«…e, armado de um fueiro que descravou de um carro, partiu muitas cabeças e rematou o trágico espectáculo pela farsa de quebrar todos os cântaros». Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição

Month: Setembro, 2013

Notas autárquicas

by offarinha

1)  Os partidos: Olhando para os resultados disponíveis, o PSD (e a direita no seu conjunto) perde mas, atendendo  aos 31,5% obtidos nas actuais circunstâncias económicas, os gigantescos disparates políticos e alguns dos indescritíveis candidatos propostos, não perde por cabazada. O PS ganha mas, com os seus 36%, as suas câmaras mantidas (sobretudo Lisboa) e ganhas, as que perdeu e as que esperava ganhar e não ganhou, não dá nenhuma cabazada. O CDS ganha à tangente. O PC, esse é o único a ganhar com consistência. O BE perde por falta de comparência.

2) As figuras patéticas: O comentador Seara (sempre tão efusivo e ontem tão bisonho); o inacreditável vice-presidente Pedro Pinto (que humilhação, por pouco o PC não lhe passava à frente…); o kalimero Menezes (quando é que ele vai chorar desta vez?); o ex-agente Moita Flores ( tão telegénico, ontem não se lhe ouviu um pio); o Jardim da Madeira (com os dias contados); aquele Pizarro do Porto (mas quem é que capaz de ouvir este tipo sem se rir?); o camaleónico Basílo (ainda se lembram da sua elegância na campanha presidencial contra Soares?) que, ouvi eu hoje de manhã, «quer abrir Sintra ao mundo» (aguardamos ansiosamente o que o Mundo tem a dizer acerca desta desafiante proposta); o ambientalista Moreira da Silva (as escolhas que patrocinou foram tão judiciosas quanto as provas irrefutáveis do aquecimento global); e o vitorioso para-si-mesmo Semedo e a sua partenaire tão ausente quanto Moita Flores. Jerónimo de Sousa, esse pareceu que perdera de novo, mantendo inalterado o discurso que deve ter ido buscar aos arquivos de Cunhal (isto é que é consistência ideológica!).

3) As figuras sinistras: Azeredo Lopes (aquele senhor que presidiu à ERC durante os governos Sócrates e que tantos fretes lhe fez) atrás do independentíssimo Rui Moreira; o sr. Albino ( o tipo das Associações de Pais, o mais estrénuo defensor de Maria de Lurdes Rodrigues) ao lado do Presidente de Gaia; o pato bravo Manuel Salgado, sempre sempre ao lado (e atrás e em cima e na diagonal) de Costa; e o presidiário Isaltino, verdadeiro Presidente da Câmara mais letrada e rica do país.

4) As figuras desconhecidas: Quando as televisões passaram para os festejos da candidatura do novo (e antigo) Presidente da Câmara de Matosinhos, a populaça gritava «A-de-li-no! A-de-li-no!» e, logo de seguida, o autarca vencedor discorreu longamente acerca da sua alegria por ver eleita a «Dra. Palmira».

5) Os figurões: Os manos Costa, o da Câmara (ainda e até ver) e o da SIC/Expresso/Visão a trabalharem como uma verdadeira família (comovente!); Fernando Medina que, na sombra, procura chegar à Presidência seguindo os preceitos da ética republicana e socialista já testados por Jorge Sampaio e por Soares Filho; Rui Rio que, interrogamo-nos, será desta que se chega à frente?; e Paulo Portas, criador de um novo conceito em Ciência Política, o da clandestinidade eleitoral selectiva: fala-se efusivamente de umas Câmaras com a dimensão de freguesias em que se ganha, de outra -grande- em que se concorre a reboque, e ignoram-se as demais hecatombes.

6) A cintura da capital:  O capo mafioso de Oeiras a gerir em nome do Padrinho; o tal que quer abrir Sintra ao país e ao Mundo (já imaginaram como é que vai ficar o trânsito no IC 19?); e o novo Senhor de Loures, adepto fervoroso e confesso das maravilhas da democracia norte-coreana. Tranquilizante, não?

