A médica e o monstro, ambas felizmente parece que aposentadas

by offarinha

Esta entrevista oscila entre o simplesmente imbecil e o repugnante. Isto, em espelho, quer da parte de quem pergunta quer de quem responde. A nossa imprensa, habitualmente sobreexcitada com tudo o que tenha a ver com espírito revolucionário, ignora ou desvaloriza sistematicamente os mortos e mutilados pelas bombas colocadas pelas Brigadas Revolucionárias, com quem a entrevistada assumida e activamente colaborou. A ligeireza e a falsidade com que é abordada a dor arbitrariamente inflingida é sempre aterradora. Quando é um médico que está directamente envolvido ainda causa maior incómodo, mesmo se estamos hoje familiarizados com as práticas «clínicas» nos regimes nazi e comunista.

Se avançarmos para além da impunidade com que o crime é tratado, em jeito de brincadeira (de muito mau gosto, particularmente na entrevista em apreço), ou de jogo de computador sem consequências, ou de desenho animado legitimado não importa por que ideologia, encontramos algumas pérolas. Diz a feroz revolucionária anti-capitalista e estrénua defensora do SNS em exclusividade de funções que sempre teve consultório privado:

«A exclusividade profissional no SNS é necessária?
Nunca trabalhei em exclusividade, mas defendo-o. Os médicos de consulta, se estiverem em exclusividade, dão mais rendimento, estão mais tranquilos, mais disponíveis. É a minha experiência como directora de serviço. As pessoas com exclusividade não estão ali com aquela preocupação de ter de sair. Lembro-me de um colega do Porto que também tinha consultório e que dizia que ainda lhe dava algum ataque cardíaco num semáforo.
Sempre acumulou público e privado?
Sim. Ultimamente fazia 35 horas no Estado e três dias por semana, com o trabalho particular chegava às 12 horas de trabalho por dia.
Para quê?
A certa altura, é um caminho irreversível.»

Se a justificação final é de um conformismo que não julgávamos possível em revolucionária de tal gabarito, a sua extravagente acomodação ao capitalismo fica clara no seguinte excerto, de resto particularmente confuso e contraditório (como a cabecinha que o produziu):

« Voltava à luta armada?
Só não voltava porque, para já, não me apetecia ir para a cadeia (risos). Neste momento, francamente, não me apetecia. Além disso, numa perspectiva prática, não sei se acções de força seriam eficazes do ponto de vista da alteração da situação. Mas tenho dúvidas. A situação é demasiado global, não é só nacional. O poder partidário-financeiro tem poucos rostos e não está localizado. A época do imperialismo americano passou a imperialismo mundial-financeiro e o reflexo que isso tem depois na política europeia e regionais faz disto uma estrutura demasiado ampla para colocar bombas.
Vivermos em democracia não é um argumento?
Isto não é bem uma democracia… Claro que prefiro esta democracia à situação em que vivíamos. As pessoas que não viveram em ditadura não sabem como era. Eventualmente, o argumento das bombas, em democracia, é diferente. Se começassem a estralejar bombas, medo ao poder fazia de certeza. Que, para além disso, as coisas se alterassem, tenho as minhas dúvidas. Além disso, poderia gerar uma resposta de força.»

A entrevista é elucidativa a vários níveis de leitura. Em primeiro lugar ficamos a conhecer a indigência intelectual e moral dos directores de serviços (como a criatura defende o status quo ante, repararam?) dos hospitais do SNS. Ficamos depois a saber que para esta gente deste tipo de esquerda o problema das bombas não está nas bombas ou na legitimidade do seu uso, mas apenas na eficácia que elas possam ter. Convicção a conferir num dia destes em que o mundo ainda se tornar mais confuso, altura em que esperamos ansiosamente nova entrevista num mano a mano com o sr. Otelo Saraiva de Carvalho. Finalmente, a persistência de mitos e mentiras alimentados ao longo de décadas pelos próprios (que incapacidade manifestam em mudar, S. Guevara e S. Lenine!) e pela imprensa.

Congratulamo-nos pela saída desta luminária, pela possibilidade – ainda que limitada – de podermos hoje evitar este tipo de gente nos hospitais e resta-nos desejar-lhe o descanso e o recato que merece. Assim os meios de comunicação o permitam a ela e, sobretudo, a nós.

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