Os autistas

by offarinha

Passado o momento de fadistice rasca proporcionado pela greve de um grupo profissional que, a julgar pela adesão, conseguiu diminuir ainda mais a já escassa reputação de que gozava e o mínimo respeito de que ainda poderia eventualmente usufruir; passado o indecoroso espectáculo com que um Governo incompetente e desnorteado e um Ministro pusilânime e hesitante resolveram abrilhantar a canalhice dos professores; passada esta ascorosa cena triste das vielas, seria útil (e urgente) resolver a questão do arrastamento do processo das avaliações.

Já toda a gente percebeu (excepto os próprios, evidentemente) que o pessoal ligado ao sector da Educação – do Ministro ao mais ínfimo professorinho contratado para ensinar ginástica ou trabalhos manuais – vive enclausurado numa cápsula estanque à realidade: usa uma linguagem cifrada que mais ninguém entende; funciona segundo uma lógica que só é reconhecida pelos seus utilizadores; ignora deliberada e esfusiantemente a realidade – quer dos alunos, quer da sociedade quer, sobretudo, do conhecimento – substituindo-a por uma patética ideologia político-pedagógica legitimada pelas «Ciências» da Educação e pelo discurso sindical. Se a generalidade do funcionalismo público e dos que vivem à custa do Orçamento de Estado pedecem deste mal, no caso da Educação a coisa agiganta-se até ao delírio.

O arrastamento das avaliações obedece aos seguintes pressupostos:
1) Vá-se lá perceber porquê, uma reunião de avaliação apenas se pode realizar com a presença de todos os professores da respectiva turma. Um que falte, ainda que só tenha um único aluno, e a reunião fica inviabilizada.
2) Daqui decorre o sucesso desta greve em que é escolhido o único grevista do dia por um processo de «Aniki Bóbó» o que, por arrastamento, trama todo o processo. Como se vê, os Nogueiras e os Silvas da FNE não fazem ideia do que seja uma sala de aula, mas, em comtrapartida, ninguém os supera na arte de tornar reféns alunos e colegas, bem como na chantagem sobre quem com eles não alinha. Claro está, e como infelizmente se comprovou, com o entusiástico empenho dos seus sequazes que constituem a penosa maioria da cáfila.
3) Para que conste, todas as notas já foram atribuídas, as pautas estão feitas e apenas faltam os acertos e as assinaturas finais. E, bem entendido, a indispensável presença do Aniki Bóbó.

Visto isto, o visionário Governo e o abatido Ministro Crato podem optar por uma das seguintes alternativas. A primeira consistiria em mandar realizar obrigatoriamente as reuniões, desde que com um quorum mínimo (50%?). A segunda, em alterar o regimento dos Conselhos de Administração das empresas públicas por forma a impossibilitar qualquer deliberação, caso não estejam presentes todos os seus membros e mesmo que o ausente tenha indicado prévia e expressamente o sentido do seu voto. Se o princípio é válido para uma pequena turma do secundário, porque não o alargar à TAP, à GALP ou à CGD?

Com tanto psicólogo desempregado e tanto técnico de educação especial a caminho da mobilidade, não há ninguém que providencie tratamento urgente para o autismo de toda esta gente?

Sobre esta questão, e sem referir a hilariante solidariedade expressa por um comentador que perora aos domingos na tal televisão sem a qual a democracia praticamente desapareceria, ver este comentário, e este e este. Para uma análise mais abrangente do autismo do funcionário público em geral, ver esta deliciosa crónica de Jorge Colaço.

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