O empreendedorismo – versão Forjaz

by offarinha

Uma amiga falou-me, a propósito já não sei de quê, de uma destas personalidades que ganham súbita notoriedade nos media e nas redes sociais e que, com a mesma rapidez, desaparecem do mapa: um tal Manuel Forjaz. Como o outro com a neve, fui ver. Atenção que vi leve, levemente e tão por alto que algumas das premissas em que assenta este texto se calhar são incorrectas. O tal Manuel Forjaz é um exímio cultivador desse tropos tão moderno – o empreendedorismo! Até aqui nada de novo, muito pelo contrário. A originalidade reside no facto de o apresentar usando a sua condição de canceroso a contas com a morte. Se Forjaz fosse canceroso terminal e usasse a sua doença para cantar a cantiga do desgraçadinho coitadinho que foi bem sucedido na vida, apenas conseguiria ter acesso aos programas televisivos da manhã. Mas, neste caso, há mais sofisticação: embrulha-se tudo naquela religiosidade redonda e delicodoce que o actual Papa protagoniza para regozijo da populaça (não há cá figuras encapuçadas e de gadanha, nem medonhas visões escatológicas, que horror!) e serve-se tudo na linguagem da economia, da gestão empresarial, do marketing e do sucesso. E, como por milagre (ou talvez não), as portas das Business Schools (as tais que estão muito bem colocadas nos rankings e cujos MBAs produzem centenas de gestores prodigiosos que devem ter todos emigrado visto que ninguém ainda conseguiu vislumbrar os resultados da sua sagacidade) abrem-se de par em par para este novo guru.

O que me faz sorrir em todo este caso é a demonstração da extraordinária capacidade de assimilação que o capitalismo manifesta. Na sua grandeza, o capitalismo permite produzir bens úteis para os consumidores, com lucro e por um preço acessível, aumentando o bem-estar do maior número. Nas suas misérias, manipula motivações para obter apenas lucro sem qualquer contrapartida para a felicidade geral e real. O medo de doenças mais ou menos imaginárias (lembram-se das terríveis epidemias de gripes várias, dos milhões de vacinas que foram vendidas e de como tudo não passava, afinal, de coisa nenhuma?); a fome em África, as imagens terríveis de crianças famintas e os negócios fabulosos e a corrupção que esta justificada piedade proporciona; a conversa científica do «aquecimento global» que afinal agora são «alterações climáticas» e os extraordinários negócios por conta das energias alternativas (por favor, confrontar com a factura da electricidade); tudo isto, e muito mais, são exemplos da tal capacidade assimilativa do capitalismo que, nesta sua versão negra, acomoda seja o que for e o torna apetecível. Convém ainda referir o indispensável papel da intervenção do Estado na criação destes «mercados» imaginários. Ou seja, desde que se crie uma narrativa (não é por acaso que o suposto eng. Sócrates tanto aprecia esta palavra) adequada, tudo se pode vender. Para tanto, há quem use imagens apocalípticas, gajas boas, machos poderosos, paisagens paradisíacas – Forjaz usa a miséria da sua própria doença e as intimações da morte para alavancar (mais uma das tais palavras sinistras que esta gente tanto aprecia) o seu negócio.

Em jeito de epistemologia básica da coisa: a jusante temos o lucro ilegítimo; a montante, a criação de uma realidade ficcional que nunca é confrontada com a sujeição a critérios de verificação ou de falsificabilidade baseados na realidade; o discurso ideológico, a propaganda e o marketing são apenas os instrumentos legitimadores de uma situação que, por falta de sustentação nos factos, não passa de uma fraude. Afinal não estamos longe dos pressupostos da teoria da ciência como construção social, tão apreciada e divulgada pelo Prof. Boaventura e pelos seus sequazes. Quem diria, o Prof. Boaventura como ideólogo do crony capitalism e figura tutelar, malgré les deux, de Forjaz?! Com uma diferença. Forjaz, apesar do seu cancro, é divertido e faz-nos rir. O Prof. Boaventura, como se sabe, apenas provoca enormes bocejos.

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