Leitura dominical – a crónica de um fracasso

by offarinha

Recomendo vivamente a leitura desta coisa que, ao que julgo, pretende ser levada à conta de uma reportagem. Que o autor, Paulo Moura, queira manifestar exuberantemente ternuras cupidíneas pelo Sr. Arménio e pela sua gente, é lá com ele e com a D. Bárbara. Agora, com franqueza, podia fazê-lo de outra forma. Em primeiro lugar, com maior subtileza. Repare-se na epígrafe da coisa: «Em Alcântara, tudo parecia conspirar contra a manifestação. O tempo, o local, os constrangimentos dos autocarros a desfilar na ponte. Talvez por isso, poucos jovens compareceram.» Irra, isto não é a melancolia que sobrevém à evidência do fracasso – é só parvoíce! Depois, sendo menos ridículo. Paulo Moura cultiva o estilo do realismo socialista adocicado pelos tiques da literatura light (como se sabe, tal combinação nem sequer é original e foi sempre muito usada pelo dito realismo socialista. O que tem mudado é apenas a literatura light e os respectivos tiques). Quem é que, sem padecer de algum tipo de agnosia ou não sendo analfabeto, consegue ler o último parágrafo sem se rir? «As pessoas batiam nos vidros dos autocarros, como se estivessem presas e quisessem sair. Batiam nos vidros como se estivessem em jaulas. Um homem colou um cartaz à vidraça: “Governo para a rua”. Bandeiras saíam pelas janelas, mas não se viam as mãos que as seguravam. Nalguns autocarros pareciam ir todos calados, semblantes sisudos, pensativos. Noutros, claramente, havia festa. Tudo de pé, a dançar. Noutros ainda distinguiam-se boinas e T-shirts com Che Guevara, bandeiras com a foice e o martelo, megafones, cartazes e faixas. Cada autocarro era uma pequena manifestação solitária e muda. “25 de Abril sempre”, lia-se nos lábios de uma mulher.»

Mas não nos enganemos. Este tipo de coisas faz as delícias da gente semi-letrada (a da tal geração mais bem preparada de sempre) que as leva muito a sério e garante a pés juntos tratar-se de jornalismo literário. Quem não acreditar, que vá ver os compêndios de Português que por aí abundam e os textos escolhidos pelas professorinhas da disciplina nas suas actividades.

Anúncios