O Belo e o Bom

by offarinha

Já aqui várias vezes vituperei o enviezamento com que são tratados os assuntos nos nossos meios de comunicação social ditos de referência, bem como a selectividade no tratamento dos temas e a repugnante desonestidade com que são apresentados (endeusando-os ou ridicularizando-os com fundamentos pífios) os protagonistas. O Público segue a óptica da mini-esquerda aparvalhada, das professorinhas e das causas fracturantes. O Expresso fia mais fino: são, não as causas mas os interesses, ou do engenheiro Pinto da TAP, ou do dr. Mexia da EDP, ou do dr. Salgado do BES, tudo isto apresentado sob a capa do interesse nacional, das energias renováveis e do aquecimento global (?). Quer no caso tardo-adolescente da D. Bárbara, quer no trendy-super moderno do diligente mano Costa, a coisa é sempre adornada com pseudo-argumentos de uma suposta snobeira pacóvia que determina que Cavaco não sabe estar comme il faut, que a ex-ministra Pires de Lima não é in, ou que Passos Coelho e Gaspar são fanáticos; pelo contrário, o actual ministro Pires de Lima é de uma argúcia superior, Portas um génio político, Soares um profeta a quem devemos praticamente tudo e Sócrates alguém a quem devemos ter respeito. Todos os representantes das corporações, sem excepção, são reverenciados.

Vem isto a propósito da TSU de Vítor Gaspar, lembram-se? Toda a gente a desancou, que era um disparate infame, uma ignomínia… Os poucos que a defenderam ou apresentaram argumentos a seu favor foram ridicularizados e lançados na geena, o tal sítio onde há choro e ranger de dentes. Quem assumiu a dianteira inquisitorial foi o jornal Expresso, sob a batuta do mencionado mano Costa e do inenarrável Nicolau. Na altura, Henrique Monteiro, ex-director e actual vamos-lá-fazer-de-conta-que-sou-desalinhado-para-dar-um-ar-pluralista-a-esta-merda foi parte entusiástica do coro. Imagine-se que teve hoje o desplante de publicar este artigo como se nada fosse com ele. Vê-se que o homem mudou de opinião e vê hoje méritos onde ontem não via. A questão não é, porém, essa. O homem mudou de opinião porque a medida é hoje apresentada por um socialista e ainda por cima estrangeiro e ainda por cima francês. O que determina o belo e o bom (o kalós kai agathós tão referido pelos antigos gregos) não é o que os define em si e por si mesmos: é a qualidade que atribuimos, por razões arbitrárias e/ou de conveniência, a quem os enuncia. Não há melhor medida para a desonestidade intelectual. E o que diria o nosso Joaquim se as medidas entretanto declaradas inconstitucionais tivessem sido apresentadas por aqueles que esta gente considera ser boa e bela? Repugnante!

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