Descalabro ético

by offarinha

A propósito do último post que aqui publiquei recebi vários esclarecimentos, entre o estupefacto e o indignado, de que dou agora conta. Aquilo que, julgava eu na minha improvável inocência, constituía uma vergonhosa excepção, dizem-me que é, afinal, a regra. Ou seja, não constitui preocupação de ninguém (nem dos próprios, nem do GAVE, o organismo do MEC que superintende a estes assuntos) que os exames sejam feitos e supervisionados por professores que, simultaneamente, se encontram a dar aulas a alunos que os vão realizar. E a indignação suscitada não é a que eu julgava ter até me terem facultado as generosas explicações, género: «Então passa-lhe pela cabeça que um professor vá dar a conhecer aos seus alunos, explícita ou implicitamente, aquilo que estão a pensar perguntar no exame?» De facto, só uma mente relapsamente céptica como a minha poderia admitir tal suposição! E, a partir desta iluminação primitiva, tudo o resto fica finalmente claro: «Como imaginar, sem injustificada maldade, que um governante estabeleça regras favoráveis a uma empresa de que se irá tornar administrador?»; ou « como afirmar, sem malícia despropositada, que um deputado que faz parte de um escritório de advogados que representa um grupo económico vote leis que beneficiem o cliente?»; ou «como suspeitar, sem mesquinhez, de um autarca que cria as regras para um concurso público em que irá participar alguém com quem trabalha diariamente?».

A candura e generosidade desta gente comoveria, não fora a seguinte contradição. É que o seu optimismo antropológico termina nos próprios. Quanto aos outros mortais, adoptam uma desconfiança hobbesiana. São os mesmos que promovem regulamentos de exames com dezenas de normas que se espalham por dezenas de páginas, que obrigam à sua pública leitura, que determinam a assinatura de compromissos de honra por crianças da quarta classe (ver aqui)…

A sanha reguladora (só para os outros, bem entendido) deste tipo de mentalidade retorcida (adopto este termo ligeiro para evitar receber novas admoestações irritadas), bem como os efeitos pretendidos, foi exposta de forma exemplar numa obra recente de Niall Ferguson, The Great Degeneration, em que o autor mostra como, nas actuais sociedades, the rule of law tem vindo a ser substituída por the rule of lawyers. Os beneficiados já se calcula quem sejam…

Por mim, além de esclarecido, fico mais descansado e absolutamente confiante. Os responsáveis pelo GAVE podem mandar servir o pão de ló molhado em malvasia…

Anúncios