As praxes e o gado caprino

by offarinha

Não há órgão de comunicação social que não opine sobre praxes, suportado na vozearia e nos disparates de psicólogos, sociólogos, juristas, politólogos, jornalistas, astrólogos, quirólogos e demais cientistas do oculto. Tudo isto durará até que saltem para o borrego que matou uma velhinha, ou para o infante que mordeu na ama, ou para a família cigana discriminada depois de infernizar a vizinhança, ou para o assalto perpetrado por um desempregado (ai, a crise e as suas sequelas!), ou para o afogamento de um peixe, ou para a pedra que caiu no pé de uma lésbica, ou para outra coisa qualquer de inexcedível importância que dê azo a muitas lágrimas e comoção e manifestações diversas de sensibilidadezinhas à flor da pele.

O que arrepia em tudo isto é, num primeiro nível e para além da já habitual questão da «culpa», sempre presente nos comentadores de serviço: i) a absoluta imbecilidade da gente que é responsável por instituições que é suposto ministrarem instrução de nível superior; ii) a boçalidade dos alunos universitários, os tais da geração mais preparada de sempre, quer os que aceitam e justificam as javardices a que são sujeitos, quer os que, pelas mesmas razões, defendem e impõem essas mesmas javardices; iii) a repugnante parvoíce dos pequenos fanáticos que aproveitam qualquer ocasião para tentarem estender as suas proibições e regulamentações politicamente correctas, e tão do agrado da imprensa, para além do clima, do tabaco, das touradas, da caça, da alimentação e sabe-se lá de mais o quê.

Num segundo nível, mais sério, onde é que se fala de autonomia e responsabilidade individuais? E onde é que se refere o primado da lei? Não bastaria centrar a questão nestes dois pontos? Povo de escravos conformistas, sempre receptivo a amouxar e a seguir o caminho da carneirada, apetece citar a Écloga Lusitana de Jorge de Sena: «Cabra// cabrada// cabrões.»

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