Leituras dominicais

by offarinha

Tinha-me prometido não dedicar nem mais um minuto do meu tempo às inanidades do jornal da D. Bárbara. Como está, porém, um lindo dia e só por isso, não resisto a partilhar com os frequentadores deste blogue esta hilariante notícia(?) para cuja redacção contribuiram, note-se bem, não um nem dois, mas três bravos e competentes e imparciais jornalistas.

A dimensão das manifestações noticiadas deve ter sido paroquial pelo que se subentende do teor do texto: «No Porto foram mais de mil os manifestantes» (alguém poderá explicar qual o significado quantitaivo exacto ou, pelo menos, aproximativo desta afirmação?). «Em Lisboa, o protesto também reuniu muito menos pessoas do que outras concentrações contra a política de austeridade do Governo», tendo sido avaliada como de «dimensão média». A dimensão média – ora aqui temos o que desde já se pode considerar um novo marco no rigor informativo! Inaginemos apenas o teor da notícia se a manifestação tivesse sido de Direita ou de opositores às causas fracturantes…

Mas o mais divertido vem a seguir: «Tomé Rodrigues, cinco anos, ostenta vigorosamente um megafone decorado a preceito. Dispara a palavra “demissão” repetidamente. “Eu quero que o Governo se vá embora”, diz de uma só vez ao PÚBLICO. Paulo Rodrigues, pai e professor de Educação Física explica: “O meu filho já deve ter mais manifestações que muitos adultos. Mas só vem porque quer. Sou professor e não sei se terei emprego para o ano”». O pequeno Tomé, qual Dr. Soares em potência, dispara (note-se bem a violência de que, como já avisou o ex-Presidente da República, o Dr. Cavaco é o único responsável), não uma vez ou duas, mas repetidamente, a palavra demissão. E não pede a demissão do Governo de forma titubeante – di-lo de uma só vez. Fá-lo através de um megafone que, como nos esclarecem, não é apenas um simples megafone que o pequenito usaria inocentemente para as suas berrarias – ostenta-o vigorosamente e o mesmo está decorado a preceito. Ganda Tomé! O precoce Tomé, como se percebe, é o orgulho do seu estremecido pai, um dos tais professores de ginástica a que me referi no post anterior. E quem julga que revolução é incompatível com ternura familiar, ficará aqui desenganado. Só que se manifesta de outra maneira, mais elevada, é claro. O educador físico Rodrigues esclarece: « o puto vem porque quer (consciência revolucionária evidenciada logo nos primeiros anos de vida) e já papou mais manifestações que muitos adultos (pressupõe-se, pela idade do infante, que decidiu – porque quis, note-se – participar em manifestçãos desde que completou um anito). Ai se o Rodrigues levasse o Tomé para o ajudar na oficina ou para uma manifestação contra a co-adopção…

Mas há mais: «No protesto, marcaram presença pessoas de todas as idades. Um pouco mais à frente, Crescença Augusta, padeira reformada de 77 anos, concretizava o seu desejo num cartaz com um conselho em inglês: “troika go home”. “Sei exactamente o que isto quer dizer, meu filho. Quer dizer troika vai para casa. Aquela menina ali à frente apanhou-me aqui [Clérigos], deu-mo, explicou-me o que queria dizer e agora merece que o leve. Agora tenho de ir até ao fim do protesto e vou”, diz». Como num romance neorrealista, passamos da criança em que as virtudes proletárias já se manifestam sob a vigilância revolucionária do pai, para a velhinha que sai da alienação em que tem andado mergulhada para a luz da consciência através da jovem que até lhe ensinou inglês. A D.Crescença Augusta teve a sua estrada de Damasco aos Clérigos, fica reconhecida e declara com firmeza que, por isso, irá até ao fim da estrada. Lindo! Mas imagine-se se tivesse sido um padre a ensinar umas coisas em latim à D. Crescença para a convencer a ir a Fátima a pé… Estaria também a «concretizar o seu desejo»?

Só um bruto fica de olhos secos perante tais demonstrações de humanidade! Onde estão o Eisenstein que realize «A Padeira dos Clérigos», ou o Gorki que escreva «O Pai»? E se isto foi numa manifestação de dimensão média, o que não seria numa de dimensão média-alta, ou grandita, ou a maior de sempre, ou mesmo numa de tamanho assim jeitoso?

Para quem quiser ler coisas inteligentes, recomenda-se a indispensável coluna semanal de Alberto Gonçalves no DN.

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