Os ferros do bastonário

by offarinha

Já me tenho aqui irritado com as prodigiosas imbecilidades que o bastonário da Ordem dos Médicos usa para defender os seus interesses corporativos. Hoje acordei com mais um dos mimos que regulamente prodigaliza. Parece que o governo brasileiro pretende convidar médicos portugueses e espanhois para zonas carenciadas. Em contrapartida, elimina as burocracias relativas às equivalências requeridas para a prática da medicina, sendo que este reconhecimento se limita apenas ao local do contrato. Logo o tonitruante Dr. Silva, decerto sustentado nas lúcidas concepções da Doutora (por extenso, não vá a criatura se ofender) Raquel do post anterior, alertou: «O que os brasileiros propõem é um contrato próximo da escravatura!».

Dando de barato a questão hermenêutica do «próximo da», algumas perguntas. Estará o o governo brasileiro a organizar umas razias nos hospitais e centros de saúde para raptar médicos, os separar à força das respectivas famílias e enviá-los contra sua vontade para o sertão? Não tenciona pagar um salário previamente acordado, ou apenas se compromete com a malga de mandioca? E os locais para onde os escravos do estetoscópio vão forcejar não são já conhecidos ou, cavilosamente, a Presidente Dilma pretende vingar-se do passado destinando estes portugueses ao tráfico?

Conhecem-se as elevadas concepções deontológicas do Dr. Silva a propósito da promiscuidade público/privado, fraudes com horas extraordinárias e negociatas com a indústria. O bastonário, que decerto conhece o Brasil por meio de frutuosos congressos e viagens oferecidas inocentemente, sabe do que fala: exercer fora dos grandes centros é escravatura. É esta, de resto, a razão pela qual os centros de saúde da provínicia estão cheios de médicos espanhois, colombianos, cubanos, etc. Porque não propõe o Dr. Silva que eles vão para Lisboa, Porto ou Coimbra? Ou porque não denuncia esta escravatura debaixo do seu nariz e com a sua cumplicidade activa?

Ao governo brasileiro: se quiserem capturar o Dr. Silva, podem contar comigo para negreiro. Com a garantia de que, uma vez apanhado, o marcam, lhe colocam ferros e o enviam, para sempre e sem contactos com o resto do mundo, para os confins da Amazónia. E antecipo as minhas desculpas e a minha compreensão aos pobres habitantes que, não lhes bastando viver no fim do mundo, ainda terão a desdita de conviver com tal cretino.

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