Iliteracia e acrasia (4)

by offarinha

Do Expresso raramente sai alguma coisa que valha a pena assinalar. Basta pensar nas patetices satisfeitinhas do mano Costa Júnior ou dos arremedos do inenarrável poetastro Nicolau para a pele se engalinhar. Para assinalar a excepção, dois exemplos.

Num, Henrique Raposo, aponta a cobardia do Presidente Cavaco Silva. Conviria acrescentar que não se trata apenas – nem sobretudo – de cobardia, mas da forma mentis da criatura, da incapacidade (ou oportunista falta de vontade) de ver fora dos seus quadros de formação (o que representa, neste caso, o equivalente da iliteracia) e de desonestidade (acrasia, se quisermos ser benevolentes). Convém lembrar que o Presidente optou livremente pela sua reforma em detrimento da remuneração correspondente à função presidencial, bem como as declarações produzidas acerca das suas dificuldades como pobre reformado. Não estamos a falar, por isso, de desonestidade política mas, tal como no caso de Ferreira Leite, Bagão Félix, Pinhal e outros, de desonestidade tout court. A conspiração grisalha bem pode tentar o disfarce por via da tinta dos cabeleireiros – as raízes à mostra indicam exuberantemente o sentido tanto das justificações como das omissões.

Noutro, Henrique Monteiro, apresenta alguns dos elementos essenciais que já deveriam estar a ser discutidos há, pelo menos, dez anos. Dada a irreponsabilidade vigente, onde avulta o oportunismo dos cavaquistas e a garotice de Portas e dos meninos com penteados esquisitos (pensarão em impulsionar um outro cisma de inspiração capilar?) do CDS, conviria aqui ter em conta as alternativas possíveis de transição entre os modelos em análise.

Mas alguém, da esfera do Governo ou da oposição, dos comentadores ou dos órgãos de informação, da academia ou dos sindicatos, dos poderes institucionais ou dos movimentos informais, tem algum interesse nisso? Depois não se queixem quando a coisa aquecer. Aquecimento que, neste contexto, tem uma amplitude significante muito para além do que actualmente podemos imaginar.

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