«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Março, 2013

Páscoa

by offarinha

Sábado de Aleluia

by offarinha

Sexta-feira Santa

by offarinha

Lamentações

by jfc

Creio que a grande tragédia da minha geração foi/tem sido/é a questão da pertença Europeia.

Depois de estabelecidos os “direitos e garantias” que não existiam, ou existiam de modo esfarrapado, no momento de virmos a este mundo, e passados os momentâneos ardores revolucionários que a Guerra Fria produzira como resíduo, creio ter sido a Europa o elemento mais motivador da minha geração.

Nascidos num país tranquilamente triste, em que a paleta de cores dominante se modulava ao longo das várias tonalidades que medeiam entre o preto e o branco, passámos a adolescência ofuscados pela erupção de cor que era a Europa além-Pirenéus.

Passámos a adolescência e parte da juventude divididos entre dois regimes simultâneos: o circunspecto regime político cuja matriz ditatorial, por um lado, se corporizava na minúcia repressiva e, por outro, na desagregação do seu próprio corpo, conservando apenas no rosto alguns vestígios de severidade. Vivíamos politicamente sob a ditadura nacional, mas culturalmente ela era apenas um pretexto para “conspirarmos” abertamente à mesa do café.

Com mais ou menos razões de ordem ideológica, não desejávamos ardentemente ir para África. A Europa era o nosso ideal. Era como queríamos ser. Era o lugar onde ir quando se sonhava sair daqui.

Havia mais cor, mais liberdade, mais diversidade, mais livros, mais música, mais espectáculos, mais civilização. Havia sobretudo um maior nível económico, salarial, directamente proporcional a essa organização da vida.

Um dia, disseram-nos que íamos então, finalmente, “entrar” na Europa, a que geográfica e culturalmente sempre pertenceramos. E que, por consequência, íamos passar a integrar esse universo de cores mais vivas de que tínhamos sido longamente privados.

Quando nos disseram – a própria “Europa” nos disse – que essa pertença significaria objectivamente uma “convergência” de preços e salários, respirámos fundo. Íamos passar a ser Europeus de pleno direito.

E passámos a viver na ilusão de que era assim. Todos.

A convergência tardou e a máscara foi caindo. Vivemos um período de simulacros, no consumo, na possibilidade de viajar, na imitação pobre de certos gestos. Mas a distância da periferia para o centro não diminuiu. O sítio continuou a ser pequeno e mal frequentado. Passámos a ser ponto de passagem da caravana internacional do rock, mas deixámos de ter ópera. Continuámos a encomendar fora os livros que não chegam cá. O ensino atolou-se no próprio pântano que criara (e éramos já demasiadamente velhos para o Erasmus). Nem os piores desmandos das governações nos guindaram a níveis de vida sequer parecidos com os dessa Europa mítica que sonháramos.

À lentidão da convergência seguiu-se a divergência. E hoje sabemos, finda a ilusão, que vivemos acima das nossas possibilidades e que, afinal, é preciso baixar os parcos salários que sempre ganhámos.

Não, este texto não é uma diatribe contra o actual governo. É a lamentação amargurada da perda de um ideal, traído ou desfeito por todos, ou quase todos, ao longo de décadas. É a lamentação de uma sociedade que nunca conseguiu verdadeiramente fugir à gama de tons que, da mediania à mediocridade, configuram o único lugar onde se “cumpre Portugal”.

Dir-me-ão que há excepções, zonas de excepção. É verdade, servem para confirmar a regra. Dir-me-ão que a Europa também mudou. É verdade, e para pior. Mas mantendo a diferença de patamar que à partida nos separava. Não fomos capazes de subir esse lanço de escadas.

Quinta-feira Santa

by offarinha

Voltando a coisas que verdadeiramente importam

by offarinha

A posição oficial e ne varietur deste blogue acerca do exercício narrativo de ontem à noite pode ser encontrada no post anterior.

Voltando agora a coisas que realmente importam. Ter a disponibilidade, e sobretudo a paciência, para consultar a imprensa todas as manhãs permite, indo para além da espuma nela tão dominante quanto irrelevante, perceber o que somos e onde estamos. Já ontem referi o caso daqueles médicos ladrões e as elevadas reflexões acerca dos pressupostos e limites do exercício da canonização clínica que proporcionou. Hoje lê-se que Portugal é o país europeu que mais demora a decidir processos. E ficamos a saber que cada processo demora quatro vezes mais tempo a ser concluído que a média da União Europeia. Quatro vezes são, neste tipo de assuntos, vezes exageradas. Um leigo nestas matérias percebe que o legislador usa deliberadamente processos legísticos em que a interpretação de um decreto constitui a decifração de uma charada ou a leitura esotérica das entranhas das aves (vide o recente caso do «de» ou «da»); esse leigo também associa isto à lucrativa profusão de pareceres de professores de Direito/decifradores de enigmas e ao frequente, e igualmente lucrativo, recurso a meia dúzia de escritórios de advogados/criadores de novos enigmas; também conhece o funcionamento dos Tribunais, a sua morosidade, a forma autista e pesporrente como habitualmente tratam quem deles tem a desgraça de necessitar, a soberba estratosférica adoptada por muitos juízes e procuradores e, sobretudo, o seu desprezo pela realidade (para esta gente a única realidade são as páginas dos códigos) e a forma como legitimam (vide as agendas ocultas, com o rabo muito de fora, das cúpulas do poder judicial e dos respectivos representantes sindicais) o seu lamentável poder.

