Os nossos bons zeladores

by offarinha

As temperaturas atigiram os 40º e logo se reuniram, com providencial excitação, três entidades públicas (Direcção-Geral de Saúde, Instituto de Meteorologia e Proteção Civil) para nos ajudarem, a nós ignaras criaturas desprovidas de consciência e de bom senso, e dizerem o que devemos fazer para o nosso próprio e desconhecido bem. Bem hajam pelo seu zelo! Ouvi há pouco, num telejornal, o Director-Geral da Saúde, com um ar de Rasputine assarapantado, a enunciar as dez infalíveis medidas que recomendam com urgência (esta ideia das 10 medidas terá a ver com um complexo de Moisés no Sinai, mania psiquiátrica que nós patrocinamos com os nossos impostos?). Entre estas originalíssimas e inéditas medidas avultam: «Procurar ambientes frescos ou climatizados mesmo durante a noite»; ou «Aumentar a ingestão de água ou de sumos de fruta natural mesmo durante a noite. Evitar o consumo de bebidas alcoólicas»; ou «Dar atenção especial a grupos mais vulneráveis ao calor – doentes crónicos, idosos, crianças, grávidas e trabalhadores com atividade no exterior»; ou «Utilizar roupa solta, opaca e que cubra a maior parte do corpo, chapéu de abas largas e óculos de sol com proteção ultravioleta. Escolher horas de menor calor para viajar de carro. Não permanecer dentro de viaturas estacionadas e expostas ao sol»; ou, finalmente, «Evitar atividades que exijam grandes esforços físicos, nomeadamente laborais, desportivas e de lazer no exterior».

Tal zelo merece três comentários. O primeiro remete para a impossibilidade ontológica de se fazer uma reforma do Estado – como poderíamos sobreviver, sem danos evidentes, na ausência de semelhante gente? O segundo aponta para a necessidade de manter o saque fiscal – só um inconsciente não pensaria em sustentar, e mesmo aumentar, o número de funcionários que se ocupam com este tipo de coisas. O terceiro são meras sugestões, a saber: quando criar a equipa de fiscais que supervisionem e multem quem se obstine em não procurar ambientes frescos ou climatizados mesmo durante a noite, ou se recuse a aumentar a ingestão de água ou de sumos naturais? E que tipo de punição se deve aplicar a quem não dê atenção especial aos grupos mais vulneráveis ao calor? E que dizer quanto aos censores do atavio constituído pelas roupas soltas, género burka, do chapéu e dos óculos de sol regimentais? E de que está à espera a GNR e a ASAE para aplicar coimas a quem se atrever a escolher horas de calor para viajar, para permanecer teimosamente a torrar dentro das viaturas estacionadas e a servir imperiais acima dos 35º? E, finalmente, ao Sr. Carlos e àquele Sr. da UGT, parecido com um homem-morsa e de que todos ignoram o nome, um desafio: na próxima reunião da concertação social, proibição absoluta de esforços físicos laborais no exterior em regime de canícula!

Eu, por mim, relapsamente refractário e antes que este governo liberal se alambaze ainda mais no seu original liberalismo, vou preparar um gin tónico.

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