A palhaçada

by jfc

O Ministério Público mandou arquivar o inquérito sobre o facto de Sousa Tavares ter chamado «palhaço» ao Presidente da República, por se enquadrar o epíteto no direito à liberdade de expressão do jornalista, nem ele ser ofensivo da honra da pessoa ou do cargo que ocupa.

Aqui há tempos circulou na «blogosfera» um acórdão de um tribunal militar em que, se não me engano, se absolvia um praça (ou seria um sargento?), não me lembro se da Polícia se da Guarda, por ter chamado «filho-da-puta» a um oficial. A justificação era o contexto (isto é, segundo os juízes é normal os militares dizerem esses mimos uns aos outros). A Senhora Presidente da Assembleia da República também tem dado um importante contributo nesta matéria, definindo duas grandes áreas de desbragamento autorizado: a retórica e o calor parlamentares.

A pragmática linguística em todo o seu esplendor.

E o cidadão comum?

Será que o cidadão comum goza de iguais direitos no que respeita à liberdade de expressão? Será que um qualquer arguido, indignado com a atitude de um qualquer juiz, ao ser interrogado pode dirigir-se a este chamando-lhe «Ilustríssimo palhaço»? Desconfio que isso fosse considerado desrespeito ao tribunal e o que mais se veria. E perante a obstinação autuante de um agente da autoridade será aconselhável chamar-lhe palhaço? Ou filho-da-puta? Não creio, mesmo se no contexto seja habitual que tais expressões passem pela cabeça do comum dos mortais.

Para não se ser apanhado em falso, o melhor seria os tribunais competentes definirem um glossário de termos aceitáveis para a «nossa» liberdade de expressão.

A questão da palhaçada mereceria um esmiuçamento cuidado. Porque faltaria saber se o epíteto se referia a um «palhaço pobre» ou a um «palhaço rico», essa irritante e lamentável personagem espertalhona, degradação de arlequim, que goza com o pateta do palhaço pobre, o faz-tudo. Tudo indica que, forçado a uma especificação, Sousa Tavares tinha em mente um palhaço pobre, pois é esse o «troca-tintas» que faz rir. O que faria de Tavares o palhaço rico. Imaginam: rosto branco, mangas e pernas de balão, chapéu em bico, sotaque ligeiramente espanholado e o permanente sobrolho alçado?

Mas voltemos ao Glossário.

E se Sousa Tavares tivesse chamado totó a Cavaco? Ou fantoche? Ou paspalhão?
E se os deputados chamarem estafermo ao primeiro-ministro?
E se chamarmos frouxo ao juiz, ou ao polícia?
Se lhe chamarmos néscios pode ser que eles não entendam (como aquela personagem de Vergílio Ferreira que tomou como ofensiva a palavra «inócuo» por não saber o que significava).

E se chamarmos inócuo ao meretíssimo? E lapuz? E zanaga?
E sevandija, ou sacripanta?

E se, ao juiz ou ao jornalista, chamarmos «urso», que é um equivalente futebolístico de palhaço?

E se lhes chamarmos cabrões? Ou, como é costume nalguns sítios, nobilitarmos a expressão dizendo «reais cabrões»? É ofensa?

E se chamássemos palhaçada a tudo isto, de que participam impunemente jornalistas labrostes e políticos sécios?

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