O que esse leigo também sabe é que, mais uma vez, o poder destas corporações auto-referenciais, auto-legitimadas e auto-avaliadas tem consequências e custos terríveis. A irresponsabilidade da Justiça (em ambos os sentidos da palavra) só é limitada pelas conveniências dos seus protagonistas, sejam elas materiais ou simbólicas. Acompanhar uma sessão onde esta gente toda se aglomera é um exercício entre o filme de zombies, a comédia de costumes e uma série de Dennis Potter. Só que a defesa corporativa, a persistência de um poder ciosamente resguardado e construído com cumplicidades – e tráficos – alheias, repercute-se, de forma geometricamente difusa, progressiva e malsã, na vida social e económica. A este respeito ainda não foram ouvidos o bastonário da Ordem dos Advogados, os sindicalistas da praxe e as figuras de topo das magistraturas. Isto sem esquecer o líder de um vago observatório dos assuntos da justiça que, ou ainda chora Hugo Chavez ou está a pregar sobre a globalização na Amazónia andina onde, a ser assim, se deseja que permaneça. Se ontem foi o processo de canonização, estamos desejosos de saber qual a justificação teológica do dia.

Ainda a propósito de coisas que verdadeiramente importam, o Malomil dá-nos conta de mais esta.

Quatro breves notas

by jfc

1. Tudo se reduz afinal a problemas de narratologia e nomeadamente ao problema do ponto de vista do narrador.

2. Clara preferência pelo drama estático, de preferência em solilóquio (ou contracenando com duas araras).

3. Toda a gente sabe que o diabo está nos detalhes. Até o Sartre.

4. Bem se viu a decadência da França actual: o homem veio com a sofisticação de um calhau.

Tony Soprano é formado em medicina?

by offarinha

O bastonário da Ordem dos Médicos afirma que «os médicos não são santos» (ver aqui), o que é uma evidência, e não só para eles. O que se preferia é que não fossem mafiosos de segunda, e que o bastonário da sua Ordem profissional não fosse uma espécie de Tony Soprano da Brandoa.

Quarta-feira de Trevas

by offarinha

Deontologia médica

by offarinha

Dizem que houve uns médicos que andaram a praticar umas vigarices no SNS. Como se sabe, fraude cometida por políticos constitui um escândalo babilónico. Quando a coisa se passa no sector privado, nem é preciso haver fraude – basta haver lucro legítimo para se instalar a gritaria. Neste caso específico, os sindicatos dos médicos desvalorizam a moscambilha e consideram-na «pontual». Se se insistir na denúncia, ainda vamos ouvir falar de «tentativa de destruição do SNS» e teremos, pela enésima vez, de suportar o Pai Arnaut. Não faço ideia (e, provavelmente, tendo em conta o jornalismo praticado, nunca se saberá excactamente) qual a dimensão e relevância da situação relatada. O que, de novo, se evidencia é o papel das corporações que vivem pelos e, sobretudo, dos serviços públicos, na legitimação ou, pelo menos, na menorização das ineficiências e da corrupção manifesta. Perguntas inocentes: porque será? Será que beneficiam disso? E, já agora e porque somos nós que pagamos, que benefícios são esses?

A saga corporativa atingiu o seu apogeu com a intervenção, a este propósito, do bastonário da Ordem dos Médicos. Parece que, ultimamente, é requisito da função ostentar semelhanças notórias com personagens de desenhos animados. O actual assemelha-se a uma ratazana de um cartoon da Disney dos anos 60. E o que diz este alto zelador da deontologia médica? Que a responsabilidade é exclusivamente das administrações hospitalares que pagaram indevidamente. Não se ouviu uma palavra sobre investigação de fraude, condenação de prevaricadores, princípios de responsabilidade e deontologia profissional, mau uso de dinheiros públicos, nada disto. O bastonário limita-se a enunciar o óbvio, sacode a água do capote, o dele e o dos que lhe passaram procuração para estes elevados fins, e espera que se passe, tão rapidamente quanto possível, ao caso seguinte.

Os princípios morais que povoam a cabeça desta gente, invariavelmente impune e sem vergonha, são os mesmos, mutatis mutandis, do Oliveira Costa, do Vale e Azevedo, do Isaltino, do Relvas e do entrevistado de logo à noite.