Quanto é que vale uma mija?

by offarinha

Em jeito de rentrée, partilhamos com os estimados leitores este himalaia criativo que mão tão amiga quanto atenta e generosa nos fez chegar. Todo o vídeo é de um imarcescível bom gosto, mas a metade final consegue ultrapassar o auge da sua própria proporção! Informamos ainda que os geniais criativos que conceberam, produziram e realizaram o portento são Ana Borralho e João Galante que, tendo criado na progressiva cidade de Lagos a Associação Cultural Casa Branca, recebem da Secretaria de Estado da Cultura/ DGArtes, a título da apoio, a quantia anual de 75.640.94 €, ou seja 6.303.41 € por mês, ou seja 3.150.70 € mensais para cada um dos prodigiosos artistas. Face a este ordenado e ao uso que dele é feito, imaginamos as reacções de alguns leitores apanhados ao acaso:

Reacção 1, de um leitor empedernidamente liberal: «Então os impostos de que o Estado me espolia todos os meses são para aplicar nisto? E é nisto que estão a pensar quando falam na reforma do Estado e nos cortes na despesa e mais não sei o quê?»
Reacção 2, de um leitor socializante e que acha que o apoio estatal às artes é indispensável, mas atribuído criteriosamente, embora ele não saiba definir muito bem o que isto possa ser: «Então numa época de crise, com tantos cortes que afectam tão violentamente o tecido cultural, será prioritário apoiar este tipo de coisas em vez de outras com qualidade e repercussão infinitamente superiores, sei lá, género Cornucópia ou o Rui Horta?»
Reacção 3, de um improvável leitor bloquista, antropólogo no desemprego, membro de várias comissões de luta que cantam o Grândola e discípulo fiel do Prof. Boaventura: «Muito bom! A verba é notoriamente escassa, o que configura claramente uma tentativa de censurar a justa denúncia do fascismo neo-liberal, da ditadura dos mercados financeiros e da globalização capitalista! Quando é que dão dinheiro aos artistas para eles itinerarem por todo o país e mesmo pelo universo?»
Reacção 4, do Joaquim do Tribunal Constitucional, a fazer dele e de mais meia dúzia de juízes em férias: «Oh, meus amigos, nem pensem em diminuir ou aumentar a verba atribuída, ou em interferir no modo como ela usada, ou em coisíssima nenhuma!!! Nem vale a pena citar as dezenas de normas que demonstram que mudar seja o que for neste caso, como em quase todos, é atentatório de igualdade e da equidade e do socialismo e da reforma agrária e da política de blocos e sabe-se lá de mais o quê! E não venham com conversas que nós não somos pressionáveis!»

Aos artistas envolvidos, e aos respectivos familiares e amigos, o Fueiro endereça os melhores cumprimentos e votos de sucesso. Aguardamos ansiosamente os próximos trabalhos exploratórios destes materiais escatológicos, por exemplo, o pus, o ranho, o muco, o escarro… Mas no que vai a nossa maior impaciência é sobre o momento, único e definitivo, em que os artistas abordem finalmente a matéria que corresponde à sua natural essência – a merda.

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