«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Fevereiro, 2014

O Senhor Coluna

by offarinha

Este ano não está a correr nada bem! Desta vez foi Mário Coluna, o Capitão, quem se foi embora. Lembro-me de meu pai dizer sempre que Eusébio só era quem era e fazia o que fazia por causa de Coluna. Na sua opinião não fazia sentido separá-los. E sempre insistiu teimosamente nisto. A única vez que me cruzei com ele, nos finais dos anos sessenta, ainda um miúdo entre vários grandes benfiquistas, do que me recordo é do respeito quase reverencial com que o tratavam. Os outros eram o Germano, o Eusébio, o Zé Águas, o Cavém, o Zé Augusto, o Simões… Ele era o Senhor Coluna.

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O empreendedorismo – versão Forjaz

by offarinha

Uma amiga falou-me, a propósito já não sei de quê, de uma destas personalidades que ganham súbita notoriedade nos media e nas redes sociais e que, com a mesma rapidez, desaparecem do mapa: um tal Manuel Forjaz. Como o outro com a neve, fui ver. Atenção que vi leve, levemente e tão por alto que algumas das premissas em que assenta este texto se calhar são incorrectas. O tal Manuel Forjaz é um exímio cultivador desse tropos tão moderno – o empreendedorismo! Até aqui nada de novo, muito pelo contrário. A originalidade reside no facto de o apresentar usando a sua condição de canceroso a contas com a morte. Se Forjaz fosse canceroso terminal e usasse a sua doença para cantar a cantiga do desgraçadinho coitadinho que foi bem sucedido na vida, apenas conseguiria ter acesso aos programas televisivos da manhã. Mas, neste caso, há mais sofisticação: embrulha-se tudo naquela religiosidade redonda e delicodoce que o actual Papa protagoniza para regozijo da populaça (não há cá figuras encapuçadas e de gadanha, nem medonhas visões escatológicas, que horror!) e serve-se tudo na linguagem da economia, da gestão empresarial, do marketing e do sucesso. E, como por milagre (ou talvez não), as portas das Business Schools (as tais que estão muito bem colocadas nos rankings e cujos MBAs produzem centenas de gestores prodigiosos que devem ter todos emigrado visto que ninguém ainda conseguiu vislumbrar os resultados da sua sagacidade) abrem-se de par em par para este novo guru.

O que me faz sorrir em todo este caso é a demonstração da extraordinária capacidade de assimilação que o capitalismo manifesta. Na sua grandeza, o capitalismo permite produzir bens úteis para os consumidores, com lucro e por um preço acessível, aumentando o bem-estar do maior número. Nas suas misérias, manipula motivações para obter apenas lucro sem qualquer contrapartida para a felicidade geral e real. O medo de doenças mais ou menos imaginárias (lembram-se das terríveis epidemias de gripes várias, dos milhões de vacinas que foram vendidas e de como tudo não passava, afinal, de coisa nenhuma?); a fome em África, as imagens terríveis de crianças famintas e os negócios fabulosos e a corrupção que esta justificada piedade proporciona; a conversa científica do «aquecimento global» que afinal agora são «alterações climáticas» e os extraordinários negócios por conta das energias alternativas (por favor, confrontar com a factura da electricidade); tudo isto, e muito mais, são exemplos da tal capacidade assimilativa do capitalismo que, nesta sua versão negra, acomoda seja o que for e o torna apetecível. Convém ainda referir o indispensável papel da intervenção do Estado na criação destes «mercados» imaginários. Ou seja, desde que se crie uma narrativa (não é por acaso que o suposto eng. Sócrates tanto aprecia esta palavra) adequada, tudo se pode vender. Para tanto, há quem use imagens apocalípticas, gajas boas, machos poderosos, paisagens paradisíacas – Forjaz usa a miséria da sua própria doença e as intimações da morte para alavancar (mais uma das tais palavras sinistras que esta gente tanto aprecia) o seu negócio.

Em jeito de epistemologia básica da coisa: a jusante temos o lucro ilegítimo; a montante, a criação de uma realidade ficcional que nunca é confrontada com a sujeição a critérios de verificação ou de falsificabilidade baseados na realidade; o discurso ideológico, a propaganda e o marketing são apenas os instrumentos legitimadores de uma situação que, por falta de sustentação nos factos, não passa de uma fraude. Afinal não estamos longe dos pressupostos da teoria da ciência como construção social, tão apreciada e divulgada pelo Prof. Boaventura e pelos seus sequazes. Quem diria, o Prof. Boaventura como ideólogo do crony capitalism e figura tutelar, malgré les deux, de Forjaz?! Com uma diferença. Forjaz, apesar do seu cancro, é divertido e faz-nos rir. O Prof. Boaventura, como se sabe, apenas provoca enormes bocejos.

