Mário Soares (uma apostila)

by offarinha

O magnífico texto publicado pelo meu companheiro de blogue merece um complemento em três partes.

1) O carácter politicamente caricatural evidenciado por Mário Soares é-o precisamente por contraponto da inteligência política que manifestou nos inícios do regime. A contenção do assalto ao poder pelos comunistas que protagonizou, a que se juntaram a eliminação das derivas esquerdistas dentro do PS (Manuel Serra, Aires Rodrigues e Carmelinda Pereira), ou a sua absorção (GIS de Sampaio e Ferro Rodrigues), ou a sua minimização (UEDS de Lopes Cardoso), ou o cruel silenciamento e domesticação forçada das divergências internas (Zenha e grupo do ex-Secretariado), corresponderam a um objectivo primordial e plenamente conseguido: colocar o PS no centro do regime, como protagonista sem o qual o poder dificilmente pode ser exercido. A colaboração para este fim do Grupo dos 9 (em particular de Melo Antunes), a cobardia da Direita na adopção da actual arquitectura constitucional, bem como a subserviência da «inteligência» dominante, não sendo dispiciendas, não foram nem são, de facto, mais do que seguidismo em relação ao que Soares originalmente congeminou. Ancorando-se na pretensão de uma pequena e média burguesia em melhorar de vida com e em segurança, na situação actual de dificuldades financeiras, Soares perdeu o rumo e disparata, conluia-se com quem sempre lhe foi estranho e a quem sempre se opôs e refugia-se numa retórica alheia ao temperamento da sua tradicional base de apoio. As tergiversações de Seguro correspondem a quem tenta sobreviver a esta essencial dificuldade mas, sobretudo, aos impasses da esquerda democrática europeia em conciliar tudo aquilo em que tem firmado as suas propostas no pós-guerra e a realidade actual que não consegue assimilar ou, sequer, compreender. Mário Soares é um trágico manifesto desta situação.

2) Mário Soares sempre foi um mestre na construção de imagens, de carreiras e de reputações. A forma como tem sabido manipular a História, nomeadamente a da Monarquia Constitucional, a da 1ª República ou a do Estado Novo, omitindo factos, silenciando ou adulterando outros, enobrecendo ou denegrindo personagens intencionalmente e com ligeireza estudada, tem sido sempre uma das suas principais preocupações. O que revela, se não originalidade, pelo menos argúcia na tentativa de uma legitimação política «suave» e sem os excessos grosseiros por outros cometidos. É claro que para este fim tem contado com cumplicidades várias que sempre soube cultivar e que também constituem parte não dispicienda do seu longo património. Veja-se, a este propósito, o silenciamento (que, nos últimos tempos, felizmente se tem vindo a quebrar) acerca da descolonização e do papel que nela desempenhou. Não se trata de discutir responsabilidades mesquinhas seja de quem for. Trata-se tão só da desonesta aplicação de um critério que evita os factos, a referência à intervenção dos diferentes protagonistas e do papel por eles desempenhado, o enquadramento das decisões, bem como das respectivas consequências. E, sobretudo, a sua discussão, substituída por um juízo de inevitabilidade, obviamente e no mínimo, discutível. O prestígio de Mário Soares foi muito construído em torno deste tipo de procedimentos.

3) Mário Soares, por muito que tente ou encene o estilo, nunca assumirá o papel de sábio. Não por inapetência, mas pela mais singela razão de não ter condições para tal. É um facto que Soares possui uma biblioteca de dimensões consideráveis, que afirma ter lido muito, que aprecia e sempre cultivou o convívio com intelectuais, que publica livros e artigos a esmo. Acontece que nada disto é condição suficiente para se poder ser um sábio. Falta a Soares em consistência teórica o que lhe sobra (ou sobrava, também nisto a idade é cruel) em intuição pragmática. Basta ler as inanidades que dá (e deu) à estampa ou as intervenções que multiplica para isto se tornar perceptível. Soares gere, e sempre geriu, generalidades conceptuais, banalidades teóricas, lugares comuns e frases feitas de um presente a que falta o verdadeiro lastro do passado, bem como a dimensão profética desprovida de vulgaridade. Enquanto esteve de acordo com os ares do tempo, manteve-se à tona e fez figura. Quando não, reduz-se à tal patética e lamentável e penosa caricatura de si mesmo.

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