Mário Soares

by jfc

Mário Soares sobrevive a si próprio. E é triste.
Antes que a natureza ajuste os factos e a beatificação faça o seu caminho, há duas ou três coisas a não esquecer.
Soares teve um papel fundamental na contenção do assalto dos comunistas ao poder em 1975 e foi um elemento preponderante no triunfo de uma democracia «civil» em Portugal. Houve, claro, outras pessoas e outros factores (um deles chamado EUA e o outro chamava-se na época RFA), mas isso não diminui a sua relevância.
Foi aí, nesse período difícil, que o PS construiu a sua reputação e o seu eleitorado mais fiel, uma pequena e média burguesia, rural e urbana, que acima de tudo valorizava a possibilidade de melhorar de vida com e em segurança.
Soares, esse, desenhava a sua «realpolitik» pondo ou tirando o socialismo da gaveta de acordo com as necessidades, imune e ileso. Os amigos sabiam que podiam sempre contar com ele. Os inimigos também. Chamou-se a isso ser um «animal político», para o bem e para o mal. Mas esse era o tempo da Europa amiga e dos amigos na Europa. E foi para lá que Soares naturalmente nos levou, como se fosse simultaneamente a visita, a criada de dentro e o anfitrião.
Ao desplante natural que sempre ostentou, chamaram elegância. Às suas implacáveis impertinências, não me lembro de alguém lhes ter chamado deselegâncias.
Mas, talvez porque cada qual se transforma naquilo que é, foram esses os aspectos que vieram à superfície depois de apeado do poder. É certo que Soares nunca se quis remeter (apenas) ao lugar dourado de Senador. O que, se por uma lado faz ressaltar a imagem do velho combatente, por outro, mostra, ao invés do que hão-de dizer as hagiografias, uma velha inapetência para desempenhar o papel de sábio que ele tanto ambiciona. É pena. Dir-se-á que Soares quer talvez ficar na História como um indisciplinador. Porém, o outro prato da balança tem lastro a mais. Nesse âmbito, ficará apenas o lado anedótico e grotesco. A liberdade, um dia a menina dos seus olhos, passou a ter, na sua boca, um significado incerto. Da figura moral que poderia ser resta apenas a figura mural, uma caricatura.

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