Fragilidades

by jfc

Não sei bem se o que vou escrever é apenas uma irritação ou se chega a ser um empreendimento. É sobretudo expressão de cansaço. E o cansaço – das magnas questões que mobilizam os jornais e as televisões – aumenta quando o debate desses magnos problemas não só coloca em confronto a habitual e expectável diferença de opiniões e perspectivas, sejam elas mais inteligentes ou mais tontas, mais pérfidas ou mais cândidas, mas arrasta consigo também um penoso lastro de confusões e inanidades. O cansaço torna-se mesmo desalento quando esse lastro põe a nu a fragilidade dos intervenientes, mesmo daqueles que julgamos bons intervenientes, e o nível geral do dito debate.
Exemplos? Como é possível que a actual e acesa discussão sobre os «mirós» leve gente (no Blasfémias, de que sou visitante regular) a meter no mesmo saco a questão técnica, jurídica e política, e observações mais menos jocosas sobre como os «mirós» não se distinguem uns dos outros. Não se pede a ninguém que goste da pintura de Miró (de que eu próprio não sou particular admirador, facto que aqui interessa pouco ou nada), mas o argumento-piada é abaixo da linha de água e revela sobretudo leveza e ignorância alarve.
São assim as insistentes e tristes fragilidades que inquinam os nossos debatezinhos.
O cronista do Expresso, Henrique Raposo, que leio diariamente porque, como costumo dizer, «acerta muitas vezes» (embora por vezes o desembaraço da sua escrita descambe no desleixo), fez há dias uma crónica sobre as reacções típicas a questões como a do alegado abuso sexual de Woody Allen da filha de Mia Farrow. Subscrevo no essencial tudo o que HR diz. Mas, no final da crónica, certamente para evidenciar a separação que deve existir entre o critério estético e o critério moral, diz que não quereria o cineasta nem para amigo nem para babysitter, mas quer continuar a ver os seus filmes. Eu percebo a intenção, mas a frase tem arame farpado: é que, se oportunidade e razões houvesse para isso, eu não enjeitaria ser amigo de Woody Allen. Além disso, embora eu seja um defensor acérrimo da autonomia da obra artística, não estou certo de que a obra cinematográfica de Woody Allen não constitua, afinal, a sua verdadeira biografia. O que HR quereria talvez dizer é que as fraquezas do artista não afectam necessariamente a força das obras que realiza. Mas isso é uma história diferente.
Dir-se-á que me detenho em pormenores. Certo. Mas comportam-se como pedras no sapato que me fazem doer os pés quando ando.

E torresmos, pode vender-se no estrangeiro?

by offarinha

Procuradora-geral da República admite novas acções para travar venda da colecção Miró. Esta senhora preside a uma seita que se tem notabilizado por ocupar os seus vagares sobre que maternidades devem ou não encerrar, onde devem ser construídas estradas, o que fazer a cães que matam crianças, e outros casos relevantíssimos que permitem legitimamente questionarmo-nos acerca da sua concepção da separação de poderes e, sobretudo, acerca do conteúdo das cabecinhas que por lá pontificam. Curiosamente, ou talvez não, esta urgente preocupação com o destino dos Mirós não tem sido proporcionalmente acompanhada com a de deduzir qualquer acusação contra os figurões que congeminaram a sua compra. E já lá vão anos…

A PGR não se dedica ao combate ao crime e à corrupção. Entretem-se, e entretem a populaça, com umas vagas acusações pífias e inconsequentes que raramente chegam a resultados consistentes com o alarido inicial. Agora, de braço dado com os camaradas socialistas, o que já vem sendo habitual, dedica-se a definir o que é património nacional. Aqui, a urgência que falta noutros assuntos, é imensa! Mas convém, por questões de coerência, não ficar pela superfície. A dra. Vidal deve começar a constituir uma lista para evitar qualquer futuro deveaneio de alienação. Propomos que comece pelos torresmos.

Os Miró prá barragem

by offarinha

Ainda assoberbados pela questão das praxes, somos confrontados com a igualmente terrível questão dos Miró. É caso para dizer que o cidadão português não tem descanso! Começo por declarar a particular irritação que me causa a obra de Miró. Não a consigo desligar de um infantilismo condescendente, nem de um primitivismo artificiosamente espertalhaço. Modernismo pateta, portanto, e para consumo de filisteus. Dito isto:

1) É espantoso como alguns tiques e personagens da governação socialista se perpetuam mesmo depois de todas as hecatombes.

2) Propomos que, caso os Mirós por cá permaneçam, sejam incluídos nesse prodigoso museu de Foz Côa, junto com as célebres gravuras que já atrairam milhões de visitantes. O número passará, decerto e segundo estudos independentes que serão encomendados, a biliões.

3) Que as curadoras do empreendimento sejam as esforçadas Canavilhas & Medeiros.

4) Que seja reconhecida a Barreto Xavier a sua verdadeira vocação e o contratem como guarda-rios. E, claro, lhe atribuam a farda e o boné correspondentes.