Agradecimento a Álvaro Santos Pereira

by jfc

Álvaro Santos Pereira saiu do governo.

Poder-se-ão encontrar motivos da mais diversa espécie. A verdade é que Santos Pereira representava, com Vítor Gaspar, na versão 0.1 deste governo, a independência dos critérios partidários.

Significava isso que Santos Pereira valia pela sua competência, pelo seu voluntarismo e pela sua análise da realidade portuguesa. Não podem ter sido outros os critérios de Passos Coelho ao escolhê-lo.

Faltava-lhe experiência política, disseram os comentadores, confundindo sempre a «política» com os partidos, ou melhor, com a mecânica partidária e mesmo interpartidária.

O seu primeiro erro foi de ordem antropológica. Esperou poder assinalar num só gesto a sua origem extrapartidária, o informalismo de origem anglo-saxónica e uma atitude combativa, demarcando-se da retórica subserviente do «Senhor Ministro».

Foi fatídico: mês após mês, o «Álvaro» foi alvo de chacota, ostensiva ou dissimulada, nos jornais. E, de um só lance, a sua independência deixou de ser saudada, a sua competência foi olhada com desconfiança, as suas decisões postas em causa, e os seus combates ignorados, desvalorizados, e sobretudo menorizados.

Não discuto o facto de Santos Pereira ter possivelmente cometido erros, de ter tido que fazer ajustamentos, de ter tido dificuldades, desarticulações, fracassos, avanços e recuos.

O que me parece é que Álvaro Santos Pereira desempenhou o cargo de ministro com seriedade, com independência, com visão sobre o que era preciso mudar para haver mudança. E o que quero aqui notar é que a sobranceria com que foi sempre tratado pela comunicação social e pelas «elites» partidárias se deveu em grande medida ao facto de ser um independente sem laços políticos, sociais, universitários, tribais, com as «famílias» que contam.

Álvaro Santos Pereira foi remodelado, como a turba dos comentadores reclamava. Agora estamos na versão 0.2 deste governo. E, nela, tudo tende para a normalização. Os corpos estranhos, os que não têm e não compreendem o que é preciso para fazer política e estar no governo foram expurgados.

Agora, sim, estamos (mais) livres de «Álvaros» plebeus e inconvenientes. De técnicos. Os novos governantes são (quase) todos gente conhecida e de bem, gente da «política», gente que não nos deixa ficar mal quando fala na televisão ou come à mesa.

Por mim, agradeço a Álvaro Santos Pereira ter aceitado fazer parte da versão inicial deste governo e de ter aturado isto durante este tempo todo.

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