As virgens experimentadas

by offarinha

Eu não percebo mais de economia do que um cidadão medianamente informado, o que é manifestamente muito pouco para opinar sobre o assunto para lá do detestável achismo. E de swaps, acho que nunca tinha ouvido falar antes do lançamento desta nova moda de verão. Mas percebo muito bem que toda esta gente que perora nos media (políticos falhados, comentadores parlapatões, Conselheiros de Estado palradores, jornalistas tão atrevidos quanto ignorantes), com algumas escassíssimas excepções, percebe tanto do assunto quanto eu. Ou ainda menos. Mas sobeja-lhe em prosápia e descaramento o que lhe escasseia em conhecimento, inteligência e, sobretudo, honestidade.

Quando a comunicação social se dedica a um assunto que eu domino, aterroriza-me a superficialidade atrevida, o desconhecimento que chega a ser chocante, o enviezamento da abordagem (intencional ou não, para o caso tanto faz), a distorção simplificadora. E, falando com gente de outras áreas, dizem-me que o fenómeno se reproduz. Aquilo que as redacções dos jornais designam pomposamente por «profissionalismo sério» (e ai de quem ousar torcer o nariz e franzir o sobrolho) não é mais que um deslizar aéreo pelo tema – o que fixam é apenas a espuma do momento e o que nos transmitem, fumo inconsistente. O jornalismo não ajuda a compreender. Impõe simplificações fáceis, segue o que a populaça quer ouvir (ou o que os jornalistas acham que a populaça quer ouvir, ou o que fazem que a populaça queira ouvir) e digere a realidade para a tornar naquilo que os seus quadros mentais (pequeninos, pequeninos…) suportam assimilar. No pior dos casos, manifesta tudo isto mais uma enorme carga de desonestidade.

Passando os olhos pelas televisões e pelos jornais, ouvindo as rádios – e porque felizmente tem havido poucos fogos – temos vindo a ser sistematicamente bombardeados com a história de um senhor que vendia os tais swaps a uns assessores, e que parece que não se lembra de umas reuniões de que depois afinal se lembra, e de uns documentos parece que forjados, e mais não sei o quê. Toda a gente fala disto com a gravidade dos sábios, manifesta opiniões fortes com ar de «parece impossível…» e crucifica com escândalo o desajeitado senhor. E eu pergunto-me: mas então os verdadeiros responsáveis não foram o Ministro das Finanças e o Primeiro Ministro que contrataram os swaps? E ninguém fala deles? Já se esqueceram de quem eram? Anda toda a gente com problemas de memória? E os jornalistas e comentadores, que hoje descortinam incontáveis malfeitorias tóxicas e evidentes prejuízos, por onde andavam na altura em que foram contratados? Estavam distraídos? Não faziam ideia do que se estava a passar? O lembra/não lembra, esteve/não esteve é mais relevante que o fez realmente/não fez realmente e o prejudicou/não prejudicou? E tudo isto é apenas resultado de uma espécie de clima malsão temporário, é simples estupidez ou é, como tudo indica, muito mais que isso?

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