7) O protesto visto pela imprensa: A excitação da comunicação social em torno das candidaturas independentes sem se interrogar acerca da medida e das motivações de tais independências, representa a nova moda que veio substituir, entre os «Palma Cavalões» de serviço, os anteriores entusiasmos à volta do BE. As redacções arranjaram um brinquedo novo, o que já fora percebido pelo Pastor Louçã e que ontem Semedo reconheceu, com ar de queixinhas impotente, na brutalidade das suas consequências (a partenaire, sempre muito pespineta, emudeceu!). A ver vamos como serão analisados os 47,5% de abstenção+3% de votos nulos+3,9% de votos brancos, o que perfaz cerca de 54,5% do eleitorado (dados disponíveis no momento em que escrevo). No caso dos votos brancos e nulos (os números para as Assembleias Municipais são particularmente impressionantes), estamos a falar de mais de três centenas de milhar de eventuais «protestantes». Quantos votos é que teve o BE?

8) Um país muito moderno: Dezasseis horas depois do encerramento das urnas ainda não estão disponíveis resultados definitivos, ao que dizem por causa de problemas de comunicação. Pelas quatro da manhã parece que foi tudo descansar, que o país é muito grande e a coisa deve ser feita à base de transmissão por pombos correios. O que terá a CNE a dizer sobre este assunto?

Apostila: O tipo do cartaz abaixo não só ganhou com maioria absoluta, como reforçou a votação. Quando se trata de assuntos sérios, a malta não brinca…

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And the winner is…

by offarinha

O fueiro, como é sabido, cultiva a seriedade em todos os assuntos de que se ocupa. No caso da política e, em particular, destas eleições autárquicas, optou pela mais escrupulosa sisudez. Por isso, escolheu como melhor instrumento da campanha que agora termina o cartaz acima reproduzido. Isto porque não pactuamos com a farsa, nem com o grotesco, nem com a mentira, nem com o mau gosto que por aqui e por ali foram aparecendo. Eis as razões da escolha. Em primeiro lugar, pelo aspecto grave e austero do candidato, à Alexandre Herculano. Depois, pela utilidade e minimalismo da proposta em tempos de crise: não promete mais rotundas, circulares exteriores, espaços culturais ou pavilhões gimnodesportivos… Finalmente, pelo seu carácter visionário: percebe-se que o candidato antecipa as necessidades do futuro com a lucidez de um profeta bíblico.

Dito isto, ocorrem duas dúvidas. A primeira, apenas o nosso Joaquim a poderá elucidar: não será a proposta inconstitucional em virtude do direito à imortalidade decerto constitucionalmente assegurado a todos os cidadãos? A segunda é de natureza particular: será que não estaremos a cometer uma grave ilegalidade ao não darmos igual relevo a todos os flyers, mupis, hinos de campanha, aventais, boletins autárquicos, esferográficas e quinquilharia avulsa usados em todas as freguesias e concelhos de Portugal?

As variedades de Camilo

by offarinha

Camilo Castelo Branco é também uma personagem de si mesmo. O excelente livro publicado há coisa de um ano – Camilo Íntimo. Cartas inéditas de Camilo Castelo Branco ao Visconde de Ouguela – devidamente tratado aqui, sugere isso mesmo. Aliás, tal como toda a vasta e bastamente conhecida correspondência epistolar camiliana. Camilo revela-se neste estilo mimético aos interlocutores com quem se carteia no pitoresco dramático do seu quotidiano; nas suas queixas de enfermo real e imaginário; nas reflexões, num registo entre o sarcástico e o desiludido, acerca das pessoas e das situações com que convive; na sua vida profissional de escravo das letras; nos lances mais ou menos dolorosos, mais ou menos burlescos, da sua vida privada. Mas fica muitas vezes no ar a sugestão de se estar a dirigir, além do destinatário directo, também e sobretudo a nós, os leitores da sua obra. Ou seja, as cartas de Camilo são uma variedade de novela em que o autor se encena cuidadosamente como personagem. Não creio que se trate, pelo menos por deliberação sistemática, tal como acontece e aconteceu inúmeras vezes, de um procedimento conscientemente manipulatório tendo em vista a posteridade. Vejo-o mais como um vício de romancista, como o reflexo da sua «organização» (como se dizia ao tempo) estruturalmente romanesca, de uma necessidade que se lhe impõe (ou que foi impondo a si mesmo, a tal ponto que dela já não se consegue libertar) como uma espécie de destino existencial de natureza literária.

