A morte dos mitos

by jfc

Alardeando a habitual imbecilidade jornalística dos canais de televisão, um deles subordinava, ontem, a reportagem sobre o funeral de Eusébio ao título «A morte de um mito». Um mito é um determinado momento, acontecimento ou figura fixado pela memória colectiva e engrandecido pelo tempo. Neste sentido, o mito não morre, a não ser que deixe de produzir sentido na vida da comunidade em que nasceu, quando deixar de ser «o nada que é tudo». Mas podemos usar a palavra «mito» apenas com o significado de «ficção» ou «ilusão». Nesse caso, a morte do mito equivale à denúncia do seu carácter mentiroso ou ilusório, é um desmascaramento. Não sei qual das duas acepções estava na cabeça de quem fez aquele título, tudo indica que nenhuma delas, foi provavelmente apenas um caso de falta de cabeça.
Ouvi entretanto as declarações de Mário Soares sobre Eusébio. E dei por mim a pensar que elas, sim, são um bom exemplo da morte de um mito, um caso de figura fixada pela memória, mas que, com o tempo, se tem progressivamente apoucado e reduzido à sua natureza de ilusão. Ou talvez se cumpra apenas a máxima de Marco Aurélio segundo a qual cada um se transforma naquilo que é.

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