Crateras e cristais

by offarinha

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Crateras e cristais, de Jorge Colaço, foi publicado no Brasil pela Editora Kelps, e reúne três corpos de textos – Pequeno Guia de Materiais, Para um Manual de Auto-Ajuda e Textos Atópicos -, precedidos pelo poema que dá o título à obra. Alguns dos poemas foram aparecendo dispersamente e outros surgiram reunidos em edição limitada. Sendo conhecidas as dificuldaddes da publicação de poesia no nosso país, é de louvar a esclarecida mão amiga que contribuiu para a sua edição conjunta do outro lado do Atlântico. Aqui ficam algumas impressões de leitura.

Prólogo – «O tempo nasce de olhos abertos». A poesia é, desde a sua origem e seja qual for o género ou o estilo adoptados, uma viagem que permite, configura, delimita e confirma um universo. Neste caso, investe-se «numa pequena poética / biológica e sustentável» que procura decifrar algumas das respostas possíveis às «Interrogações» enunciadas sem, no entanto, perder de vista o «fundo do vaso grego» onde «subsiste o perfume de um segredo insanável que mal conhecemos – o amor e a dor, a morte e o medo».

1) O silêncio – «Todo o esplendor tem as suas misérias». A taxinomia dos silêncios está exaustivamente enunciada no texto inaugural de Textos Atópicos. Esta poesia remete explicitamente para a música no sentido de uma construção a partir do (e no) silêncio, o que convém, a bem da inteligibilidade deste universo, ter sempre presente como essencial origem de significados e chave de decifrações. O vazio do espaço é, também ele, entendido como um silêncio. Força-se, assim, a sua transfiguração numa coisa que não é o vazio habitual (o espaço como que se temporaliza pela ênfase posta nos seus interstícios por preencher) e que possibilita a original arrumação e o entranhado conhecimento dos lugares da «casa». O povoamento assemelha-se ao dos filmes de Tarkovski ou às igrejas abandonadas de Tonino Guerra: marcas de corrosão e da passagem do tempo, definição intencional dos silêncios – prolongados mesmo artificialmente -, que permitem a identificação do que permanece e se evidencia emergindo das trevas. Eis o nosso «pesado destino de âncoras» limitado à música «das medusas,/ ágeis sinos de silêncio».

2) O véu da ordem – «estanco / a hemorragia / num ápice». Remetendo de novo para a música, o pianista Alfred Brendel (também ele poeta), fala da sua concepção interpretativa numa obra sugestivamente intitulada O Véu da Ordem. Longe de uma suposta aproximação nitzscheana, o véu da ordem consiste no que o pianista faz da, e com a, e a partir da, partitura sem dela, porém, se afastar um milímetro. Ou seja, trata dos conjecturais equilíbrios entre uma subjectividade sempre transcendente e uma objectividade que, pela primazia que lhe é deliberadamente concedida, merece ser religiosa e imperativamente respeitada. A poética de Jorge Colaço observa escrupulosamente este tropos de distanciamento e, sobretudo, de fidelidade: «os olhos/ aos céus/ entrego abertos/ para serem/ absorvidos pela luz/ absolvidos pela cor»; ou «não sou marinheiro / não morrerei no mar»; ou ainda na humildade da relação mármore- memória- imortalidade. O real, tal como a partitura de Brendel ou os seres naturais de Lineu, é objecto de uma apropriação analiticamente minuciosa e taxinómica que não exclui – antes intensifica – a paixão com que é reflectido como aparentemente simples guia dos materiais. O sujeito e a realidade matérica surgem assim como um espelho duplo que, sem sobreposição ou coincidência, se projectam e exibem em simultâneo, da mesma forma como os místicos identificam a sucessão das potestades celestes e, nela, identificam igualmente as sucessivas moradas da alma. Ou vice-versa.