E se isto é notório na correspondência epistolar, ainda o é mais evidente, et pour cause, na metamorfose romanesca dos lances da sua vida privada, ou em que participou, ou de que teve conhecimento directo ou indirecto. O recalcamento falsificado dos fastos da infância e, sobretudo, da sua maternidade; a dramatização romanesca – e ultra-romântica – do sinistro episódio da inumação da Maria do Adro (que, ao que parece e a ter ocorrido, com a no mínimo improvável participação do seu cunhado médico, altera o verdadeiro nome do cadáver); o casamento, tema sempre evitado, com Maria Joaquina Pereira e, em contraponto, a forma digna e pública como sempre procurou acautelar o futuro da filha de ambos após a morte da mãe; a fuga «à Eurico» com Patrícia Emília e subsequente passageira prisão a antecipar a outra célebre, a do «caso Ana Plácido» das Memórias do Cárcere; a participação equívoca na Maria da Fonte e nas forças de Mac Donnell; os conjecturais estudos de Medicina e os ainda mais suspeitos de Teologia; a eventual infâmia da sua participação no ménage à trois entre si próprio, José Augusto Pinto de Magalhães e Fanny Owen, a cena das cartas e a solicitação equívoca ao médico que confirmasse a virgindade da donzela morta, a transfiguração apologética do episódio (e sobretudo da sua participação) em Um Homem de Brios e a auto-justificação pouco credível apresentada em No Bom Jesus do Monte; a ingratidão dissimulada com José Cardoso Vieira de Castro, que o idolatrava, e em relação a quem, aquando do seu crime e depois dele, manifestou evidentes ambiguidades; e, sobretudo, em tudo o que respeita a Ana Plácido: a paixão devastadora, os ciúmes mais ou menos justificados, a gestão do affaire Ferreira Quiques, a equívoca paternidade de Manuel Pinheiro Alves, assunto tratado com uma fleuma improvável e uma generosidade comovente até à morte deste, a administração das grandezas e, sobretudo, das misérias do quotidiano em Seide, onde avultam as figuras tristes de uma Ana Plácido envelhecida e dos dois filhos tresloucados. Tudo isto, e muito muito mais, serviu de material romanesco, umas vezes apenas a título de registo e de recriação, e outras, no que constitui uma das marcas da originalidade do seu génio, em que a narrativa foi antecipada no próprio decurso da realidade intencionalmente manipulada, como se Camilo se servisse dessa realidade em que participava como um laboratório que testava, antecipava e estabelecia a configuração da meta-realidade do romance a compor.

É precisamente este recorte romanesco do seu perfil de personagem auto-construída que atraiu o olhar de outros autores. Não tanto como uma forma biográfica de hermenêutica da obra (o que também acontece), ou de uma biografia escrupulosamente construída de acordo com as regras historiográficas, mas como personagem de romance, com o motivo extra da excitação dos seus enigmas a desvendar ou a esclarecer segundo as tipologias adoptadas, bem como o das deturpações deliberadas a denunciar triunfalmente.

Aquilino Ribeiro, no seu monumental Romance de Camilo, procura defender-se do manifesto e proclamado fascínio literário através de uma redução da vida e da obra à planura do ressentimento social dos Brocas e de uma psicanálise superficial. Não compreende o soberbo ludíbrio em que cai, por acção das insinuações lançadas por Camilo bem como do dramatismo expresso numa auto-ironia à Woody Allen, e que julga decifrar e denunciar na estreiteza e limitação da sua «organização» jacobina e positivista. Que Camilo não foi um escritor de ideias, como muito bem apontou João Bigotte Chorão, tal não significa que o único dos seus méritos seja o domínio da língua que usou como poucos. Reduzi-lo a isto, se é já muito, permite deixar escapar muita coisa. Vasco Pulido Valente, em Glória, biografia de Vieira de Castro e no que a Camilo diz respeito, nem a isto chega. Procurando afastar da sua interpretação o tropos romântico da época e ignorando deliberadamente o literário, substitui o positivismo e o jacobinismo de Aquilino pelos tiques académicos do tweed de Cambridge, temperados pelo sabor do malte escocês. Mas como é que o anacronismo deliberado e blasé no género biográfico é condição de rigor histórico?

