A mão invisível – versão indígena

by offarinha

Ele há bastos exemplos a demonstrar as prodigiosas concepções que as empresas indígenas têm de capitalismo, de mercado livre, de concorrência e de auto-regulação. Aqui vai mais um, este na área da edição.

Por dever de ofício, nos últimos dias tive de olhar para dez manuais escolares de Filosofia destinados ao 10º ano. Os dez manuais foram editados por seis editoras, algumas delas fazendo parte dos mesmos grupos editoriais. Os dez manuais são todos diferentes (nalguns casos as diferenças são muito significativas) no conteúdo, nos autores e consultores, no tamanho, no número de páginas, no aspecto gráfico, na quantidade de imagens, no tipo de papel utilizado, na qualidade da impressão, no número de anexos (CD roms, cadernos de actividades para todos os gostos, etc.). Mas as diferenças terminam quando se chega ao preço – os dez manuais das seis editoras custam todos 27€! Minto: há um que custa 26,50€!

Gosto de imaginar os gabinetes financeiros das editores a abandonarem deliberadamente o Excel e as variáveis para a formação de preços e, num esforço de simbiose com a disciplina tratada, investirem num novo método – o método aristotélico-tomista da definição por via exclusivamente especulativa da essência do preço de um ente, no caso em apreço, um manual de Filosofia. Como se prova, o resultado foi – como era previsível – universal (o tipo dos 26,50€ não conta porque se tratou, manifestamente, de um erro resultante de falha de raciocínio).

Gosto também de imaginar os figurões da utilíssima e indispensável Autoridade da Concorrência a franzirem os respectivos sobrolhos, desconfiados. Não pela unanimidade do preço, claro, mas pelo método utilizado. Para esta gente, de formação solidamente científica e carácter irredutivelmente céptico, qualquer método especulativo é motivo de suspeita. A sua análise baseia-se em considerações sobre os fractais, modelos de econometria dinâmica e em considerações quânticas. Os 27€ são indiscutíveis – o que acontece é que o valor não tem a ver com essencialismos despropositados, nem com questões de cartel (sobretudo não tem nada a ver com questões de cartel!, isto que fique claro), mas com o acaso e, sobretudo, como a necessidade decorre do acaso. Aliás, outro exemplo explicado por razões deste tipo é o preço dos combustíveis. O tipo dos 26,50€ resulta do princípio da incerteza, ou das alterações climáticas ou de uma sinusite qualquer que o afectava na altura dos cálculos.

No tempo eu que eu era estudante, éramos todos oprimidos sob a política ditatorial do livro único. Agora, numa sociedade democrática, numa economia de mercado concorrencial e inseridos no grande espaço europeu, somos todos felizmente livres sob a política do preço único.

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