la.

As imbecilidades perigosas dos capitães revisteiros do Conselho da Revolução são hoje substituídos, sem qualquer glória ou proveito, pelos artigos e assembleias do Dr. Soares, as parvoices tonitruante do escritor Alegre, os termómetros políticos do Dr. Sampaio, as intrigas do Dr. Marcelo, os recados do Dr. Mendes, os interesses do Dr. Bagão, as entrevistas neurocirúrgicas do Dr. Antunes, as grosserias do Dr. Jardim, as palermices marcianas do Provedor de Justiça e do Presidente do Tribunal Constitucional (destes, só a família lhes conhece o nome). Que pena a Dra. Ferreira Leite, mais a sua metodologia de discussão com a troka à base de gritaria, já não fazer parte desta pandilha!

Esta gente representa o regime, o que ele fez, o que não fez e, sobretudo, o impasse a que nos conduziu. Não é capaz de apresentar uma ideia para sairmos de onde estamos. O que diz, pela natureza do que são e do que pensam, é bastamente conhecido – está a léguas da realidade. A questão, que não tem nada a ver com esta gente, é: o que estará, ou poderá estar, para vir?

Multiculturalismo

by offarinha

A propósito do que se passou em Boston, e agora em Londres e Estocolmo, quando é que o Ocidente (e Portugal) discute a sério esta questão. Sem as tretas e os preconceitos (de vários quadrantes) do costume. Aconselho a leitura da nossa comunicação social para se oscilar entre o vómito e o fastio. Depois da purga, ainda será possível a racionalidade dos argumentos e a evidência dos factos?

Discutem-se finalmente questões decisivas (2)

by offarinha

Em complemento ao último post, veja-se a reacção do Governo português, através de uma pasta tutelada pelo prodigioso CDS (Centro Democrático Socialista?). Diz-se por aí que esta gente é liberal…

Discutem-se finalmente questões decisivas

by offarinha

Bruxelas recua na proibição dos galheteiros. Também neste assunto, os socialistas portugueses se mostraram perplexos e indignados. O que pensará Monsieur Hollande da questão do galheteiro? Haverá nisto tudo a mãozinha ultra-liberal da Senhora Merckel? A seguir com atenção.

O Patriarca porreiro

by offarinha

aqui tinha manifestado as minhas reservas acerca da entronização do novo Patriarca de Lisboa. Hoje, duas revistas fazem capa com as peripécias biográficas do indivíduo. Uma assevera-nos que é universalmente reconhecido como um «tipo porreiro». Fico mais descansado. As dúvidas que levantei são, agora comprovadamente, resultado de um cepticismo, tão escrupuloso quanto despropositado, acerca das virtudes espirituais do porreirismo em versão eclesiástica. O resto deve continuar a ser coincidência…

Os ferros do bastonário

by offarinha

Já me tenho aqui irritado com as prodigiosas imbecilidades que o bastonário da Ordem dos Médicos usa para defender os seus interesses corporativos. Hoje acordei com mais um dos mimos que regulamente prodigaliza. Parece que o governo brasileiro pretende convidar médicos portugueses e espanhois para zonas carenciadas. Em contrapartida, elimina as burocracias relativas às equivalências requeridas para a prática da medicina, sendo que este reconhecimento se limita apenas ao local do contrato. Logo o tonitruante Dr. Silva, decerto sustentado nas lúcidas concepções da Doutora (por extenso, não vá a criatura se ofender) Raquel do post anterior, alertou: «O que os brasileiros propõem é um contrato próximo da escravatura!».

Dando de barato a questão hermenêutica do «próximo da», algumas perguntas. Estará o o governo brasileiro a organizar umas razias nos hospitais e centros de saúde para raptar médicos, os separar à força das respectivas famílias e enviá-los contra sua vontade para o sertão? Não tenciona pagar um salário previamente acordado, ou apenas se compromete com a malga de mandioca? E os locais para onde os escravos do estetoscópio vão forcejar não são já conhecidos ou, cavilosamente, a Presidente Dilma pretende vingar-se do passado destinando estes portugueses ao tráfico?