Teixeira de Pascoaes, em O Penitente, segue por caminhos diferentes, de resto os usados em todas as suas biografias. O excesso estrutural camiliano é, neste caso, entalado em arquétipos de um dualismo metafísico, ou de natureza platónica (Matéria/Espírito), ou nitzscheana (apolíneo-romântica/dionisíaco-sexual); ou então numa psicologia dos limites da culpa e do castigo à Dostoievski; ou ainda numa teologia kierkegaardiana da angústia e da salvação. Porém, todas estas categorias são mediadas por uma concepção de cristianismo pauliniano, na muito particular interpretação que Pascoaes dele estabelece. A questão central do Pecado ilumina a culpa, o remorso, a dor e o sofrimento, transfigurando o arrependimento, o martírio e a penitência numa força que «actua no íntimo das almas, purificando-as». Encontramos, assim, um Camilo muito próximo de Dostoievski ou de Kierkegaard nos seus planos salvíficos; da concepção nitzscheana, no facto dele próprio e as suas personagens assumirem que os enigmas não se decifram mas apenas se descrevem e exploram, e o sarcasmo, a sátira e a imprecação serem formas da epifania de um resgate; quanto à dialéctica platónica, a ascensão é, como já vimos, apenas a da realidade à super-realidade arquetípica do literário.

Agustina Bessa-Luís (como já alguém considerou, com graça sábia, uma combinação de Camilo com Musil), aborda romanescamente em Fanny Owen, o caso Fanny Owen-Pinto de Magalhães-Camilo. É a própria autora que declara que usou «a colagem, e quase todas as suas falas são as autênticas, que ele escreveu, em novelas, nos dispersos e nas folhas em que anotava os seus pensamentos». De notar que, pelos vistos deliberadamente, não usou o conteúdo de cartas, o que é muito significativo. Mas, mais significativo, é o ter optado por escrever um romance com Camilo em que é o próprio a escrever parte do guião e dos diálogos. É Agustina quem melhor percebe (ou a única que percebe) a realidade de Camilo como personagem e o que isto implica. Diz Pascoaes: «Só conheceu Cervantes o D. Quixote. Só Hamlet poderia falar de Shakespeare. Quem entendeu Camilo não foi a Ana Plácido de carne ou a Fanny Owen de luar: foi a heroína do Amor de Perdição e a Maria Moisés, com um filho ao colo, rompendo pelo Tâmega dentro, impelida pela loucura do desespero…». Ou ainda: «Camilo é um solteiro absoluto, como todos os fala-sós e vagabundos de índole suicida e delirante, mais íntimos da morte que da vida. (…) É um solitário irredutível, não por ódio aos seus semelhantes, mas por amor aos seus personagens, de tal modo estes vivem, diante dele, à espera de entrar em cena». Agustina trata Camilo e o episódio de acordo com esta perspectiva, sem constrangimentos ideológicos ou culturais ou filosóficos, e sem outras pretensões que não sejam a de apresentar o Autor como ele sempre pretendeu – como personagem. O resto fá-lo a benefício do seu (dela) estilo, da sua idiossincrasia e das suas fantasias caprichosas. O que Camilo, decerto, não deixaria de aplaudir.

