J. Rentes de Carvalho

by offarinha

Scan0001

J. Rentes de Carvalho é, hoje, um dos escassíssimos ficcionistas portugueses. Quando digo ficcionista, digo escritor que sabe contar uma história. Isto implica que a técnica narrativa é fluente e prende o leitor sem que este se sinta obrigado a saltar páginas, ou a bocejar com lirismos delicodoces, considerações enfadonhas ou construções estupidamente incompreensíveis. Depois, o estilo e a linguagem são limpos, elegantes, enxutos, clássicos, como só é possível em quem já leu muito e bem, e não se deixa deslumbrar por preciosismos ou pretensiosismos tão louvaminhados por certa crítica. As personagens são credíveis e diversificadas, apresentadas em exemplares pinceladas, e sempre contextualizadas com uma economia de meios tal que se confundem com os ambientes físicos e sociais donde emergem. Recursos estilísticos controlados, domínio das técnicas e processos narrativos, combinação exemplar entre as descrições certeiras, a narração e a sua ocupação pelas personagens, ausência de rodriguinhos e ironia que baste, convenhamos que nada disto é vulgar na firma Tordo, Peixoto & mãe, nem nas estopadas pretensiosas de Lobo Antunes, nem no intelectualismo descabidamente forçado do nosso Musil das Avenidas. A única excepção que me ocorre, por motivos semelhantes mas diferente perspectiva, é outro de Carvalho, o Mário.

Há duas coisas que sobressaem nos romances e contos de Rentes de Carvalho, por contraste com a sua quase ausência na ficção portuguesa actual. A primeira é que ele fala de nós, das nossas idiossincrasias, dos nossos limites, das nossas abjecções, das nossas grandezas, dos nossos abismos e é esse o material de que são feitas as histórias. E, ainda por cima, o espelho que são as histórias é lúcido e certeiro e divertido e aterrador. A segunda é o domínio da dificílima técnica dos diálogos. Poucos conseguem, como ele, evitar o pretensiosismo ridículo ou piroso, e tornar credível, esclarecedor e integrado o ritmo das falas – um pouco à maneira de um bom guião cinematográfico. Um outro aspecto, mais lateral, merece ser referido. Como nos filmes de Hitchcock, em que a rápida passagem do realizador constitui uma espécie de marca de água, o Alto Douro é a marca de água de Rentes de Carvalho. Pode ser de passagem, mas a transfiguaração operada, mesmo por momentos, chega a ser comovente.

No seu último romance. Mentiras e Diamantes, Rentes de Carvalho resolveu escrever um thriller. Imagine-se! um thriller à americana ou à inglesa em que estão presentes todas as convenções do género, sobretudo o suspense até á última página, mas também acção e crime, perigo e redenção, personagens burlescas e sinistras, trágicas e patéticas, viagens por Portugal e pela Europa, reviravoltas narrativas e revelação de segredos… Como o autor se deve ter divertido!… Como nós nos divertimos!… Que magnífica série da HBO isto daria!… Muito bom!!!!

Anúncios