Rodrigo da Fonseca

by offarinha

Numa recente obra dada à estampa, Um Homem Singular – Biografia política de Rodrigo da Fonseca Magalhães (1787-1858), Maria de Fátima Bonifácio traça um retrato do fundador, no sentido político, da Regeneração. A Autora não consegue evitar, sem perder completamente a objectividade e a distância crítica, a complacência e até o apreço que a personalidade do biografado lhe merece. Eis alguns traços com que o define: “Era o oposto de um visionário, porque imbuído de um cepticismo que o inibia de conjecturar futuros radiosos para um país a cuja pobreza material e cultural ele afinal mais ou menos se resignava, e porque conhecia demasiado bem os homens para, salvo raras excepções, lhes supor a abnegação, a determinação e a coragem que exigiria uma radical e genuína regeneração do País. Contentava-se com um progresso razoável, gradual, temendo muito «os saltos mortais em pontos de reforma». Achava a tranquilidade pública um bem inestimável.” Ou: “Muita gente dizia de Rodrigo que era um «fatalista». Com efeito, ele justificava frequentemente as suas atitudes, incluindo mudanças de opinião, com os factos consumados, contra os quais julgava que não valia a pena lutar. Procurava nunca perder de vista a realidade e não se aferrar a teorias rígidas, porque achava que não as havia «nem sempre más nem sempre boas»: dependia das circunstãncias concretas, e quem fechava os olhos a estas, invocando princípios abstractos e universais, podia ter a certeza de errar. Cabia aos políticos, em vez de tentarem inutilmente anular os factos acontecidos – «fatais» – dar-lhes a melhor orientação possível para que não resultassem em calamidades”.

A ideologia do biografado, até pelas condições históricas em que operou, foi sempre apenas a deste realismo céptico ou resignação fatalista. As diferenças de opinião com que foi confrontado reduziam-se à algazarra e ao facciosismo. Em contraponto, o seu conservadorismo reformista não foi além da «fusão» e do «pastel», de um pretérito bloco central conseguido em torno do caminho de ferro e das estradas do fontismo, de que Rodrigo foi o principal fautor político. Evitava os partidos, mas utilizava-os, manipulando-os; fazia da arte da política um mero execício de coligações e consensos em redor do «progresso» resultante das obras públicas e de uma incipiente promoção do ensino. A isto se resumiu o seu rasgo, a sua convicção e a sua obra. O que, se calhar e a julgar por esta obra, não foi pouco.

Conta-se que, no leito de morte, terá dito: «Nasci entre brutos, vivi entre brutos, morro entre brutos». A citação parece que é apócrifa, mas reproduz a sua visão dos homens com quem teve de conviver. Rodrigo da Fonseca, malgré lui e a sua biógrafa, não esteve tão distante deles como desejava e quis fazer crer. E, também para nosso mal, dos outros que aconteceram depois dele e até hoje.

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