A greve dos professores

by offarinha

Julgava eu que fazer greve significava um indivíduo não trabalhar como forma de sinalizar um ponto de vista ou de manifestar um protesto, assumindo depois as consequências e as responsabilidades pela sua opção. A greve que os professores estão a fazer às avaliações revela uma tão engenhosa quanto criativa transformação nos modos de se ser grevista. Manifestassem os professores igual engenho e criatividade no exercício da sua profissão, e decerto que o estado da educação em Portugal seria bem melhor!

A coisa é a seguinte. Para que se possa realizar uma das tais reuniões onde se dão notas, é obrigatório estarem presentes todos os professores. E o que engendraram os nossos originais nogueiras? Estabeleceram uma espécie de escala em que no dia tal faz greve o professor A, no dia seguinte este apresenta-se e falta o B, e assim por diante. A portentosa sagacidade grevista opera a seguinte sucessão de prodígios: numa reunião há apenas um grevista ausente, professores não grevistas e outros que, estando presentes estão em greve, mas desta forma clandestina e por delegação. A reunião não se pode realizar, os próceres sindicais dizem para a comunicação social que há 100% de adesão e os tortuosos grevistas por procuração recebem o seu salário sem cortes (eis o verdadeiro motivo para tantos contorcionismos malabares!). Sem entrar em considerações acerca das consequências desta greve para alunos e pais, ou do tipo de carácter que revela a dissimulada hipocrisia presente em tal comportamento, interrogo-me: o que pensarão os professores não-grevistas dos colegas sentados ao seu lado que, sendo também e objectivamente não-grevistas, parece que o são apenas espiritualmente por via da intercessão mística de um ausente (que trapalhada, hem!)? Imagino-me numa situação destas e, para além do impulso primário de começar a distribuir fueirada a eito (vide a epígrafe deste blogue), numa versão mais contida decerto pensaria e guardaria para mim – que canalha soez e repugnante!

Obviamente que os motivos e justificações desta greve são risíveis: os professores não querem, ao contrário da generalidade dos trabalhadores portugueses (à excepção dos seus colegas funcionários públicos, claro), ter um horário de 40 horas (lembrar aqui que não se trata do horário lectivo que permanece intocável; e, já agora, lembrar também que um professor no topo da carreira dá cerca de 10 horas de aulas semanais e que um outro, a meio da carreira, cerca de 15 horas – não se percebe como aguentam os pobres coitados tal violência!); os professores também não aceitam a maçada de serem transferidos de uma escola onde não têm nada para fazer para outra onde sejam eventualmente necessários; finalmente, não compreendem ser dispensados caso o seu emprego deixe de corresponder a uma necessidade efectiva de trabalho.

Não tendo um fundamento laboral sério, sobretudo pela desproporção entre o que se reivindica e as previsíveis consequências para os afectados (alunos e pais), esta greve deve ser lida segundo dois parâmetros. O primeiro é de natureza funcional. Como se sabe, no sector privado as greves têm um impacto residual. No sector público, só têm repercussões sérias as que ocorrem em empresas de transportes. Uma greve dos funcionários públicos tem, como todos sabemos, efeitos insignificantes. No entanto, uma greve que envolva o sector da educação precisamente nesta altura do ano tem, como já se percebeu, consequências extraordinárias. Comparando com estas greves de professores e com o efeito delas expectável, a greve geral de dia 27 já pode ser, como tudo indica que vá ser, irrelevante. E a pandilha dos nogueiras, dos carlos e das avoilas, acolitados pelos idiotas úteis sempre disponíveis, pode suspirar antecipadamente de alívio. O segundo parâmetro é de natureza política. É clara a dimensão dos transtornos e das contrariedades provocada por esta greve. Os seus promotores estão conscientes disso e a sua convocação tem um evidente desígnio político. Temos ouvido, nos últimos tempos, sucessivos apelos – mais ou menos encapotados umas vezes, e outras vezes mais estridentes e mal-criados – à insurreição, à violência e à desconsideração das instituções legítimas. Nalguns casos, apresentam-se os factos de tal forma que parece que o caos é inevitável e apenas impedido se os desejos de alguns, cuja legitimidade se desconhece, forem atendidos. Tal é o tropos político cansativamente repetido pelas alas gerôntica-soarista e socrática do PS, pelo PC e pelo BE. Como as suas profecias teimam em não se realizar e as pessoas tanto ignoram este pessoal como desprezam e detestam quem diz que as governa, uma greve com tais repercussões vem mesmo a calhar para o chinfrim mediático da sua lementável estratégia e para os seus patéticos objectivos.

Voltando aos professores em greve, ocorrem algumas questões. Como é que uma classe supostamente respeitável, e que se deveria dar ao respeito, se deixou transformar e transformou em lumpen? A patetice infantil da greve acima descrita revela o quê: manha saloia, ausência de escrúpulos éticos, ignorância dos princípios deontológicos, pura estupidez, falhas de carácter, formação deficiente? Ou tudo isto e mais alguma coisa? Seja como for, toda esta triste situação suscita um lamento entre o repugnado e o melancólico – que gentinha lastimável!

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