Camilo não é um escritor de ideias. Também, como Junqueiro lastimava com a candura de um simples, a sua obra é despida de árvores. O seu universo é o das pessoas, o da tragédia humana que as submete e o da língua que maneja como poucos. «Basta ver como Camilo usava a língua portuguesa para ficarmos informados sobre a sua vontade de poder, de conquistar a atenção, a fama e a alma da Praça. Isso acontece com o espírito que é ávido porque é extremamente sobrecarregado de talentos. Aconteceu com Shakespeare, por exemplo. A maneira como dispõe as frases, como escolhe e arremessa as palavras tem muito duma estratégia guerreira. Utiliza o alfabeto como balas e os versos como trincheiras. Julieta fala um tom acima da sua estatura feminina; Hamlet fala para a posteridade e não para a sua pequena corte de intrigantes. Camilo, quando mobiliza as paixões dos Brocas, sabe que aquilo não é real, é apenas uma ofensiva contra a mediocridade e a satisfação do meio termo» (Agustina). As freiras e os abades, os brasileiros, os literatos frustres, os criminosos, as meninas e as senhoras «com a atroz mantilha e os bandós chatos como iscas de fígado», os comerciantes «que respiravam forte pelo nariz», os morgados boçais e degenerados, os populares de todos os géneros e estaturas, são medidos pelo horror à «férrea marca burguesa» deixada pelo Marquês de Pombal: «A paz de espírito foi assegurada pelo uso de regras de vida minuciosas e severas. A gente honesta, amante do meio termo, proliferou, fez bons negócios e a insipidez que o cálculo protege passou a ignorar a ambição no seu alto sentido» (Agustina). E toda esta vasta galeria, sendo universal pela tragédia em que participa, não se desenraíza da origem e do húmus que a constitui como individualidade. É o próprio Pascoaes, um pouco extravagantemente à sua proposta, quem o reconhece: «O escritor, tão grande no dramatizar das cenas e figuras, único, talvez, não subordinava a acção a um ideal filosófico ou religioso, isto é, humano. Os seus personagens não saem do seu desenho particular, ou minhoto ou transmontano ou portuense. Não saem da sua freguesia para a vastidão do Universo. É nas frases soltas, espontaneamente lançadas no papel, que temos de descobrir o que a sua emoção contém de capacidade intelectual, ou de pensamento transformável em pensamento interpretativo da Existência. É dessas frases que surge o seu verdadeiro personagem ou ele mesmo. Eis o que o afasta de Dostoievski. Se compararmos os dois escritores a duas lágrimas que a Humanidade chorou sobre si mesma, Dostoievski é uma lágrima acesa, água e luz; e Camilo uma lágrima só água.» A tensão dialéctica entre o individual localmente enraizado e o universal, nunca Camilo a resolve com recurso a um cosmopolitismo supostamente civilizado, definitiva e artificialmente provinciano quando comparado com a Heimat que a sustenta e lhe fornece a substância existencial. O Chiado camiliano tanto pode ser os altos da Teixeira como as guerras da Patuleia, os cafés e os teatros do Porto como a Samardã, o Monte de Córdova como uma prosaica aldeia minhota ou transmontana, o Parlamento como um episódio da guerra civil dos dois irmãos… Em jeito de parêntesis, sempre se dirá que o único escritor contemporâneo capaz de semelhante cometimento é um queirosiano, publicamente confesso, J. Rentes de Carvalho.

Imaginamos Camilo finalmente exausto das suas polémicas, das suas mágoas e das suas dores, das suas paixões e das suas lágrimas, das consequências do dramatismo intenso da sua vida pessoal, da sua vaidade e do seu ressentimento, dos seus implacáveis sarcasmos – « (…) o rasgado humor de Camilo estava na razão inversa da sua felicidade. Procurava-a nos momentos mais penosos da vida, e sempre demonstrava aquela ironia malévola que era uma espécie de escape diante da contrariedade que não podia dominar. Ele não era homem para vencer o destino, mas também não ficava parado, tinha a ideia, muito funda no seu inconsciente, de que a blasfémia impede que as situações más se repitam» (Agustina)». Imaginamo-lo como a Bruxa do Monte de Córdova, alguém em quem há «uma grande paixão ou um grande crime. Não se chama ela a Penitente? Aí está… Remorsos fazem maravilhas de virtude. O que mais singular vejo nesta criatura é ignorarem todos donde ela veio!…» Mas persiste entre os fantasmas que o perseguem, e ele próprio, o mais fantasmático de todos: «Vou ao jazigo das minhas ilusões, exumo os esqueletos, visto-os de truões, de príncipes, de desembargadores, de meninas poéticas, à semelhança das que eu vi quando a poesia era o aroma dos seus altares. Visto-me também eu das cores prismáticas dos vinte anos, aperto a alma com as garras da saudade até que ela chore abraçada ao que foi. E depois, nesse festim de mortos, conversamos todos; e eu, no alto do silêncio da noite, escrevo as nossas palestras.» Quando disparou o tiro fatal a 1 de Junho de 1890, continuamos a imaginar que pensava pôr finalmente termo a todo este guignol. Só que o vício que foi inculcando nos seus leitores implica que o trágico episódio de São Miguel de Seide possa ser lido (literal e metaforicamente) como mais um lance de um folhetim eternamente inacabado. É o que acontece a quem, parafraseando René Char, entende que a literatura «parle des gouffres, pas seulement des chaises».

