A Irmã, de Sándor Márai

by offarinha

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A Irmã, de Sándor Márai, publicado pela D. Quixote, é um livro que pode ser entendido de acordo com a lógica do espelho. Ou da resolução da dicotomia daquilo que se apresenta em paralelismo improvável. Publicado na Hungria em 1946 (último livro antes do exílio voluntário e da total proibição da obra do autor na sua Pátria) e escrito durante a 2ª guerra (a acção decorre entre o seu início e o terceiro Natal desde o início da conflagração), a primeira parte da obra (mais curta) espelha a segunda, ou vice-versa, contribuindo ambas para a sua mútua compreensão. O segundo paralelismo decorre da comparação entre a dilaceração individual e o seu correlativo histórico, apresentado sem que tal resulte irritantemente óbvio. Tudo neste livro é, aliás, resultado da sofisticação discreta de uma luz que cega.

A intenção do autor neste livro, tal como na generalidade da sua obra, é a elucidação do mistério do ser (no sentido verbal e substantivo) humano, com a atenção e o cuidado, o pudor e a discrição, a inteligência acutilantemente reveladora e a reserva de uma enorme sensibilidade, a reflexão solidamente intelectual que não se concebe despregada da paixão, a religiosidade distante da mistela chilra que hoje (mesmo nas mais altas esferas) é tomada como tal, o intelecto humildemente agudo capaz de discernir o que ocupa silenciosamente os interstícios da alma, e a distância suficientemente exacta para abarcar o que define o humano na sua essência (eu sei que tudo isto é hoje démodé, mas é precisamente o que torna o livro fascinante para quem saiba partilhar os seus pressupostos). Humanismo, portanto, no seu mais alto grau, apenas reconhecido num tempo e num lugar únicos – a mitteleurope de entre guerras – de Zweig, Musil, T. Mann, Shnitzler, Broch, Canetti e Freud.

De comparar, ainda, com as reflexões de Alfred Brendel sobre a música e o pianismo ( a personagem principal é um pianista), bem como com o que o Prof. João Lobo Antunes afirma acerca da indispensabilidade da leitura de A Morte de Ivan Ilitch de Tolstoi para qualquer profissional de saúde que se preze (o decurso da obra corresponde ao decurso de uma doença e respectivo tratamento).

Mas o fio condutor é a indestrutível ligação corpo/alma, orgânico/espiritual, mentira/doença, tratar/curar, bem como as correlações, explícita arte/existência, e implícita história/indivíduo. Ou seja, a Vida, nas suas misérias, mistérios, surpresas, epifanias e esplendores.

Apostila: este texto foi escrito na ressaca da leitura, propositadamente sem distância, da obra em apreço.

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