Eusébio no Panteão?

by offarinha

Quando, no nosso país, alguma coisa vem a lume, raramente vem sozinha. A ela surgem associadas muitas outras, por ela suscitadas e que remetem, invariavelmente, para a superficialidade da forma como tratamos o nosso presente, para a ligeireza com que lidamos com o nosso passado e para a irresponsabilidade com que projectamos o nosso futuro. Triste Pátria e miserável Estado! Que imagem bisonha e patética cultivamos de nós próprios e permitimos que os nossos representantes legitimem e perpetuem! Já viram quem marca presença no Panteão? E, sobretudo, quem lá não tem presença, sequer em cenotáfio?

Parece evidente que a panteonização decorre: ou de uma legitimação institucional que o povo exige espontaneamente para aqueles que ama e com quem se identifica, movimento que o poder, a reboque, adopta de forma interesseira (casos de Amália e, agora, de Eusébio); ou de uma efectiva popularidade que, por razões circunstanciais, o poder aproveita e a que dá balanço (casos de Guerra Junqueiro e de Sidónio Paes); ou por motivos simbólicos (Humberto Delgado); ou porque uma elite de um determinado momento impõe sem outra razão que não seja ideológica ou de seita (Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, Óscar Carmona, João de Deus ou Aquilino Ribeiro). O único que parece corresponder a uma efectiva importância nacional (de Nação com passado, presente e futuro numa perspectiva à Burke) é Garrett.

Alguém pensa, nesta pobre terra, o que significa estar no Panteão, o sítio onde se evocam, comemoram e recordam todos os «deuses» da Pátria? Então os nossos deuses-escritores são o patriarca do kitsch literário – Junqueiro, e o autor da Cartilha Maternal (que muito estimo, até porque foi nela que aprendi a ler)? Não há outros, numa terra supostamente literata, nem mais significativos? Aquilino (outro que tanto aprecio por razões literárias e como cultivador exímio da língua portuguesa) não está lá como escritor: na verdade, as razões da sua presença são de outra natureza e não se recomendam especialmente. Teófilo (leiam o que Camilo diz da criatura), Manuel de Arriaga e até o patético Carmona!? Não se trata de simpatia pessoal: objectivamente, apenas Garrett, Amália, Delgado (como símbolo) e, agora, Eusébio, têm dimensão panteonizável. Como, sobretudo, os outros que lá não estão. Da literatura (temos um Prémio Nobel, caso se tenham esquecido e independentemente de qualquer outro juízo, já para não falar de Camões, Vieira, Camilo, Eça e Pessoa), das artes (Vieira da Silva, não?) e da ciência (Egas Moniz, outro Prémio Nobel). E, se em política o que conta é a influência nacional, trasladem para lá o Salazar e o Cunhal.

Eu, admirador confesso e hiperbólico de Eusébio, duvido que o seu lugar seja no meio de tal gente. Aliás, proponho um movimento para retirar daquela tumba, sinistra e mediocremente frequentada, Garrett e Amália. Quanto a Eusébio, gostaria que o seu lugar de descanso final fosse junto ao Estádio da Luz, então definitivamente convertido em A Catedral.

Em Santa Engrácia poder-se-iam arranjar umas acomodações para o culto e sofisticado Mário Soares, que seria assim o primeiro a dar entrada no Panteão ainda em vida, correspondendo desta forma à sua incomensurável prosápia. E, para dar um ar mais moderno, em registo multimédia, apenas a voz e a empáfia de Manuel Alegre. Arranjavam-se uns aventais e assim ficava tudo em família.

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