Astrologia em bom, ou seja, de esquerda

by offarinha

No sua versão online o prodigioso diário da D. Bárbara antecipa uma entrevista, a publicar no próximo domingo, com uma senhora que é apresentada como «fundadora do Quíron – Centro Português de Astrologia e uma das principais responsáveis pela credibilização da astrologia em Portugal e pela formação de várias gerações de astrólogos». O próprio artigo se encarrega de promover a auto-proclamada credibilização. A vetusta senhora é apresentada como «mais do que uma astróloga – autora de uma síntese teórica própria do que é a Ciência Esotérica, que resulta da simbiose entre o esoterismo e a explicação do que é considerado mundo do oculto e da doutrina e dos valores do cristianismo, do budismo e do taoismo» (caramba, é uma simbiose, mas em bom!). Autora de uma bibliografia (aqui infelizmente ainda não divulgada, mas ansiosamente aguardada para o fim de semana) que conta de dezenas de livros, as jornalistas asseguram que, não bastando a tal síntese/simbiose arrasadora, é criadora de «um pensamento doutrinário próprio que desafia, interpela e provoca o racionalismo ocidental» (adivinhamos o desconforto, nas respectivas tumbas, de um Platão desafiado, de um Descartes interpelado, de um Kant provocado…). A verdadeira chave para toda esta exaltação é, porém, revelada de seguida. O assombro astrológico nasceu, ao que contam, na aristocracia, mas «viveu a crise académica de 1961 em Lisboa e o Maio de 1968 em Paris» e, sobretudo, regressada de Paris, «abriu com mais dois sócios um bar emblemático na Lisboa de esquerda». Ora aqui estão os verdadeiros astros que encantam as plumitivas e legitimam qualquer disparate!

O Fueiro cumprimenta a senhora astróloga e deseja-lhe todas as felicidades para a continuação das suas sínteses, simbioses, desafios, interpelações e provocações. Informa todavia, e com relativo pesar, que não tenciona ler a prometida entrevista. Em matéria de aldrabices, considera-se satisfeito.

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