Mouraz no limite da indignação

by offarinha

Somos informados que o chefe do Sindicato dos Juízes está no limite da indignação. Repare-se que os juízes não estão ainda indignados – estão no limite, na fronteira, quase pisam essa linha ténue que, uma vez ultrapassada, os levará decerto a vestir as becas do avesso, a rasgarem as páginas dos códigos, uns a dançarem tap dance sobre as secretárias enquanto outros marcam o ritmo com os martelinhos da função. O juíz Mouraz diz querer, singelamente, ser apenas reconhecido como orgão de soberania. Dito assim, parece um amuo de criança despeitada ou de puta ressentida pela falta de reconhecimento do estatuto e da função. Convenhamos, porém, que isto de se ter um sindicato não é muito compatível (para sermos simpáticos, não vá o juíz Mouraz ultrapassar o tal limite) com função de soberania. Mas o meretíssimo Mouraz diz mais: “Os juízes estão no limite da indignação. O que pedem é que seja reconhecido pela Assembleia da República e o Governo que nós somos um órgão de soberania com pessoas que trabalham em exclusividade de funções, que vivem apenas e só do seu rendimento salarial e que têm que ter um estatuto protegido”. Mas quantos é que não trabalhamos em exclusividade de funções? Mas quantos é que não vivemos apenas e só do nosso rendimento salarial? Parece, afinal, que os mourazes querem ser uma espécie de linces da Malcata ou de cabras do Gerês – uma espécie protegida. Não é bem isso, elucida-nos o prodigioso jurista: “protegido não é serem diferentes ou excepcionais em relação aos outros cidadãos, é terem um estatuto jurídico e remuneratório que lhes permita, com total dignidade, desempenharam as funções de soberania”. Ah, já percebemos tudo! Podias ser mais directo e menos ridiculamente pomposo, oh Mouraz – trata-se de estatuto remuneratório, do vil metal, de carcanhóis, do belo!

É claro que, ao falar-se de juízes, era impensável não vir à baila o Tribunal do nosso Joaquim. E Mouraz fica de novo no limite da indignação com as pressões inadmissíveis que são feitas sobre a fina porcelana que se aloja no Palácio Ratton. Os mourazes podem pressionar (ameaçar? chantagear?) o Governo e a Assembleia, podem decidir sobre o fechos de maternidades, sobre a legitimidade de se ir trabalhar bêbado, sobre a entrega de crianças a pedófilos, sobre a sobrevivência de um país, podem demorar eternidades a decidir mas, sacrilégio!, quem deles divergir publicamente é um terrorista da separação de poderes. Os mourazes, é sabido, têm uma concepção profissional de casta e a organização mental de índios pré-colombianos. Vêem-se a si mesmos como sacerdotes ungidos na sua particular relação com o divino, hierofanias que se manifestam em acordãos e cujo sacrossanto Sumo Sacerdote, o Super Ungido de Mouraz e de todos os mourazes, é o nosso Joaquim! Por falar em separação de poderes, que espectáculo mais lamentável e, simultaneamente, mais esclarecedor se poderia imaginar, depois das tortuosas e mais que suspeitas justificações processuais, que a vassalagem prestada por Noronha do Nascimento e por Pinto Monteiro ao filósofo parisiense? Mas estas coisas, está bem de ver, não ocupam as preocupações dos mourazes…

Parece que os mourazes do Ministério Público também estão indignados e vão fazer greve. Ninguém, como é óbvio e para além dos jornalistas, dará por isso. O facto é que, se perguntarmos a qualquer cidadão, o pior que lhe pode suceder é ser, por qualquer motivo, obrigado a cruzar os seus caminhos com esta gente. Demoras incompreensíveis, arrogância de arrivista, imprevisibilidade absoluta, falta de tino, de preparação, de maturidade, de gravitas… Deus nos livre! Diz ainda Mouraz: «É tempo de dizer basta e é tempo de olhar para a justiça com os olhos que a justiça merece». Quanto ao basta!, estamos de acordo. Mas quando é que a justiça olha para a sociedade sem ser com o olhar do cafre?

A propósito: o que é que os mourazes e os joaquins têm a dizer acerca disto?

Anúncios