Wagner – 200 anos

by offarinha

Cumprem-se hoje 200 anos sobre o nascimento de Richard Wagner. Acerca da dimensão e da complexidade do universo que construiu é impossível elaborar um discurso sequer medianamente satisfatório. Há quem ame apaixonada e obsessivamente e há quem odeie, não há meio termo. Como dizia o outro – passe-se sobre isto em silêncio.

O meu primeito contacto com a música de Wagner foi num longo serão televisivo (nesses tempos, longo deve ter sido até aí por volta da meia-noite), em casa de meus avós maternos, sob a égide de João de Freitas Branco. Seria o Tristão? Como se percebe, ainda muito novo, apenas ficou a lembrança do gigantismo da coisa. A perseverança na audição ter-se-á ficado a dever a quê? Apenas à insistência do meu avô? De qualquer forma, foi o Prólogo para as todas as Jornadas que se seguiriam. A grande descoberta deu-se, também foi por via televisiva e sob a mesma tutela de João de Freitas Branco, com a produção do centenário do Anel em Bayreuth, de Boulez/Chéreau, em 1976. Pela mesma altura, em S. Carlos, era também apresentada a Tetralogia na versão do neto do compositor. Nas torrinhas, primeiro, e, nas duas últimas jornadas já na plateia, o efeito do feitiço foi tremendo e dura até hoje.

A compra, nuns saldos em Londres, dessa mesma ópera na versão de Solti (ainda hoje a minha preferida) em dezenas de discos em vinil, o seu acondicionamento nas malas e a respectiva trasfega para Lisboa, constituíram um episódio épico, digno dos deuses e heróis da Walhalla. Em S.Carlos, recordo um Parsifal, um Tristão, um Navio Fantasma, uma Valquíria e, mais recentemente, a Tetralogia de Graham Vick. Outras coisas houve em Paris e Londres. Depois há as inúmeras gravações – do Tristão, para aí uma dezena – ouvidas religiosa e repetidamente, sem que nada se esgote ou diminua.

Parece que o ciclo se fechou e, para hoje termos Wagner, ou vamos ao estrangeiro ou regressamos à televisão (o serão das quatro últimas noites no Mezzo foi preenchido pelo Anel do Met que já passou na televisão gigante da Gulbenkian). A julgar pelo que se sabe, tão cedo não haverá Wagner em S. Carlos. Sejamos sérios – não haverá ópera em S. Carlos! E, atendendo às cretinices que por lá têem sido exibidas, se calhar assim ficamos mais bem servidos.

Viva Wagner!

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