Água! Ou do fascínio pelo pentelho

by offarinha

Esta notícia dá conta que apenas 44 dos 2300 candidatos a um concurso do Ministério dos Negócios Estrangeiros passaram num exame de cultura geral. Mas não é deste facto, ou sobre ele, que a maior parte da notícia fala. Fala, sobretudo, de outras coisas: de um despacho do ministro, de um comunicado do MNE, das opiniões de alguns candidatos indignados, das considerações de um embaixador, de questões avulsas acerca da natureza das perguntas e do tipo de teste aplicado. Na linha da habitual bajulação aos «jovens» e à «juventude», omite qualquer referência à notória ignorância dos candidatos e, para não contradizer o mantra da «geração mais qualificada de sempre», evita qualquer reparo sobre a preparação ministrada pelas escolas – secundárias e universitárias – aos mais de 98% de licenciados que foram eliminados.

É muito lusitano este cultivar da paráfrase e do circunlóquio, esta arte de evitar ir ao essencial através do recurso a considerações avulsas e a numerosas contextualizações, esta pusilanimidade em adoptar uma posição clara através do interminável confronto entre perspectivas supostamente equivalentes. No final de um excelente jogo de futebol, o que importa é repetir ad nauseam um lance em que ninguém consegue decidir se é ou não penalti; numa decisão política, substitui-se a análise dos seus fundamentos e das suas consequências por objecções formais e pelo comentário aos comentários dos comentadores; num crime, o que é ressaltado é o contexto socio-económico e os traumas infantis do criminoso.

Na Correspondência de Fradique Mendes, Eça de Queiroz atribui a Fradique a seguinte réplica: “Se um rato morto me disser – «eu cheiro mal por isto ou por aquilo e sobretudo porque apodreci» – eu nem por isso deixo de o mandar varrer do meu quarto”. Esta não é, infelizmente e com os resultados conhecidos, a atitude predominante. O indígena parece ficar hipnotizado pelo rato morto e pelas razões da sua podridão. Usando a imagem de João César Monteiro e as palavras imortais do Dr. Catroga, o português desenvolveu um invulgar e obsessivo fascínio pelo pentelho. Acreditará que, por atirar muitos tiros na água, o porta-aviões acaba por ir ao fundo?

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