A verdade espectral

by jfc

argullol

O texto que a seguir se transcreve, em tradução e com a devida vénia à editora catalã Acantilado, corresponde ao décimo e último ponto do ensaio «Ráfagas sobre un siglo», contido no livro Maldita perfección. Escritos sobre el sacrifício y la celebración de la belleza (Barcelona, 2013), de Rafael Argullol. O livro – editorialmente impecável, como sempre – é um dos mais estimulantes livros de reflexão que tenho lido nos últimos tempos e o autor um dos mais interessantes no panorama europeu actual (veja-se o extraordinário Visión desde el fondo del mar).

A verdade espectral

Não sabemos se foi Prometeu ou Mefistófeles quem vestiu o traje de prestidigitador, mas o certo é que, encantados pela sua magia – pela «nossa magia» -, nos esquecemos da importância de o averiguar. Não buscamos a verdade: aceitamo-la.
E a verdade que aceitamos implica uma modificação profunda das ideias humanas de verdade até agora concebidas. É uma verdade funcional, imediata, tecnicamente construída sobre a marcha, estreitamente vinculada aos mecanismos de produção de actualidade.
É uma verdade espectral, fria, que nos compromete pouco, mas que aparentemente também não nos condena. É a verdade dos titãs da informação, dos exércitos da publicidade total. Frente a ela, a verdade ardente, secreta, difícil, complexa, que exige conhecimento e exige liberdade, parece viver obrigatoriamente a contracorrente.
Mas se tratamos de averiguar os signos de uma época, se procuramos projectar a Imago Mundi desse século [XX] que era nosso é porque, apesar de tudo, queremos saber, na medida do possível, onde nos encontramos. E não por razões teóricas, académicas; não com o ânimo do taxidermista sobre a pele do tempo, mas para continuar a viagem e manter o desejo de conhecer.
O conhecimento é a nossa principal fonte de erro, mas também a nossa justificação suprema.

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