A irmã, de Sándor Márai – II

by jfc

Volto ao tema, apesar de concordar em absoluto com tudo o que está dito no texto abaixo.
Comecei a ler Márai, por indicação do meu amigo OFF, ainda este autor não estava publicado em português. Antes de As Velas Ardem Até ao Fim (que é, aliás, o título mais próximo do original) ter sido publicado, ele leu, creio, a versão francesa (Les Braises), enquanto eu li a versão inglesa (Embers). Era o momento de descoberta de um autor que até no seu próprio país era relativamente desconhecido, dada a interdição terrível que se abateu sobre ele e a sua obra.

Depois disso, continuei a ler, com admiração crescente, outras obras de Sándor Márai, sempre em inglês ou francês, antecipando-me às traduções portuguesas que entretanto começaram a surgir, ou até os seus diários, que provavelmente nunca serão traduzidos, dadas as circunstâncias da actividade editorial em Portugal. A irmã foi o primeiro livro de Márai que li em versão portuguesa. E ao lê-lo, em menos de 48 horas, tomei consciência de que tinha passado muito tempo desde que lera um livro em português.

Por razões profissionais, nuns casos, pelo facto de me interessar por autores que (ainda) não estão traduzidos (caso do catalão Rafael Argullol, que vivamente recomendo), noutros casos, certo é que tenho lido muito em espanhol, francês e inglês e relativamente pouco em português.

A irmã é mais um livro extraordinário de Márai, que oferece muitas reflexões e suscita outras tantas. Mas não é disso que quero falar. Do que agora quero falar é do desconforto com que li a edição (LEYA/ Dom Quixote) deste livro.

Não que o livro tenha erros tão graves que impeçam a leitura ou quebrem a fluidez da escrita original. Nada disso. Não hesitarei em recomendar a leitura do livro, apesar da edição descuidada agora apresentada ao público. A escrita de Márai sobrepõe-se aos erros marginais de que o livro enferma. O que não me impede de afirmar que é um edição cheia de infelicidades.

É nos detalhes (esses lugares ínfimos onde, como é sabido, o diabo se esconde) que a enfermidade se revela. Ela não obsta à leitura, mas incomoda. A mim, incomoda-me imenso. Outros leitores, nem se aperceberão de muitos desses detalhes. Não me refiro à tradução, que foi aliás sujeita a uma revisão literária claramente insuficiente. E não falo apenas das muitas «gralhas» (do sonho que se transforma em sono, por exemplo). Falo da falta de cuidado da revisão, da falta de gosto (quantas vezes se «percecionam» coisas a torto e a direito, ou se fala em formulação adolescente de uma«linguagem tipo código Morse»), do desacerto de sinais convencionais, de tempos verbais, de pontuação). Márai merecia melhor.

Vivemos na época do tanto faz. Por isso, para certas pessoas algumas das falhas que aponto serão descartáveis. Mas desconfio que para essas um livro como A irmã não tem muito interesse. E que dificilmente perceberão as palavras do pianista e compositor que é o narrador da segunda parte do livro:

«A sala aplaudia e a crítica elogiava-me. Mas tudo isso era um engano. Porque eu era a única pessoa a saber quanto devia ainda aos pormenores, não tinha usado ainda forças suficientes, disciplina e sacrifício para os alcançar… apenas eu sabia isso. Não há caminho mais desesperado do que aquele que nos leva à perfeição; a cada passo se abrem novas distâncias inescrutáveis. Ficamos horrorizados perante essas perspectivas, mas sabemos que não podemos recuar, nem descansar, caso contrário cai-se no abismo».

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