Conhecem-se as elevadas concepções deontológicas do Dr. Silva a propósito da promiscuidade público/privado, fraudes com horas extraordinárias e negociatas com a indústria. O bastonário, que decerto conhece o Brasil por meio de frutuosos congressos e viagens oferecidas inocentemente, sabe do que fala: exercer fora dos grandes centros é escravatura. É esta, de resto, a razão pela qual os centros de saúde da provínicia estão cheios de médicos espanhois, colombianos, cubanos, etc. Porque não propõe o Dr. Silva que eles vão para Lisboa, Porto ou Coimbra? Ou porque não denuncia esta escravatura debaixo do seu nariz e com a sua cumplicidade activa?

Ao governo brasileiro: se quiserem capturar o Dr. Silva, podem contar comigo para negreiro. Com a garantia de que, uma vez apanhado, o marcam, lhe colocam ferros e o enviam, para sempre e sem contactos com o resto do mundo, para os confins da Amazónia. E antecipo as minhas desculpas e a minha compreensão aos pobres habitantes que, não lhes bastando viver no fim do mundo, ainda terão a desdita de conviver com tal cretino.

Lição de empreendedorismo

by offarinha

O único comentário que podia ser acrescentado a esta lição da Helena Matos teria a ver com a RTP, o bendito serviço público, o indescritível programa e a sua inenarrável apresentadora. Mas, vendo bem, também isto e esta gente cabem na versão indígena do empreendedorismo correcto.

Wagner – 200 anos

by offarinha

Cumprem-se hoje 200 anos sobre o nascimento de Richard Wagner. Acerca da dimensão e da complexidade do universo que construiu é impossível elaborar um discurso sequer medianamente satisfatório. Há quem ame apaixonada e obsessivamente e há quem odeie, não há meio termo. Como dizia o outro – passe-se sobre isto em silêncio.

O meu primeito contacto com a música de Wagner foi num longo serão televisivo (nesses tempos, longo deve ter sido até aí por volta da meia-noite), em casa de meus avós maternos, sob a égide de João de Freitas Branco. Seria o Tristão? Como se percebe, ainda muito novo, apenas ficou a lembrança do gigantismo da coisa. A perseverança na audição ter-se-á ficado a dever a quê? Apenas à insistência do meu avô? De qualquer forma, foi o Prólogo para as todas as Jornadas que se seguiriam. A grande descoberta deu-se, também foi por via televisiva e sob a mesma tutela de João de Freitas Branco, com a produção do centenário do Anel em Bayreuth, de Boulez/Chéreau, em 1976. Pela mesma altura, em S. Carlos, era também apresentada a Tetralogia na versão do neto do compositor. Nas torrinhas, primeiro, e, nas duas últimas jornadas já na plateia, o efeito do feitiço foi tremendo e dura até hoje.

A compra, nuns saldos em Londres, dessa mesma ópera na versão de Solti (ainda hoje a minha preferida) em dezenas de discos em vinil, o seu acondicionamento nas malas e a respectiva trasfega para Lisboa, constituíram um episódio épico, digno dos deuses e heróis da Walhalla. Em S.Carlos, recordo um Parsifal, um Tristão, um Navio Fantasma, uma Valquíria e, mais recentemente, a Tetralogia de Graham Vick. Outras coisas houve em Paris e Londres. Depois há as inúmeras gravações – do Tristão, para aí uma dezena – ouvidas religiosa e repetidamente, sem que nada se esgote ou diminua.

Parece que o ciclo se fechou e, para hoje termos Wagner, ou vamos ao estrangeiro ou regressamos à televisão (o serão das quatro últimas noites no Mezzo foi preenchido pelo Anel do Met que já passou na televisão gigante da Gulbenkian). A julgar pelo que se sabe, tão cedo não haverá Wagner em S. Carlos. Sejamos sérios – não haverá ópera em S. Carlos! E, atendendo às cretinices que por lá têem sido exibidas, se calhar assim ficamos mais bem servidos.

Viva Wagner!