Linguagem imprópria

by jfc

A notícia de que a CGD acabou por rejeitar uma iniciativa da editora Saída de Emergência prevista para o dia do livro serve de pretexto para duas ou três reflexões.

Nos factos narrados – a CGD achou que alguns dos livros não tinham uma linguagem adequada à imagem do banco -, o que é mais espantoso é que a CGD não tenha colocado à partida as restrições que legitimamente entendesse e que a editora aceitaria ou não. Adiante.

É sabido que a editora em apreço se tem destacado sobretudo por publicar ficção na área da «fantasy» e do fantástico. Vampiros, grohls, lobisomens, manifestações diversas do sobrenatural e do paranormal, sangue, horror, mundos cruentos e arcaicos ou, pelo contrário, mundos inescrutáveis de tão longínquos no tempo futuro, nada disso afectaria, supõe-se, a imagem do distinto banco. A linguagem imprópria – erótica, obscena – sim.

Não vou tecer considerações de ordem literária, elas não estão presentes no gesto condenatório, nem sequer de modo implícito. Não se trata pois de uma questão literária. Mas esta história da «linguagem imprópria» interessa-me. Aliás, interessa-me o modus operandi do impoluto banco: como foi detectada e quem detectou a existência da linguagem imprópria? Os cenários são diversos e imaginar qualquer deles seria imensamente divertido. Como divertido seria imaginar que o grande romancista americano Philip Roth seria irremediavelmente banido da ilustre Caixa. Ou como seria embaraçoso recusar os livros de Lobo Antunes ou de Miguel Esteves Cardoso. Mas adiante.

Este episódio é obviamente menor e sem grande importância, mas é um episódio que se acrescenta a outros. E todos apontam para o mesmo: numa época em que tudo circula em todo o lado, muitas vezes sem qualquer critério ou com critérios de estarrecer, parece ter-se instalado na sociedade portuguesa um subtil e irritante moralismo.

E a subtileza reside nisto: é que sempre se assacou o moralismo, sobretudo em matéria sexual, à direita, esquecendo que a esquerda exibe, demasiadas vezes, um moralismo bem mais intolerante. Será bom não esquecer que muitos morreram ou foram perseguidos pela chamada «moral comunista». E que ela também foi invocada para censurar e banir livros por terem linguagem «imprópria».

Puta que os pariu.

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