Lamentações

by jfc

Creio que a grande tragédia da minha geração foi/tem sido/é a questão da pertença Europeia.

Depois de estabelecidos os “direitos e garantias” que não existiam, ou existiam de modo esfarrapado, no momento de virmos a este mundo, e passados os momentâneos ardores revolucionários que a Guerra Fria produzira como resíduo, creio ter sido a Europa o elemento mais motivador da minha geração.

Nascidos num país tranquilamente triste, em que a paleta de cores dominante se modulava ao longo das várias tonalidades que medeiam entre o preto e o branco, passámos a adolescência ofuscados pela erupção de cor que era a Europa além-Pirenéus.

Passámos a adolescência e parte da juventude divididos entre dois regimes simultâneos: o circunspecto regime político cuja matriz ditatorial, por um lado, se corporizava na minúcia repressiva e, por outro, na desagregação do seu próprio corpo, conservando apenas no rosto alguns vestígios de severidade. Vivíamos politicamente sob a ditadura nacional, mas culturalmente ela era apenas um pretexto para “conspirarmos” abertamente à mesa do café.

Com mais ou menos razões de ordem ideológica, não desejávamos ardentemente ir para África. A Europa era o nosso ideal. Era como queríamos ser. Era o lugar onde ir quando se sonhava sair daqui.

Havia mais cor, mais liberdade, mais diversidade, mais livros, mais música, mais espectáculos, mais civilização. Havia sobretudo um maior nível económico, salarial, directamente proporcional a essa organização da vida.

Um dia, disseram-nos que íamos então, finalmente, “entrar” na Europa, a que geográfica e culturalmente sempre pertenceramos. E que, por consequência, íamos passar a integrar esse universo de cores mais vivas de que tínhamos sido longamente privados.

Quando nos disseram – a própria “Europa” nos disse – que essa pertença significaria objectivamente uma “convergência” de preços e salários, respirámos fundo. Íamos passar a ser Europeus de pleno direito.

E passámos a viver na ilusão de que era assim. Todos.

A convergência tardou e a máscara foi caindo. Vivemos um período de simulacros, no consumo, na possibilidade de viajar, na imitação pobre de certos gestos. Mas a distância da periferia para o centro não diminuiu. O sítio continuou a ser pequeno e mal frequentado. Passámos a ser ponto de passagem da caravana internacional do rock, mas deixámos de ter ópera. Continuámos a encomendar fora os livros que não chegam cá. O ensino atolou-se no próprio pântano que criara (e éramos já demasiadamente velhos para o Erasmus). Nem os piores desmandos das governações nos guindaram a níveis de vida sequer parecidos com os dessa Europa mítica que sonháramos.

À lentidão da convergência seguiu-se a divergência. E hoje sabemos, finda a ilusão, que vivemos acima das nossas possibilidades e que, afinal, é preciso baixar os parcos salários que sempre ganhámos.

Não, este texto não é uma diatribe contra o actual governo. É a lamentação amargurada da perda de um ideal, traído ou desfeito por todos, ou quase todos, ao longo de décadas. É a lamentação de uma sociedade que nunca conseguiu verdadeiramente fugir à gama de tons que, da mediania à mediocridade, configuram o único lugar onde se “cumpre Portugal”.

Dir-me-ão que há excepções, zonas de excepção. É verdade, servem para confirmar a regra. Dir-me-ão que a Europa também mudou. É verdade, e para pior. Mas mantendo a diferença de patamar que à partida nos separava. Não fomos capazes de subir esse lanço de escadas.

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