Os acordãos do TC e a língua portuguesa

by offarinha

Meu caro Joaquim

Sei que é inútil pedir-te que atendas à realidade, que sejas capaz de compreender o mundo em que vives para além dos estreitos limites dos teus interesses, da tua organização intelectual e, bem entendido, do conjunto de cretinices constantes na Constituição… Mas, pelo menos, não poderias promover uns cursos de redacção para que os acordãos que o teu tribunal produz pudessem ser lidos sem fastio, repugnância hermenêutica ou simples perplexidade pelo cidadão medianamente letrado? Se calhar não percebes o português claro deste impetrante. Ou será que preferes não perceber? Ver aqui.

O bravo comandante em chefe

by offarinha

O mundo pode dormir descansado: Obama deixou de fumar com “medo” de Michelle.

A gente ri-se, mas é aterrador

by jfc

ou aterradora se nos referirmos à dita actualidade.

Sem outros comentários aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

 

 

 

A médica e o monstro, ambas felizmente parece que aposentadas

by offarinha

Esta entrevista oscila entre o simplesmente imbecil e o repugnante. Isto, em espelho, quer da parte de quem pergunta quer de quem responde. A nossa imprensa, habitualmente sobreexcitada com tudo o que tenha a ver com espírito revolucionário, ignora ou desvaloriza sistematicamente os mortos e mutilados pelas bombas colocadas pelas Brigadas Revolucionárias, com quem a entrevistada assumida e activamente colaborou. A ligeireza e a falsidade com que é abordada a dor arbitrariamente inflingida é sempre aterradora. Quando é um médico que está directamente envolvido ainda causa maior incómodo, mesmo se estamos hoje familiarizados com as práticas «clínicas» nos regimes nazi e comunista.

Se avançarmos para além da impunidade com que o crime é tratado, em jeito de brincadeira (de muito mau gosto, particularmente na entrevista em apreço), ou de jogo de computador sem consequências, ou de desenho animado legitimado não importa por que ideologia, encontramos algumas pérolas. Diz a feroz revolucionária anti-capitalista e estrénua defensora do SNS em exclusividade de funções que sempre teve consultório privado:

«A exclusividade profissional no SNS é necessária?
Nunca trabalhei em exclusividade, mas defendo-o. Os médicos de consulta, se estiverem em exclusividade, dão mais rendimento, estão mais tranquilos, mais disponíveis. É a minha experiência como directora de serviço. As pessoas com exclusividade não estão ali com aquela preocupação de ter de sair. Lembro-me de um colega do Porto que também tinha consultório e que dizia que ainda lhe dava algum ataque cardíaco num semáforo.
Sempre acumulou público e privado?
Sim. Ultimamente fazia 35 horas no Estado e três dias por semana, com o trabalho particular chegava às 12 horas de trabalho por dia.
Para quê?
A certa altura, é um caminho irreversível.»

Se a justificação final é de um conformismo que não julgávamos possível em revolucionária de tal gabarito, a sua extravagente acomodação ao capitalismo fica clara no seguinte excerto, de resto particularmente confuso e contraditório (como a cabecinha que o produziu):

« Voltava à luta armada?
Só não voltava porque, para já, não me apetecia ir para a cadeia (risos). Neste momento, francamente, não me apetecia. Além disso, numa perspectiva prática, não sei se acções de força seriam eficazes do ponto de vista da alteração da situação. Mas tenho dúvidas. A situação é demasiado global, não é só nacional. O poder partidário-financeiro tem poucos rostos e não está localizado. A época do imperialismo americano passou a imperialismo mundial-financeiro e o reflexo que isso tem depois na política europeia e regionais faz disto uma estrutura demasiado ampla para colocar bombas.
Vivermos em democracia não é um argumento?
Isto não é bem uma democracia… Claro que prefiro esta democracia à situação em que vivíamos. As pessoas que não viveram em ditadura não sabem como era. Eventualmente, o argumento das bombas, em democracia, é diferente. Se começassem a estralejar bombas, medo ao poder fazia de certeza. Que, para além disso, as coisas se alterassem, tenho as minhas dúvidas. Além disso, poderia gerar uma resposta de força.»

