Fragilidades

by jfc

Não sei bem se o que vou escrever é apenas uma irritação ou se chega a ser um empreendimento. É sobretudo expressão de cansaço. E o cansaço – das magnas questões que mobilizam os jornais e as televisões – aumenta quando o debate desses magnos problemas não só coloca em confronto a habitual e expectável diferença de opiniões e perspectivas, sejam elas mais inteligentes ou mais tontas, mais pérfidas ou mais cândidas, mas arrasta consigo também um penoso lastro de confusões e inanidades. O cansaço torna-se mesmo desalento quando esse lastro põe a nu a fragilidade dos intervenientes, mesmo daqueles que julgamos bons intervenientes, e o nível geral do dito debate.
Exemplos? Como é possível que a actual e acesa discussão sobre os «mirós» leve gente (no Blasfémias, de que sou visitante regular) a meter no mesmo saco a questão técnica, jurídica e política, e observações mais menos jocosas sobre como os «mirós» não se distinguem uns dos outros. Não se pede a ninguém que goste da pintura de Miró (de que eu próprio não sou particular admirador, facto que aqui interessa pouco ou nada), mas o argumento-piada é abaixo da linha de água e revela sobretudo leveza e ignorância alarve.
São assim as insistentes e tristes fragilidades que inquinam os nossos debatezinhos.
O cronista do Expresso, Henrique Raposo, que leio diariamente porque, como costumo dizer, «acerta muitas vezes» (embora por vezes o desembaraço da sua escrita descambe no desleixo), fez há dias uma crónica sobre as reacções típicas a questões como a do alegado abuso sexual de Woody Allen da filha de Mia Farrow. Subscrevo no essencial tudo o que HR diz. Mas, no final da crónica, certamente para evidenciar a separação que deve existir entre o critério estético e o critério moral, diz que não quereria o cineasta nem para amigo nem para babysitter, mas quer continuar a ver os seus filmes. Eu percebo a intenção, mas a frase tem arame farpado: é que, se oportunidade e razões houvesse para isso, eu não enjeitaria ser amigo de Woody Allen. Além disso, embora eu seja um defensor acérrimo da autonomia da obra artística, não estou certo de que a obra cinematográfica de Woody Allen não constitua, afinal, a sua verdadeira biografia. O que HR quereria talvez dizer é que as fraquezas do artista não afectam necessariamente a força das obras que realiza. Mas isso é uma história diferente.
Dir-se-á que me detenho em pormenores. Certo. Mas comportam-se como pedras no sapato que me fazem doer os pés quando ando.

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