A parábola dos talentos

by offarinha

Para a minha gente

A parábola dos talentos aparece em duas versões com ligeiras alterações (Mt 25, 14-30 e Lc 19, 12-27). A história conta-se em poucas palavras. Um homem teve de se ausentar e deixou a administração dos bens aos seus servos, destinando a cada um deles uma determinada quantia. Uma vez regressado, pediu-lhes contas e verificou que cada um tinha aplicado o dinheiro inicial e, desta forma, obtido lucros mais ou menos consideráveis. Excepto um que, temeroso e sem iniciativa, guardou a quantia inicial e a entregou intacta, mas sem qualquer acrescento. O senhor beneficiou todos na proporção dos ganhos obtidos e, em relação ao último, manifestou tal fúria que o mandou lançar nas trevas exteriores onde parece que há choro e ranger de dentes. Se foi assim para quem guardou o dinheiro no colchão sem o fazer crescer, imagine-se para onde seria mandado o lamentável servo se, para além da sua tibieza e frouxidão, ainda se tivesse lembrado de carregar os restantes com impostos ou pedisse um subsídio sob um pretexto qualquer!

Sempre gostei do espírito desta parábola, onde encontro a defesa de alguns dos valores que mais prezo: liberdade de espírito, capacidade de iniciativa, coragem de arriscar, inteligência e imaginação para transformar o que se recebe em algo melhor. E também sempre invejei o senhor por poder aplicar tão rigoroso correctivo ao servo medroso, pusilânime e imbecil – modelo exemplar da descomunal estupidez humana. Servo que o é, sobretudo, das suas próprias limitações e da sua miserável cobardia, sem dúvida tomadas à conta de fidelidade, ou de lealdade, ou do tal respeitinho acerca do qual nos querem insistentemente convencer que é muito bonito.

Vem tudo isto a propósito de, nos últimos anos, ter convivido profissionalmente com um grupo de pessoas a quem fui distribuindo uns bens sob a forma de conhecimento. O que essa gente fez com esses talentos e, sobretudo, a forma como os investiu no seu crescimento e na sua auto-configuração, merecia uma recompensa semelhante à da parábola. Como não sou «o senhor», registo apenas, entusiastica e comovidamente, o facto e limito-me a parafrasear o que alguém terá profetizado a outro alguém: «Serás feliz, porque farás outros felizes!»

Visto da minha perspectiva, começaram muito bem. A mim, já me fizeram feliz!

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