A entrevista é elucidativa a vários níveis de leitura. Em primeiro lugar ficamos a conhecer a indigência intelectual e moral dos directores de serviços (como a criatura defende o status quo ante, repararam?) dos hospitais do SNS. Ficamos depois a saber que para esta gente deste tipo de esquerda o problema das bombas não está nas bombas ou na legitimidade do seu uso, mas apenas na eficácia que elas possam ter. Convicção a conferir num dia destes em que o mundo ainda se tornar mais confuso, altura em que esperamos ansiosamente nova entrevista num mano a mano com o sr. Otelo Saraiva de Carvalho. Finalmente, a persistência de mitos e mentiras alimentados ao longo de décadas pelos próprios (que incapacidade manifestam em mudar, S. Guevara e S. Lenine!) e pela imprensa.

Congratulamo-nos pela saída desta luminária, pela possibilidade – ainda que limitada – de podermos hoje evitar este tipo de gente nos hospitais e resta-nos desejar-lhe o descanso e o recato que merece. Assim os meios de comunicação o permitam a ela e, sobretudo, a nós.

Contributo para a primavera árabe

by offarinha

Um Amigo fez-nos chegar este pequeno vídeo. Independentemente de qualquer juízo de valor acerca do orador e do mérito da sua argumentação, dedicamo-lo a todos aqueles que entoaram loas entusiasmadas às primaveras «democráticas» árabes e que, de momento, assobiam para o lado face às directivas do governo tunisino, à trapalhada egípcia, ao caos líbio e à estranha noção de liberdade repetidamente manifestada pelo governo turco. Isto para já não falar da Síria…
Não resistimos a manifestar a nossa preferência absoluta pela protagonista que é apenas mencionada: a filha do tipo da Irmandade Muçulmana. Ah, é verdade! O discurso é de 1953.

Os direitos constitucionais (só) do funcionário público

by offarinha

A imprensa tem feito manchetes arrepiantes com o facto de os funcionários públicos em regime de mobilidade poderem perder até 60% do seu salário. O assombroso, porém, é que alguém que não está a fazer nada possa receber os 40% remanescentes até se reformar. E até, caso consiga arranjar outro emprego, acumular os dois vencimentos!

Outra das manchetes, esta recorrente por esta altura do ano, diz respeito à iniquidade de 30.000 professores não terem sido colocados pela prosaica razão de não terem ocupação (estes, ao invés e porque não são verdadeiros funcionários públicos, são tratados como os comuns mortais no desemprego, e até desvantajosamente). Já não mencionam as centenas de profesores que estão colocados sem terem uma única turma para leccionar, ou os milhares no topo da carreira que dão dez horas de aulas semanais (o resto do tempo é ocupado com inutilidades várias), ou outros milhares que têm uma ou duas turmas e ocupam os restantes vagares em vacuidades como bibliotecas, projectos tão vagos como absurdos e outras inanidades avulsas. Toda esta gente é constitucionalmente remunerada no fim do mês.

Não há por aí, entre quem trabalha no sector privado, entre desempregados, bem como entre os que, tendo ficado desempregados se tivessem virado para poder viver, um grupo a quem apeteça cantar a Grândola?

Mais ambição, dr. Seguro, senão não vai lá!

by offarinha

Oiço, num noticiário radiofónico, o impagável Tó-Zé Seguro a berrar que não quer apenas defender os pobres deste país – a sua ambição é acabar com a pobreza! Ah, valente! Mesmo sabendo-se que a criatura evita prometer aquilo que não pode cumprir e detesta a demagogia, não deixa este desígnio de parecer modesto para a dimensão de quem o anuncia. Então, dr. Seguro, não queremos acabar com a doença? Ou com o vento excessivamente frio? Ou com as moscas varejeiras, sempre tão incomodativas? E não diz nada acerca da eliminação dos maus cheiros? E cala-se acerca dos terramotos? E a morte, limita-se a pretender apenas atrasá-la como se faz com os tratamentos para a calvície? Em contrapartida, já compreendemos o seu silêncio acerca da erradicação da estupidez.