3) Il fabro – «oficina de poetas, mestres/ no ofício de fazer/ as próprias gavetas». A poesia é, sobretudo, uma questão de oficina, de disciplina ascética com que o meticuloso artífice trata as palavras e as combina. Aconselha Verrochio ao seu jovem aprendiz Leonardo: «Acabarás por esquecer tudo,/ até o momento precário/ em que tudo se define/ a árdua geometria do início./ Procura mão (…)/ que projecte no esquecimento/ o jactante sobressalto de te achares artista./ Agora chega de conversa. Ao trabalho». Nada de mais alheio a esta poesia que o enfático, o derramado, o sentimentalismo lírico, a grandiloquência das emoções, a centragem no querido eu. Dito isto, convém igualmente atender a que esta não se reduz a um intelectualismo da dialética das ideias, ou ao compromisso programático com o real, ou ao comprazimento formal com as palavras e o estilo. A questão é que o Autor desconfia destas gavetas que não foi ele próprio quem as fez e, por isso, não as usa. Acerca das palavras, diz que as guarda numa caixa de folha flandres: «Quando sem tirar/ a tampa/ me ponho à escuta/ ouço bater um coração./ Mas é do lado de fora». Acerca da razão, que é «o lugar gradeado/ onde meteram a fera/ amansada/ que um dia se atirou ao tratador». Alternância entre o dentro e o fora que tem origem na desconfiança e no cepticismo acerca de gavetas alheias e até das próprias. Sobretudo do eu que as constrói: «Sonda o espelho/ e vê/ se te revela/ o que lhe ocultas»; ou «o teu rosto muda/ de encontro ao tempo,/ mas não muda tanto/ como o próprio tempo». Ou seja, e finalmente, «guarda o fermento apenas para o pão». O lirismo de que aqui se fala é subtil e parcimonioso. Além disso, permite-se jogar com a dureza, a rugosidade, a impenetrabilidade e a opacidades das coisas e dos sentimentos, aumentando-as ou diminuindo-as, sempre com medida, mas sem que o exercício de rigor comprometa o encantatório, nem a exuberância prejudique a contenção. Para se chegar ao fluir espontâneo desta respiração natural, é preciso esforço e conhecimento, mão paciente calibrada pela experiência, boas ferramentas e critério na selecção das matérias-primas. Ou seja, todos os ingredientes com que o talento se fabrica.

4) Com a borracha. Assim respondeu Stavinsky quando lhe perguntaram como compunha. A arte de cortar palavras, já acerca disso advertiu o Pe. António Vieira, dá muito trabalho e ocupa muito tempo. Jorge Colaço, o que não é habitual entre nós, cultiva com galhardia e decisão o texto curto. A sua genealogia não deve ser buscada, por diferenças notórias de estilo e de intenção, no haiku. Encontram-se, pelo contrário, ecos dos apotegmas oraculares dos pré-socráticos e dos estoicos («Se lanças/ um arpão de intenções/ e atinges o coração/ do teu próprio desconsolo,/ sangra em silêncio.»); da clareza luminosa do pensamento de Pascal (« Quando tudo/ que te escapa/ se concentra/ numa só ideia,/ é já tarde/ para tu próprio/ escapares/dessa teia.»); do cepticismo talhado à faca dos aforismos de Cioran (« Aguarda./ Ou pelo menos/ guarda/ por agora/ todo o tanto que sabes,/ para não te/ apontarem/ o grotesco/ e acusarem/ de gorda ignorância.»); da elegância sentenciosa dos moralistas franceses do século XVII, por exemplo, Bossuet («Não temas juízos morais,/ mas foge dos juízes morais.»); da mordacidade satírica dos epigramas de Karl Kraus («Não te/ acocores/ para não/ acabares/ a cacarejar.»). Aforismos para a auto ou hetero-ajuda (tanto faz), o que sobreleva é o pacto entre a ironia atenta, seca, lúcida, vigilante, física e brutal, por um lado, e, por outro, as imagens fortes, espessas, angulares e carregadas de carnalidade («Percutido/ na tecla de um clavicórdio/ de feltro, sem/ fio e sem trama, o tempo/ espessa e endurece,/ atacado de forma.»). Intimações de claridade e de moderação («E ama o riso/ sob as pálpebras.»), os conceitos e o discurso que eles constituem são tomados por uma espécie de expressionismo imagético. Como se Wittgenstein fosse musicado por Richard Strauss ou Bruckner.

Coda. Isto que aqui fica não pretende ser, nem um exercício de crítica literária nem sequer um esboço de exegese hermenêutica o que, pelo seu carácter desconchavado, apenas contribuiria para diminuir, imerecida e injustificadamente, a obra em apreço. A partilha destas impressões de leitura é, apenas e tão só, uma outra forma de dar um abraço a um querido Amigo.

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