A culpa é do árbitro

by jfc

Deixem-me ver se percebo: um país em que polícias manifestantes, alguns deles usando máscara, barram a entrada do parlamento desse mesmo país, defendido por outros polícias que o governo chamou (todo o corpo de intervenção, segundo os jornais – somos mesmo pequenitos, não somos?) para o defender do assalto dos agentes da lei e da ordem.
Um e outro lado jogam ao empurra, e a coisa, relatada com entusiasmo e em directo pelas televisões e jornais, assume mesmo contornos de jogo (subiram 3 degraus, desceram 2, estão a fazer pressão, a pressão abrandou) e no fim vêm dizer os jornais que a coisa acabou com um empate técnico.
Mas como isto foi um combate combinado, o empate era o resultado esperado: não houve surpresas no campeonato e a culpa foi do árbitro. Qualquer excesso ou ameaça – vistos, ouvidos ou sentidos -, não foram mais do que a expressão da justa indignação dos agentes.
E se subissem os degraus todos e entrassem no parlamento – partiriam tudo? Fariam reféns? Fechar-se-iam lá dentro, exigindo a demissão do ministro e do governo ou que fossem atendidas todas as suas reivindicações, e esperariam que um negociador da polícia, de megafone como nos filmes americanos, tentasse que saíssem, prometendo que não lhes aconteceria nada? Mas não subiram e, dizem, não subiram porque não quiseram.
Se somos um país de exageros é só na retórica.